Nada de tempo bom para a nossa experiência na Grande Muralha! Graças aos bons (ou maus) céus. Afinal, uma neblinhazinha fazia parte do meu imaginário da Muralha. Nosso tour nos levou para o trecho mais popular, o Badaling. A subida leva entre 1,5 – 2 horas e exige um certo condicionamento físico. Isso iria nos custar um alto preço. Meu marido lidera e sobe bem mais rápido do que eu. Prudente, eu vou devagar e sempre, assim como sempre faço nas minhas corridas. Nem forçando a vista dava para ver o cume, mas de qualquer maneira me animo, pois sempre gostei de subidas e o cenário não poderia ser mais imponente. A cada torre de sentinela eu paro, tomo fôlego, me hidrato, tiro fotos e, tentando me livrar da encheção dos turistas, me esforço para imaginar como as coisas eram ali 500 anos atrás, na dinastia Ming, época da construção desta parte muralha. A Grande Muralha na realidade é feita de várias muralhas, construídas por dinastias diferentes ao longo de cerca de dois milênios. E aí o meu marido fala que ele está com um problema no joelho. Fico bem preocupada porque o meu marido nunca, nunca reclama. Diz que não vai poder subir comigo e que eu devo seguir adiante. Pedi para ele me esperar ali mesmo, eu iria tentar subir rapidamente e depois ajudá-lo na descida. Subi mais uns 15 minutos, alcançando mais uma torre e fiquei lá ponderando se devia ou não subir sózinha, com o coração dividido. A vontade de subir a Muralha era enorme, mas e o meu marido? Fiquei lá uns minutos e quando eu vejo tava lá o meu marido subindo com dor e tudo! Não, ele não iria desistir. Então assim fomos. Às vezes garoava, às vezes fazia sol, ás vezes estávamos no meio da neblina, o que confere um ar místico para o lugar. Fomos bebendo chá verde e descansando o joelho dele. Mas a cara do pobre coitado não me enganou nem um momento. Em uma das torres de sentinela paramos para comprar as nossas camisetas “I climbed the Great Wall” e, mais perto do final, pedimos para um péssimo caligrafista gravar os nossos nomes “Cris and Bill climbed the Great Wall”, coisa de corredores que têm que ganhar uma medalhazinha no final como recompensa. O Cris and Bill da plaquinha estão mal e mal reconhecíveis (infame!). Mas enfim chegamos ao topo, depois de mais de uma hora e meia!! Aguardamos nossa vez para tirar a foto sem nenhum turista e começamos a nossa descida. E quem disse que a descida seria mais fácil? Além dos degraus serem totalmente desiguais, estava um pouco escorregadio. Não teve saída e descemos quase tão devagar quanto subimos. Eu sou péssima em descidas então dei graças pelo corrimão nas partes mais íngremes. Chegamos no final, nos cumprimentamos, afinal tinha sido uma subida e tanto. As estonteantes vistas da Grande Muralha, um impressionante legado cultural, histórico, artístico, arquitetônico da China tinham valido a pena para mim. Não tinha se tratado de algo como um mero “been there, done that”. Para o meu marido, no entanto, a Muralha lhe trouxe de volta problemas antigos com o ligamento de um joelho. Mas ele acha que a subida valeu a pena.
Os chineses têm um provérbio que diz: “Not been on the Great Wall, not a great man”. Se isso vigorar, o meu marido, tendo subido tudo aquilo com problemas no ligamento do joelho, deve certamente valer por dois homens. Interessante. O que leva as pessoas a empreenderem essas façanhas, mesmo à duras penas? Acho que é a sensação de desafio e superação. Certamente o meu marido não irá esquecer tão cedo desta empreitada: ele passou a viagem toda à base de analgésicos. E a dor ainda não passou.
A Edelize comentou algo interessante sobre a Muralha: “Dá vontade de continuar a subida”. Eu senti a mesma coisa. Dá uma vontade imensa de continuar a subida e ver aonde a Muralha vai te levar.

