Arquivo para Junho 14th, 2007

Um fiasco, um sonho e um poema.

Junho 14, 2007

Eu ando su-per cansada. Um de nossos amigos é psiquiatra e ele disse que é muito natural para depois de um período de trabalho duro, noites mal dormidas, muito stress e ansiedade. Na realidade, ao longo de 4 anos do meu doutorado, tive algumas folgas, mas nada ideal. Então, muito provavelmente, estou passando por um período de estafa, uma espécie de ressaca psicológica. Ocorre que a vida continua e é óbvio que eu não tenho tido tempo para descansar. Logo depois da defesa, fui ao congresso. Mal cheguei, me falaram que eu tinha que entregar o novo projeto de pesquisa para o dia seguinte e eu varei a noite e o dia trabalhando em cima do projeto. As meninas cobram a minha atenção com toda razão, afinal eu não tenho a super desculpa que eu antes tinha. A minha filha mais velha, por conta desse clima louco, pegou uma virose e a levei duas vezes ao médico. A mais nova tem que ir ao dentista. Eu tenho que ir ao dentista e ao médico. Meu marido vai fazer um check-up (por ordem da esposa!).  Na universidade, junho é a correria do final de semestre e, como sempre, os alunos que folgaram o semestre inteiro, agora não me dão folga. Fora isso, orientandos, provas bimestrais, provas finais, provas de 2a chamada. Quem passa, quem reprova. Às vezes as decisões não são tão fáceis: elas podem efetivamente mudar a vida de um aluno. Apesar de eu ter um senso de justiça extremamente acirrado, nunca senti prazer em reprovar ninguém. Mas, força da profissão, reprovo.

O fiasco. Ontem aconteceu algo estranho: eu fui convidada para dar uma palestra em um Café Literário (super charmoso, aliás) e a minha apresentação foi um fiasco (sem brincadeira!). Hesitei, tropecei nas palavras, não articulei bem as idéias, foi o ’seguinte’… Fiquei com a maior vergonha de mim. O pessoal que assistiu a palestra deve ter me achado uma incompetente, com toda razão. O interessante é que eu estava pressentindo mesmo que não ia ser legal: a apresentação que eu fiz no powerpoint ao invés de ajudar piorou. Enfim, nada deu certo… :-(  

O sonho. Sabem qual é o meu sonho de consumo para julho? Uma praia linda, com muitos coqueiros e pouca gente, sol, céus azuis e estrelados. Areia branca e macia, uma brisa gostosa. Muitas caminhadas e alguns mergulhos. Leituras e comidinhas. O calor, o sorriso e o ”bom feeling“, como diz a maravilhosa cantora portuguesa de raízes caboverdianas Sara Tavares, de estar no norte do Brasil (juro, lá é outro planeta para mim!).  Na realidade, a Bahia seria um lugar perfeito, mas tenho muito medo de pegar chuva em julho (já aconteceu).

Se tiver 3 minutinhos, não deixe de escutar “Bom Feeling” aqui (é do excelente álbum “Balancê”).

 bahia_sonho.png

O poema:  

“Vou-me embora pra Pasárgada”

(Manuel Bandeira)

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar

- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Em tempo: o Manuel Bandeira é simplesmente tudo, não?