Interessante como uma idéia chama outra: o diálogo na blogosfera pode ser mais do que manter conexões (que só por si já justifica a existência de blogs), pode fazer com que reflitamos sobre assuntos. Este post foi suscitado pelo comentário da Alexandra no post abaixo: ela afirmou, mutatis mutandi, que o nacionalismo é uma invenção do século XIX. Ela está correta, ainda que, strictu senso, tenhamos que creditar o Iluminismo (XVIII) como seu grande impulsor. Mas, de fato, o sentimento nacionalista, tal qual hoje o concebemos, foi construído no período pós-iluminista, na sociedade pós-industrial oitocentista. O terreno estava mais do que propício, afinal, os resquícios do feudalismo haviam se desintegrado e a burguesia encontrava, cada vez mais, o seu lugar.
A ordem burguesa foi uma revolução sem precedentes: procurou reorganizar suas formas de pensamento e explicar a nova realidade. Período de muita efervescência em todos os segmentos sociais, foi quando a história, a geografia, a antropologia e outras disciplinas acadêmicas se profissionalizaram e proliferaram. Foi também quando a cartografia alcançou uma importância política sem precedentes para o conceito de nação, pois as demarcações territorais precisavam ser claras, específicas e, sobretudo, ”nomeadas”. Foi quando a Europa precisou cada vez mais sistematizar conhecimentos e documentos sobre o “Outro”, dessa forma, demarcando a diferença, o “estranho”, o “incomum”, o “exótico”, – características que marcam o pensamento imperialista. Somemos a isso, a literatura produzida por romancistas, poetas, tradutores e viajantes e temos um corpus impressionante que irá pensar o “Outro”, afirmando, mais e mais, o “Nós”. Ou seja, a sistematização de conhecimento do “Outro”, além de proporcionar informações vitais para o domínio colonizador, por tabela, ajuda a criar a idéia do “Nós”. Definimos o “Outro” comparativamente e, nesse processo afirmamos a(s) nossa(s) identidades.
Na dinâmica Nós x “Outro” o nacionalismo é formado como uma ‘conseqüência natural’. Não é nenhuma coincidência que a maioria dos hinos nacionais são compostos no século XIX, com exceção de “God Save the Queen” (1745), “La Marsellaise” (1775) e “Marcha Real” (1770). É também na mesma esteira histórica que os símbolos da pátria (bandeiras, etc.) ’aparecem’ e as imagens do “Outro” como ‘bárbaro’ ou ‘exótico’ proliferam na literatura e pintura. Tudo isso se põe a um serviço bem específico: firmar a identidade nacional. O nacionalismo surge na sociedade moderna como uma configuração de poder e não como simples e inócua necessidade histórica.
A imagem da mulher como alegoria da Pátria aparece com recorrência na literatura (é só lembrar de Iracema, a virgem dos lábios de mel que foi ‘violentada’ e abandonada pelo europeu) e na pintura. A mulher vai servir propósitos os mais diversos: reafirmar os valores da nação (a mulher é o símbolo da Revolução francesa), estabelecer a relação ”Nós” versus “Outro”, entre outros. Deixo as imagens abaixo como prenúncio para outro post.
Essa leitura européia da Pocahontas é impressionante. A Pocahontas mais parece uma vitoriana com olhos angelicais e pele alva (outra construção). Os estereótipos da índia estão somente presentes nos objetos e adornos.
(Jone Johnson Lewis, final do século XIX)
Abaixo, um outro tipo de construção da mulher como alegoria: a escrava. Uma bela e dócil nativa africana, invariavelmente generosa, forte, sensual, fecunda (está com o filho, que, naturalmente, segura um papagaio) e convidativa. Notem também como a natureza, ao mesmo tempo ‘exótica’ e ‘domesticada’ parece corroborar o ‘convite’. (Obs. É minha leitura, ninguém precisa aceitá-la!)
(Albert Eckhoust, séc. XIX)
[Eu me interesso muito sobre esses assuntos e leio bastante. Serve para as minhas pesquisas e também pessoalmente. Afinal, só consigo entender o 'meu lugar' quando me posiciono no mundo historica e culturalmente. Se alguém quiser sugestões de bibliografia, é só falar.]


13 respostas so far ↓
Ana Lucia // Junho 29, 2007 às 11:21 pm
Cris tô adorando a série de posts. Acho que a nação pode estar em crise, mas o nacionalismo ainda é bem forte, acho que o Canadá nunca foi um país nacionalista, até por sua composição, por sua história, em compensação na América Latina, esses fenômenos mais recentes como o caso do Hugo Chávez me levam a crer que a via nacionalista é pra muitos ainda uma saída, mas ao mesmo tempo o que a gente vê na África (hoje mesmo o Kadafi tava discursando e sendo aplaudido por milhares num tour que ele está fazendo em vários países africanos e ele tá defendendo a criação dos estados unidos da África…
e na Europa com a União européia. Enfim eu sei que o post era só o aperitivo. Beijocas.
Gi // Junho 30, 2007 às 1:10 am
É verdade, não tem coincidência nenhuma. ;-)) Todo mundo querendo ser “o maior”, conquistar, enfim.
Regina // Junho 30, 2007 às 8:04 am
Cris,
Excelente! Estou adorando…
Voce ja leu um artigo que a escritora indiana Arundathi Roy escreveu por ocasiao do primeiro aniversario do 9/11?
“Nationalism of one kind or another was the cause of most of the genocide of the 20th century. Flags are bits of coloured cloth that governments use first to shrink-wrap people’s minds and then as ceremonial shrouds to bury the dead. When independent, thinking people (and here I do not include the corporate media) begin to rally under flags, when writers, painters, musicians, film makers suspend their judgment and blindly yoke their art to the service of the ‘nation’, it’s time for all of us to sit up and worry. ”
Ela e’ simplesmente brilhante. Voce pode ler o artigo na integra aqui:
http://ccrma.stanford.edu/~peer/arundhatiRoy.html
Beijocas,
Regina
JN // Junho 30, 2007 às 3:42 pm
Fico à espera do próximo. Está cada vez mais interessante.
cris s // Junho 30, 2007 às 7:18 pm
Ana,
Fico feliz que você tenha gostado dos posts. Sabe, eu me sinto super mal em saber muito pouco sobre o Canadá. O meu conhecimento de literatura canadense se restringe, principalmente, à Margaret Atwood, que eu gosto muito. Aqui no Brasil há até alguns congressos de Literatura Canadense, é um campo fecundo e sinto que realmente tenho que me atualizar. Quanto à questão do nacionalismo canadense: é muito estranho isso, né? Por que será que o nacionalismo não vingou? Tão diferente dos EUA… Eu conheci várias canadenses qdo morava na França e eu ficava chocada com o falta de conhecimento (e até de interesse) delas sobre o próprio país. A Margaret Atwood lida muito com as coisas da ‘terra’, a vastidão do espaço, a natureza fecunda, os animais, e, questões femininas muito fortes. Eu vou comprar algum ‘companion to Canadian lit” e estudar mais. Foi assim que eu fiz c/ a lit. australiana.
Quanto ao nacionalismo africano, vou escutar a “expert” falar e aprender. A única coisa que leio repetidamente na teoria pós-colonialista (que eu curto muito) é que após a 2a guerra, as colônias africanas, por vários motivos, ‘adotaram’ modelos eurocêntricos de nacionalismo. Principalmente as elites africanas. Homi Bhabha, V. Y. Mumdimbe e outros atribuem a esse fator os fracassos das nações africanas emergentes. Eu confesso que não tenho idéia e que gostaria de saber. O que você acha??? Você poderia pegar a onda e escrever algo a respeito. Que tal?
beijocas.
cris s // Junho 30, 2007 às 7:20 pm
Gi,
Com assuntos de poder, política e autoritarismo parece que não há espaço para coincidências, infelizmente.
bjkas
cris s // Junho 30, 2007 às 7:27 pm
Regina,
Estou para comprar um livro da Arundathi Roy! Aqui não se trata de mera coincidência!! Olha, gostei muito do trecho: “Flags are bits of coloured cloth that governments use first to shrink-wrap people’s minds and then as ceremonial shrouds to bury the dead.” Eu penso igualzinho! Mas acho que a literatura, a música, enfim, a arte em geral, tem mostrado resistência à questão do nacionalismo. Mas acho bem preocupante, de qualquer maneira.
Vou ler o artigo daqui um pouquinho. Estou chegando em casa.
bjkas,
Cris
cris s // Junho 30, 2007 às 7:28 pm
JN,
Hehe, vamos ver quando ’sai’ o próximo!! Mas o assunto é bom e rende muito…
bom fim de semana para você!
Ana Lucia // Julho 1, 2007 às 12:21 am
Pois é Cris, daqui a alguns anos mais da metade da populaçao das grandes cidades canadenses, vao ter nascido fora do pais…e na provincia onde eu moro, onde vive 1/3 da populaçao canadense, a maioria nao se considera como pertencendo ao Canada…porque aqui se fala francês e tem muitos elementos bem particulares…como existe uma questao forte de afirmaçao identitaria aqui no Québec, inclusive com uma historia longa de movimento separatista (que agora anda meio morta, mas o partido existe e pode ser eleito nas proximas eleiçoes provinciais), existe muito mais vontade de afirmar uma identidade quebequense (diga-se branca e francofona) que de se dizer participante do “multiculturalismo” canadense…Por isso que eu se diz que no Canadá não tem racismo, não tem discriminação, eu tento levantar o outro lado da moeda, porque nas bandas de cá…esse assunto está sempre em pauta…A cada edição do telejornal fala-se na comunidade judaica de Montreal, no banditismo dos haitianos, na gagsterismo dos italianos…Mesmo se algumas personalidades consideradas como “minorias visiveis” ocupam posiçoes de destaque (principalmente a governadora geral, representante da rainha da Inglaterra aqui), na base as tais “minorias” nao estao representadas…é aquela coisa, você coloca um negro pra ser ministro, e ai as pessoas tem a impressao que os negros ocupam posiçoes em outros escaloes, qdo nao é verdade…Pra mim o melhor retrato da particularidade do Quebec, é que na segunda é a festa nacional do Canadá…enquanto em todo o país o povo festeja, por aqui (em toda a província) é o dia de mudança…porque eles instauraram um troço que a maioria dos contratos de aluguel de apartamentos termina no 1 de julho, dia da festa nacional…ou seja em vez de festejar, o povo vai estar fazendo mudança, carregando mesa, geladeira
Enfim pra você ter uma idéia, eu conheço pouco da literatura canadense inglesa, mas conheço bastante coisa da canadense francesa, tem autores interessantes como o Michel Tremblay (que é bem particular porque ele escreve o quebequense falado, incompreensível pra muitos), alguns já falecidos, como a Gabrielle Roy…Enfim, ficou longo o comentário
Beijocas.
Ana Lucia // Julho 1, 2007 às 12:22 am
Ah soh agora vi o final do seu comentario, vou pensar em algo sim pra postar no blog !
cris s // Julho 1, 2007 às 4:27 am
Ana,
Para mim é um pouco abstrato pensar num lugar tão multicultural como o Canadá. Há alguns oásis multiculturais nos E.U.A., talvez Berkeley e São Francisco se assemelhem, não sei. Daí vem essa necessidade de afirmação tão grande de certos grupos, mas há o perigo da guetização, não? Achei fascinante o que você falou sobre Quebec, que deve ser mais interessante que outras cidades, pelo jeito. Tenho dois grandes amigos que adoram Vancouver. Um deles nasceu lá e é casado c/ uma brasileira e mora aqui. Ambos falam que é a cidade mais agradável e bonita que eles já viveram (o outro é inglês, super viajado e é um professor de pós-colonialismo bem conhecido na área!). Enfim, fico curiosa com culturas ‘diferentes’. Quando eu cismei com a Austrália, quase parei lá para fazer o meu doutorado. Fiquei fascinada c/ a literatura, aliás, ainda sou. O meu francês anda enferrujado, deveria ler um pouco.
Que coisa estranha essa lei que faz c/ que os contratos de aluguel de Quebec terminem todos na mesma data do dia do Canadá, né? Ilustra bem a diferença.
Vou aguardar o post sobre os nacionalismos da África. Dá o que falar tudo isso, não?
beijocas
Raquel // Julho 1, 2007 às 3:28 pm
Concordo com a Ana, a idéia de Estado-nação pode estar passando por turbulências, mas o nacionalismo nunca vai acabar. Pode até ficar mais dormente e renascer com mais força (para o bem ou para o mal) conforme o desenrolar da história.
Bjs
cris s // Julho 1, 2007 às 4:33 pm
Raquel,
Acho que as guerras que estão acontecendo no mundo comprovam que o nacionalismo está ‘alive and kicking’. Acho bem intrigante o que a Ana fala sobre o Canadá, entretanto (que há pouco sentimento de nacionalismo). A Austrália é outro canto do mundo interessante, mas eles sempre sucubem à Rainha…
Em alguns lugares a idéia de Estado-nação está se fragmentando, concordo. Em outros está mais viva do que nunca.
É engraçado, como os países são entidades quase ‘orgânicas’, eles passam por processos diferentes, não? Acho fascinante (e bem perigoso) tudo isso.
beijos e bom domingo.
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