O mundo dos blogs é uma rede com filamentos frágeis que se interconectam. Essas ligações, altamente dinâmicas, são feitas a partir de pequenas narrativas nas quais os leitores se apóiam para dar sentido, interpretar e, um nível mais perigoso deste processo, construir uma imagem da pessoa. Só que a grande maioria dos posts escritos é uma versão rápida de algum aspecto que o autor do blog deixa antever. Ora, o post não é o autor! O post tem uma voz narrativa, também chamada de “eu narrador” ou “eu autoral” que, naquele momento, domina. Infelizmente, a maioria das pessoas não sabe ler e não entende ironias. Outra forma de misreading (leitura errônea) é o oposto: achar que todas palavras operam com duplos sentidos, o que Umberto Ecco denomina de overinterpretation, ou superinterpretação (Os limites da interpretação, 1995). Muitas vezes o duplo sentido não existe e a palavra – aquela recheada de possibilidades de significados – é apenas literal. Quando interpretamos, sempre estamos lidando com esses filamentos frágeis e fantásticos que são as palavras. Se mal entendidos podem ocorrer até mesmo em conversas, quando remetente e destinatário estão presentes, quem dirá em posts que “dialogam” sabe-se lá com que cabeças. Temos também que levar em consideração que as pessoas escrevem sob diferentes ímpetos e circunstâncias. Muitas vezes os autores de blogs, por diversos motivos, talvez até para amenizar alguma dor, cosmetizam seus posts. Por fim, talvez o óbvio: blogs são versões autorizadas de nós mesmos.
Adivinharam: ando um pouco cansada.




