Não tem olhos solares meu amor;
Mais rubro que seus lábios é o coral;
Se neve é branca, é escura a sua cor;
E a cabeleira ao arame é igual.
Vermelha e branca é a rosa adamascada
Mas tal rosa sua face não iguala;
E há fragrância bem mais delicada
Do que a do ar que minha amante exala.
Muito gosto de ouvi-la, mesmo quando
Na música há melhor diapasão;
Nunca vi uma deusa deslisando
Mas minha amada caminha no chão.
Mas juro que esse amor me é mais caro
Que qualquer outra à qual eu a comparo.
Poemas de amor (tradução de Barbara Heliodora)
Gosto muito do soneto CXXX: Shakespeare “desmetaforiza” o amor ideal: a amada não é aquela cantada pela maioria dos poetas: a musa de cabelos sedosos, lábios rubros e pele alva. Ela “caminha no chão” e tem uma cabeleira igual ao “arame”. Muito se especula sobre a chamada “dark lady” que habita muitos dos seus belos sonetos. Será que o bardo inglês teve um love-affair com uma africana, ou com uma mestiça, ou mesmo com uma sensual italiana com a tez tingida pelo sensual sol mediterrâneo?
Especulações à parte, não se deve esquecer que um bom poeta é, sem dúvida nenhuma, um bom “fingidor”, como já dizia Fernando Pessoa. Para mim, o mais interessante é perceber como Shakespeare desconstrói as metáforas tradicionalmente atribuídas à amante ideal – aquela que apenas se encontra nos sonhos e na imagem construída pelas chamas da paixão. A amante do soneto CXXX é a amante “real”, cujo amor, na ótica do poeta, é muito “mais caro” do que toda a beleza efêmera.
Se há uma metáfora no soneto, a mais importante é, na minha opinião, o próprio fazer poético. É o poeta falando sobre a própria poesia, sobre a construção do amor “ideal” versus o amor real na literatura e, por analogia, na vida. Dessa forma, o poema se torna um “metapoema”.
Achei a ilustração acima aqui. O nome do pintor é Merello.

