Signed, sealed and delivered: o Oscar de melhor filme foi mesmo para Slumdog Millionaire e a Índia – ou, pelo menos uma faceta da Índia, chama a atenção do mundo. No melhor estilo de A cidade de Deus, Slumdog nos dá um retrato realista da Índia, deixando de lado a exploração do exótico e do mítico, que sempre atraiu a todos. Não posso deixar de pensar, no entanto, ao meio de tanto confeti (já que é carnaval) que se joga para o filme inglês que, nos anos recentes, vemos surgir um gênero relativamente novo no gosto popular: o realismo da favela (por falta de termo melhor) e aí temos dois grandes diretores brasileiros que dominam os mecanismos do gênero: Fernando Meirelles e Walter Salles. Tenho certeza que Danny Boyle se inspirou pelo ressurgimento do cinema novo no Brasil e o processo que Walter Salles chama de ressensibilização do espectador. Mas chega de digressão e volto para a Índia, o meu foco neste post, afinal. E tenho que confessar o meu fascínio por este país tão cheio de paradoxos: meu interesse nasceu quando eu tinha 9 anos de idade e foi alimentado por livros sobre Shangri-lá e outros do Rudyard Kipling. A “minha” Índia era totalmente envolta em misticismo e se situava em lugares
longínquos como as montanhas do Himalaia e selvas tão belíssimas quanto perigosas. Mais tarde, já com anos de yoga na bagagem, fui aprendendo sobre as “outras” Índias; porém, nem toda a pobreza e estranheza com hábitos radicalmente diferentes dos meus tiveram o poder de me dissuadir do meu encanto. E por que teria? Um país tão diverso em todos os sentidos, com uma história antiquíssima, de povos, línguas e religiões diferentes. De forma que continuo lendo escritores que escrevem sobre a Índia, sejam eles indianos ou não. No momento estou literalmente acabando o God of Small Things da Arundhati Roy e já estou de olho no possivelmente próximo livro da minha fila, aqui do meu lado, o White Tiger, que ganhou o último Booker Prize. E para aproveitar toda esse moda indiana aqui no Brasil, por conta da novela Caminho das Índias, adotei o romance do E.M. Forster, Uma passagem para a Índia para uma turma da graduação.
Os alunos adoraram a idéia: é só assim mesmo para a Glória Perez ter algum valor nas minhas aulas. Juro que eu tentei deixar o meu absoluto desin
teresse pelo mundo das telenovelas de lado, afinal, Caminho das Índias iria tratar da Índia, concordam? Pois não adiantou a boa-vontade, consegui ver apenas o primeiro episódio. O conhecimento limitado que a Glória Peres exibe fica nítido na versão ultra-romantizada, ultra-glorificada e cheia de estereótipos de uma imagem que ela acha que é a Índia. E o problema é o furor que isso causa aqui nessa terra: são os bijuterias “indianas”, as batas, a maquiagem, a música, etc. Mas fora o lado do modismo, que ajuda a financiar a novela, tem o mais sério: as concepções erradas que as pessoas assimilam por conta dos estereótipos que abundam na novela. Daí é uma vergonha: as pessoas acham que a novela é a Índia! Não que eu seja nenhuma especialista na Índia: imaginem, sequer pisei lá! Mas o meu interesse é genuíno e duradouro e quero pensar que ele não seja calcado em uma visão monolítica. Escritores como E. M. Forster, Arundathi Roy, Rudyard Kipling, Jhumpa Lahiri, Aravind Adiga, Bharati Mukherjee, Salman Rushdie alimentam o meu imaginário sobre a Índia. Especificamente, E. M. Forster, talvez seja do interesse para este post: escreveu Uma passagem para a Índia, que trata do mundo conflituoso entre ingleses e indianos, como se ambos fossem separados por uma espécie de purdah cultural. De certa m
aneira, Forster faz eco a Rudyard Kipling, autor do famoso The Jungle Book, quando este último afirma: “East is East and West is West and never the two shall meet”. São textos da primeira metade do século XX, época, de fato, de muitos conflitos, principalmente com relação aos desfechos da presença britânica na Índia. Quanto à questão Oriente x Ocidente, gosto de pensar que a literatura tem a possibilidade de nos tornar um pouco mais humanos e, por conseguinte, mais abertos ao Outro.


