“Tolos por compulsão celeste?”

Janeiro 11, 2007

“Estes últimos eclipses do sol e da lua não prenunciam nada de bom”….

eclipse-do-sol.png

…é o que fala Gloster, na tragédia Rei Lear (1605), de William Shakespeare. Gloster continua, “embora o conhecimento da Natureza possa explicá-los de um ou de outro modo, contudo a Natureza mesma sente-se castigada por seus efeitos. O amor esfria, as amizades se desfazem, os irmãos se dividem; são motins nas cidades, discórdias no campo, traição nos palácios…”

Tão logo Gloster sai de cena, Edmundo, seu filho ilegítimo, ardilosamente contesta o pai: “Aí está o cúmulo da estupidez humana; quando não vamos bem de sorte, geralmente por excessos em nossa própria conduta, culpamos de nossos desastres o sol, a lua e as estrelas; é como se fossemos patifes por fatalidade, tolos por compulsão celeste…”

Rei Lear narra a história de um monarca idoso cujo desejo de abdicar a coroa e dividir o reino entre suas três filhas acaba em catástrofe. Mas Rei Lear é muito mais do que uma tragédia sobre a fragilidade dos laços familiares. A despeito do ceticismo cínico de Edmundo, em Rei Lear, o próprio macrocosmo reflete e simboliza o caos, como numa avalanche de acontecimentos que desencadeia um conflito após o outro.  

O interessante também é ver a frequência com que os astrônomos modernos recorrem à obra do celebrado escritor para recuperar alguns fenômenos celestes importantes da época de Shakespeare (1564-1616).  Referências sobre estrelas, cometas, constelações e eclipses, como dos trechos acima, são abundantes na obra do autor, principalmente em Hamlet, Romeu e Julieta, Júlio Cesar, Henrique IV (parte I) e Sonho de uma noite de verão. Portanto, fontes para astrônomos e interessados. Qualquer astrônomo que se preze se interessa por essas valiosas referências, afinal astrônomos são, por força da profissão, também, historiadores do céu. A edição de junho de 2002 da revista Sky & Telescope tem um artigo que trata especificamente sobre o famoso eclipse solar que aconteceu em 1605 e usa as famosas citações de Gloster e Edmundo para ilustrar o fenômeno. Além de Shakespeare, David Levy, o autor, cita uma carta do rei Jaime I que, tal qual Gloster, ironiza a superstição de que a natureza possa influenciar as atitudes humanas. A astronomia e a astrologia eram já tidas como ciências distintas e, tudo indica que Jaime I, ao contrário de sua antecessora, a rainha Elisabete I, não era partidário da ciência que estuda os astros.  Elisabete I, uma das rainhas mais celebradas da monarquia inglesa, por outro lado, tinha um astrólogo particular que sempre consultava.  Dr. John Dee era conhecido como um verdadeiro “mago” e alguns biógrafos de Elisabete especulam que as sábias decisões da astuta rainha eram guiadas por ele. Os atrólogos da época combinavam conhecimentos de medicina, química, magia e alquimia, de modo que as fronteiras entre a ciência, a religião e a astrologia eram muito tênues.

Abaixo, Andrômeda, a galáxia M31, nossa “vizinha” (é a mais próxima da Via Láctea). A foto é do meu astrônomo e fotógrafo favorito, Bill Smith. 🙂

andromeda_bill.png

4 Respostas to ““Tolos por compulsão celeste?””

  1. Alline Says:

    Querida, não tem nada com o assunto, mas eu gostaria que vc participasse de uma campanha proposta pela Lúcia Malla. Mandei um e-mail lá para a lista explicando a proposta do tema.
    Um beijo bem grande!

  2. Lili Says:

    Olá! Sempre que eu penso sobre as supertições sobre o fim do mundo, lembro que muitas vezes as pessoas de outras épocas também ficaram preocupadas. Gostaria de conhecer mais sobre o tema, mas acredito que o movimento dos astros influenciou idéias de fim do mundo.

  3. cris s Says:

    Alline,
    Vou lá dar um pulinho lá. Se for sobre algo que eu possa escrever, count me in.
    Bjs,
    Cris

  4. cris s Says:

    Lili,
    É a verdade, a superstição sempre existiu. Há pessoas que são naturalmente supersticiosas e outras menos. Há épocas que valorizam mais as superstições. A época shakespeariana é uma época de transição, o renascimento levou mais tempo para chegar nas ilhas britânicas. Com as novas idéias e valores do renascimento, o homem ficou mais cético, mais crente no seu potencial como indivíduo. O Shakespeare ilustra essa ambivalência muito bem na obra.
    Bjs,
    Cris


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