Atualização: Se você estiver passando por aqui hoje, domingo, corra para fora e tente ver Saturno e Vênus, eles estão começando a se afastar, mas ainda estão próximos!! Lembrem, a próxima vez será só em 2019…
Acabo de ver, a olho nú, e também no telescópio, um fenômeno que somente se repetirá em 12 anos: Saturno e Vênus alinhados, visualmente bem “próximos”. Meu marido, entusiasmado com a súbita clemência do céu pouco generoso desse nosso canto do hemisfério sul, está se deliciando com suas fotos. Esse belo fenômeno que vemos aqui nesse instante, pode ser visto por todos, em qualquer lugar do mundo. Saturno é o mesmo Saturno aqui e no Afeganistão. Vênus é o mesmo Vênus aqui e na China.
Isso me leva a continuar a refletir sobre a questão da nação, de “pertencer” e da língua materna. Desde criança eu tenho fascínio pela língua inglesa e um dos meus sonhos foi realizados quando eu fui morar na Inglaterra com 18 anos. Acabou que, desde então, a minha vida foi pautada por idas e vindas, embora tenha tido várias intervalos mais longos por aqui. Não satisfeita com os anos que morei na Inglaterra e com o meu conhecimento da língua inglesa, morei também na França. Aliás, nunca fiquei satisfeita, nem com o meu conhecimento de francês ou de inglês, nem com as minhas idas e vindas. Essa coisa de ‘pertencer’ a um lugar é realmente um pouco complexa para mim. Por pouco não me mudo do Brasil em três ocasiões diferentes. A última vez foi o meu marido que achou que deveríamos, por diversos motivos, ficar por aqui. Eu não sei se posso me chamar de “cidadã do mundo”, talvez por não ter me mudado do meu país, mas também não sou muito nacionalista. Amo chorinho e bossa nova. Mas também gosto de salsa, fado, blues e muitos outros tipos de música.
A minha casa é uma casa bilíngue e eu, minhas filhas e meu marido (americano), somos “bilíngues” nos nossos costumes domésticos: conjugamos o “aqui” e o “lá” e criamos o nosso espaço bi-cultural, talvez um pouquinho multi-cultural. Ajuda muito o fato de meu marido ter morado na Europa muito tempo. Ele é muito aberto à diferenças culturais: recebe, assimila e/ou rejeita o que quer e eu aprecio e valorizo o espaço que construimos.
Acho que a vida nos traz muitas surpresas e ironias — uma delas foi ter me trazido esse marido americano (que, segundo uma amiga, nem passaporte precisa para se saber que é americano
) e ter visto cair por terra muito dos meus pré-conceitos sobre a América e sobre os americanos. O meu inglês britânico, cultivado com tanto esforço e esmero, logo mesclou o sotaque americano e, hoje em dia, já nem mais sei que tipo de inglês que falo. Para quem ensinou inglês durante muito tempo, isso poderia ser uma ‘questão’, mas não é, e eu não estou nem aí. Eu explico: na academia ‘antenada’, não se fala mais em ”English”. Fala-se sobre ”EnglishES”. Tem o inglês escocês, irlandês, americano, australiano, canadense, neozelandês, sul-africano, caribenho, etc. E muito mais: há o inglês falado na Índia, falado na China, na Koréia, na Argentina, etc. Na Inglaterra, Estados Unidos e outros países anglófanos, por conta das diversas diásporas, você escuta vários tipos de sotaques ao longo do dia. Hoje em dia, com o perdão da Rainha Elizabete II e do Professor Higgins (lembram do linguísta de My fair lady?), você tem que falar um inglês que seja compreensível pelo mundo afora e é conveniente que o teu ouvido também esteja aberto a sotaques bem diversos. A língua inglesa se mostra bem maleável, é claro. Aliás, uma das características mais interessantes da língua inglesa é a sua incrível maleabilidade e, portanto, sempre serviu muito bem ao império britânico e, agora, ao império americano, funcionando como um instrumento de domínio e de apropriação do “Outro”. Mas, por outro lado, é também um veículo que conecta, que constrói pontes (para usar uma metáfora bonita da Regina), que faz com que pessoas ‘diferentes’ se aproximem e que diminuam a ‘diferença’.
Esse post tá uma beleza, não? Viajei para Saturno, para a Inglaterra e França, contei um pouco sobre a minha família, quase me mudei, voltei para o Brasil, falei de bi-culturalidade e, finalmente, da língua inglesa. E estou sóbria. Imaginem só se não estivesse. Só pode ser o alinhamento de Saturno e Vênus. ![]()








