A década de cinqüenta testemunha uma mudança radical na sociedade americana, especialmente se comparada às décadas precedentes. Enquanto os anos trinta e quarenta limitaram os americanos à frugalidade e ao racionamento, os anos cinqüenta iniciam um processo de consumismo sem precedentes. Os americanos possuíam 75% de todos os carros e eletrodomésticos que se fabricava no planeta. Em busca de uma ‘vida normal’, a sociedade esquece muito rapidamente dos horrores da Segunda Guerra Mundial e tenta aplacar o pavor da Guerra Fria se transportando para um futuro maravilhoso anunciado na televisão, nas revistas e na publicidade.
É neste contexto histórico que nasce a imagem da mulher como consumidora e como objeto de consumo. Pois, como observa Luisa Passerini, a mulher desempenha uma função-chave para a cultura de massa, “quer como lugar de afirmação dos valores definidos como puramente femininos, entre os quais a individualidade, o bem-estar, o amor, a felicidade, quer como amplificador de imagens de mulheres sedutoras [...]”.

A imagem é tudo. Vale mais que mil palavras. Aliás, vale muito mais que mil palavras. E a mulher é, sem dúvida nenhuma, ao mesmo tempo a protagonista e a vítima da indústria do olhar. Esta mulher-imagem-objeto irá influenciar a maneira como vemos, como nos vestimos, como pensamos, como nos comportamos. Somos, para usar uma palavra bem contemporânea, “domesticadas” pelas imagens. E o corpo é o nosso santuário. Como diz Baudrillard:
“No universo da sociedade de consumo, há um objeto mais bonito, mais precioso, mais impressionante que qualquer outro – um objeto mais carregado de conotações do que o automóvel; este objeto é o corpo. A redescoberta do corpo depois da época do puritanismo sob o signo da liberação física e sexual; a onipresença do corpo – especialmente do corpo feminino – na propaganda, na moda na cultura de massa – os cultos higiênicos, dietéticos e terapêuticos que circundam o corpo, a obsessão com a juventude, com a elegância, com a feminilidade, com tratamentos, dietas e sacrifícios ligados a ele. O Mito do Prazer que envolve o corpo – tudo é evidência que hoje o corpo tornou-se um objeto sagrado. O corpo literalmente substituiu a alma na sua função ideológica.”
Baudrillard tem toda razão: o corpo se tornou objeto último da obsessão narcisista, dos cuidados excessivos e de tratamentos cosméticos, muitas vezes, inescrupulosos. Nos dias de hoje, são estes os rituais de verdadeira adoração: os cultos religiosos dedicados ao “Corpo”, que o tornam “sacrossanto”.
Os estudos de gênero se empenham, entre outros assuntos, em especular criticamente sobre os processos culturais pelos quais somos todos subjetivamente e ideologicamente ‘moldados’ por meio de nossas interações com as imagens, ícones, e discursos que circulam na nossa sociedade.
A preocupação das feministas, em específico, é totalmente justificada quando vemos o crescente número de garotas e mulheres com distúrbios alimentares. A anorexia se tornou praticamente um culto em alguns meios e, quando aceitamos a premissa que as imagens nos possuem mais do que nós possuímos a elas, essa realidade não surpreende nem um pouco. A indústria da moda glorifica o corpo magro, esquelético e faces pálidas, com aspecto doentio.
No entanto, na medida em que nos tornamos conscientes que as imagens são “construções sociais”, podemos criar um espaço crítico que nos permite articular os sentidos que elas emitem. O impacto positivo que o feminismo tem provocado, já pode ser presenciado em centros de moda como Milão e Madri, aonde se proibiu o desfile de modelos excessivamente magras. Escolher, negar, aceitar ou resistir às imagens é prerrogativa de cada uma de nós.
Mas respeitar e valorizar o próprio corpo é, sem dúvida nenhuma, uma das experiências mais liberadoras para a mulher nos dias de hoje.
Bibliografia:
BAUDRILLARD, Jean. Tela Total. Mitos-ironias da era do virtual e da imagem.
PASSERINI, Luisa. “Mulheres, consumo e cultura de massas” in: DUBY, Georges e PERROT, Michelle (orgs.) História das Mulheres. O Século XX. Porto: Edições Afrontamento, 1991.
Esse post faz parte da blogagem coletiva para o Dia Internacional da Mulher, organizado pela Denise, do blog Síndrome de Estocolmo.