No hemisfério norte
Já passa da meia noite
Alguém lê no jornal
As notícias de ontem
Alguém escova os dentes
E chama o gato para dentro
Alguém escreve no computador
Palavras como saudade e solidão
Alguém dorme
Alguém tem insônia
Outros sonham
No hemisfério sul
Já passa das seis da manhã Alguém lê no jornal
As notícias frescas
Alguém escova os dentes
E bota o gato para fora
Alguém rabisca no guardanapo
Palavras como esperança e preocupação
Alguém toma um café apressado
Alguém não dormiu
Outros sonham acordados
C’est jeudi et je pense a toi, mon amie…
Para Cris
É quase sexta e eu me recordo do doce poema que a Regina escreveu para mim, na ocasião da minha qualificação em dezembro. Foi de uma gentileza sem tamanho e lembro muito bem da sensação: eu me senti tão comovida que nem soube agradecer direito. Hoje, nesse canto do hemisfério sul, é quase amanhã. Amanhã é um dia muito importante para mim, é o dia em que um processo que iniciou 5 anos atrás acaba. É o dia no qual serei julgada e criticada, mas também, provavelmente, elogiada. Amanhã é um dia que eu visualizo desde que inicei esse processo. É o meu dia. O cansaço da preparação é grande, mas agora deixo de lado o aspecto prático e começo a me preparar psicologicamente. A concentração voltou, como eu sabia que ia voltar. Tomo o meu chá, escrevo essas palavras, escuto Caetano, preparo o meu banho. Visualizo tudo, me energizo.
Eu já corri 2 maratonas. A última foi em 2005. Há corredores de curta distância, que primam pela velocidade. Há corredores de longa distância, que primam pela perseverança e “endurance”.
– Eu sou uma corredora de longa distância –
Escrevo tudo isso para mim mesma, pois quero lembrar do que sou capaz: amanhã dará tudo certo – o meu trabalho será reconhecido e eu sentirei que acabei uma das maratonas mais importantes da minha vida. Minha família estará ao meu lado, 5 horas assistindo tudo. As meninas ficarão cansadas, todos ficaremos cansados. Mas eu tenho fôlego e as meninas também terão. Espero que, no fundo, elas fiquem orgulhosas da mãe, que reconheçam o quanto que eu lutei para chegar onde cheguei. Afinal, elas foram minhas cúmplices todo esse tempo. E que elas tenham coragem para correr as maratonas de suas vidas.
Hoje, é quase amanhã, sexta-feira, 25 de maio de 2007.
Estarei vestida com as roupas e as armas de Jorge.
Ao meu marido, não tenho ”another answer to make but thanks, and thanks,
forever thanks” (Shakespeare)