Não tem olhos solares meu amor;
Mais rubro que seus lábios é o coral;
Se neve é branca, é escura a sua cor;
E a cabeleira ao arame é igual.
Vermelha e branca é a rosa adamascada
Mas tal rosa sua face não iguala;
E há fragrância bem mais delicada
Do que a do ar que minha amante exala.
Muito gosto de ouvi-la, mesmo quando
Na música há melhor diapasão;
Nunca vi uma deusa deslisando
Mas minha amada caminha no chão.
Mas juro que esse amor me é mais caro
Que qualquer outra à qual eu a comparo.
Poemas de amor (tradução de Barbara Heliodora)
Gosto muito do soneto CXXX: Shakespeare “desmetaforiza” o amor ideal: a amada não é aquela cantada pela maioria dos poetas: a musa de cabelos sedosos, lábios rubros e pele alva. Ela “caminha no chão” e tem uma cabeleira igual ao “arame”. Muito se especula sobre a chamada “dark lady” que habita muitos dos seus belos sonetos. Será que o bardo inglês teve um love-affair com uma africana, ou com uma mestiça, ou mesmo com uma sensual italiana com a tez tingida pelo sensual sol mediterrâneo?
Especulações à parte, não se deve esquecer que um bom poeta é, sem dúvida nenhuma, um bom “fingidor”, como já dizia Fernando Pessoa. Para mim, o mais interessante é perceber como Shakespeare desconstrói as metáforas tradicionalmente atribuídas à amante ideal – aquela que apenas se encontra nos sonhos e na imagem construída pelas chamas da paixão. A amante do soneto CXXX é a amante “real”, cujo amor, na ótica do poeta, é muito “mais caro” do que toda a beleza efêmera.
Se há uma metáfora no soneto, a mais importante é, na minha opinião, o próprio fazer poético. É o poeta falando sobre a própria poesia, sobre a construção do amor “ideal” versus o amor real na literatura e, por analogia, na vida. Dessa forma, o poema se torna um “metapoema”.
Achei a ilustração acima aqui. O nome do pintor é Merello.

16 respostas so far ↓
Edelize // Janeiro 31, 2007 às 10:05 am
e o que me chamou a atenção, além da beleza dos versos, o trabalho da tradutora!
elisa // Janeiro 31, 2007 às 4:59 pm
Também concordo com Edelize, a tradutora fez um óptimo trabalho!
E gostei de descobrir este soneto:)!
Obrigada
cris s // Janeiro 31, 2007 às 5:57 pm
Edelize e Elisa,
A Barbara Heliodora é a maior autoridade em Shakespeare aqui no Brasil. Publicou vários livros, alguns traduzidos para o inglês (de tão bons!). Ela traduziu quase todas as peças de Shakespeare e, com seus oitenta e poucos anos, dedica a sua vida a fazer críticas de teatro e a traduzir as peças faltantes.
É uma senhora adorável, cultíssima e muito simpática. Já viz vários cursos c/ ela.
bjkas p/ as duas,
Cris
Raquel // Janeiro 31, 2007 às 8:47 pm
Oi.
Cheguei ao seu blog via o Síndrome de Estocolmo da Denise.
Estou encantada, de verdade.
Quanta coisa nova aprendi lendo seus posts. Nunca tinha ouvido falar em ecocritica e, de repentemente, faz todo o sentido do mundo!
Posso colocar um link para o seu blog no meu bloguinho?
Raquel
P.S. Também não gostei de Babel.
P.S.1 A Bárbara é uma lady. Suas críticas de teatro são temidíssimas, mas ela pode. Quando lançaram “Shakespeare apaixonado” no Brasil, os distribuidores fizeram uma cabine apenas para os críticos de cinema e a Bárbara foi por O Globo. Quem estava lá conta que ela ia recitando baixinho junto com os personagens as falas de Shakespeare. Achei o máximo.
cris s // Fevereiro 1, 2007 às 2:22 am
Raquel,
Seja benvinda aqui! Pode me linkar sim, é claro. Obrigada pelos gentis comentários.
A Barbara é uma senhora adorável, que tem um vozerão engraçado e sempre está de vestido, parece uma inglesa. Sabe as peças de cor (em inglês) e fala de Shakespeare c/ uma intimidade impressionante. Vc sabe que fizeram uma peça falando dela “Quem tem medo de Barbara Heliodora?” (numa referência à “Who’s afraid of Virginia Woolf” do Edward Albee). Ela é realmente temida no meio teatral pois a palavra é um selo de garantia. Não há ninguém q conheça teatro (não somente o shakespeariano) melhor do que ela.
Qdo tiver um tempinho, dou um pulinho no teu blog.
bjs,
Cris
Lili // Fevereiro 1, 2007 às 8:22 pm
Olá! Voto na italiana. Acho que o meu cabelo , que é cacheado, é mais parecido com um arame do que o das mulheres negras. Os cabelos crespos costumam ser macios, lembrando um tufo de algodão. Mas cada poeta tem a sua interpretação… pergunta intrigante!
cris s // Fevereiro 1, 2007 às 10:14 pm
Lili,
Sabe que se fosse para ser uma delas, eu também apostaria na italiana. Naquela época era raro encontrar africanas e mestiças na Inglaterra. Então a italiana seria a opção mais plausível. Quanto ao cabelo, vc também tem razão… o meu cabelo também é feito um arame, apesar de eu tentar domá-lo.
Mas, sinceramente, eu acredito que mesmo que tenha existido uma dark lady na vida real de Shakespeare, o mais importante é, sem dúvida, a maneira pela qual ele a descreve. E é isso que permaneceu.
bjkas
Raquel // Fevereiro 2, 2007 às 2:18 am
Realmente a Bárabara conhece muito de teatro e acho que tem muita gente que a detesta justamente por causa desse conhecimento, somado à experiência empírica de ter visto praticamente todo texto teatro que existe encenado em pelo menos três versões e línguas diferentes.
Uma vez li uma entrevista, não lembro com qual diretor, que ele dizia não se importar com as críticas, só achava que ela poderia ser mais generosa com jovens atores, porque ela massacra iniciantes e veteranos sem piedade.
Eu acho ela é ótima e há duas ou três semanas elogiou uma montagem do Oscar Wilde com tanta empolgação que virou até capa do Segundo Caderno de O Globo.
Adoraria fazer um curso com ela.
Ah, quem sabe a dark lady do Shakespeare não era uma espanhola?
cris s // Fevereiro 2, 2007 às 3:42 am
Raquel,
Hum, uma espanhola morena, sensualíssima? Hehe. Se nos basearmos na parte histórica, seria pouco provável (mas não impossível!) pois na época a coroa espanhola estava contra a Inglaterra por conta do pai da Elisabete I, o famigerado Henrique VIII. E os espanhóis (e todos os seguidores da “velha fé”, os católicos) eram perseguidos.
Menina, vc lê bastante sobre teatro, não? Vc trabalha c/ teatro? Vc conhece o site da Barbara? Ela é de fato um pouco cruel e elitista, mas eu entendo. Como vc disse ela sabe TUDO de teatro e não gosta de amadores. Acho, também, que ela está fazendo o trabalho dela. Afinal, ela é “crítica” de teatro. E quando ela gosta, todo mundo gosta (e com motivo). Não é tietagem não, Raquel, é que ela é realmente “Barbara”. Nunca vi um nome servir melhor p/ uma pessoa.
Seja sempre benvinda.
bjs
Tiago // Maio 7, 2007 às 8:04 am
Encontrei este blog por acaso enquanto eu procurava informações sobre a peça Quem tem medo de Virginia Woof? Então comecei a ler e percebi que descobri mai sobre a Barbara Heliodoro do que sobre a peça em si. Mas tudo bem! rsrrs…É sempre bom saberum pouco mais de alguma coisa…rsrs…Ah já ouviu falar numa peça chamada Barbara não lhe adora. Não assisti, mas escutei alguma coisa…Sou ator e escrevo tbm e fico feliz de ver essa bate-papo no seu blog. Muito valido. Um beijo.
cris s // Maio 7, 2007 às 12:51 pm
Oi Tiago,
Seja bem-vindo! Você estava se referindo à peça “Quem tem medo de Barbara Heliodora”? (é uma paródia de uma peça conhecidíssima chamada “quem tem medo de Virginia Woolf” , de Edward Albee).
Nunca ouvi sobre a peça “Barbara não lhe adora”! hehe.
Legal você ser ator. Eu sou professora!
Apareça quando quiser. De vez em quando rola papo sobre teatro.
Cris
Lucas Arcturus // Maio 17, 2007 às 12:20 pm
Ah, a docilidade realista shakesperiana! A perda da visão luxuriosa de Deusa, para ente humano, terreno, vindo do pó, porém, amado!
Um brinde ao meu amigo Bardo!
cris s // Maio 31, 2007 às 2:22 am
Lucas,
Seja bem vindo!
Brinde feito ao grande Bardo.
Cris
poetriz // Novembro 3, 2007 às 11:26 pm
Esse também é meu poema favorito dele!
elias maluco // Março 11, 2008 às 5:13 pm
adorou o poema eu fiz muito amigo com shakespeare e um grande amor ,,bj a todo
maehaj // Junho 15, 2008 às 4:08 pm
sonetos
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