Não é à toa que a noção do “Orientalismo” vem ocupando um lugar de destaque nas discussões da minha disciplina sobre alteridade no Mestrado.
Edward Said emprega o termo “orientalismo” para se referir a uma construção discursiva que o Ocidente fez (e faz) sobre o Oriente. Na elaboração ocidental, o mundo fica reduzido a uma divisão arbitrária entre Ocidente x Oriente, num pensamento maniqueísta: o Ocidente é assim, o Oriente, assado. Acontece que o Ocidente, nesta visão eurocêntrica, é tudo que é de racional, normal e ‘civilizado’, enquanto que o Oriente é tudo que é diferente, excêntrico e bárbaro. O Orientalismo, segundo Said, pode ser mais facilmente perceptível a partir do século XIX, época na qual a carreira de ‘orientalistas’ se profissionalizou. Cambadas de estudiosos tais como antropólogos, historiadores, sociólogos e filólogos, que trabalhavam sob os auspícios do Império Britânico e francês dedicaram partes de suas vidas à fazer descrições e declarações sobre o Oriente, numa empreitada que, ao invés de revelar aspectos “reais” sobre o Oriente, desnuda o estilo ocidental de dominação e colonização.
Nas décadas que sucedaram a publicação de Orientalismo (1978), Said se deu conta da importância política de seu estudo e a sua afirmação de que o Orientalismo teria uma “temível durabilidade” se tornou profética, a despeito das críticas que seu trabalho recebeu na academia, que, naturalmente, tem sempre que encontrar defeito em tudo.
Ontem eu li a notícia da BBC Brasil sobre a manifestação do movimento europeu contra a islamização na Europa, denominado ”Stop the Islamization in Europe”. O objetivo do movimento é ”evitar que os islamismo se torne uma força política dominante na Europa”. A marcha de 200 militantes acabou sendo proibida e 50 pessoas (dentre as quais 2 deputados do Parlamento Europeu) foram detidas.
Sobre a manifestação, Terry Davis, secretário de Direitos Humanos da União Européia, afirma: “Os organizadores do protesto dizem que os valores europeus estão sob ameaça. Sim, eles estão, mas o perigo não vem do Islã. Nossos valores comuns europeus estão sendo ameaçados por intolerantes e radicais, sejam islamistas ou islamofóbicos, que exploram medos e preconceitos a favor de seus próprios objetivos políticos”.
Essas notícias hediondas sempre têm o poder de me apalermar… Nunca vou me curar e ficar imune. Como pode o ser humano ser tão absurdamente intolerante? O ser humano não consegue aprender as lições mais básicas da história.
Seria melhor para todos nós se Said tivesse errado.

Setembro 15, 2007 às 7:23 pm
Cris mesmo se Said tava certo, o tal movimento chega a ser uma piada, bem feito foram em cana. Aqui no Québec tem uma comissão parlamentar sobre os accommodement raisonnables…entao eles andam em toda a provincia e a tal comissão tá passando na tv… o povão do Québec reclama da imigração, reclama do inglês…reclama dos judeus, reclama dos muçulmanos, uma coisa muito nojenta que eu não tenho nem objetividade e sangue frio pra analisar ou descer a lenha
Beijocas pra ti.
Setembro 17, 2007 às 2:02 pm
Ana,
Bem feito mesmo que eles foram presos! Mas eu não acho que o movimento seja uma piada, não. Ele mostra que a intolerância contra os muçulmanos está se tornando mais ostensiva. E infelizmente a demonstração de Bruxelas não foi um caso isolado.
Engraçada essa atitude do pessoal de Québec, né? Afinal todos são imigrantes… Isso mostra que a intolerância não tem fundamentação histórica; talvez o funcionamento da intolerância seja a partir da alteridade. As pessoas são intolerantes com o diferente. O nojo tá aí.
bjs
Setembro 23, 2007 às 5:29 pm
Adoro esse livro, e um outro dele “Reflexões sobre o Exílio”, maravilhoso.
Beijocas e boa semana!
Setembro 25, 2007 às 4:30 pm
Denise,
Eu gosto muito do Said, a despeito de sérias críticas que ele sofreu, principalmente com “Orientalismo”. O negócio é que “Orientalismo” foi uma obra precursora que abriu vários caminhos.
beijocas