Por que a anorexia me incomoda tanto?

Janeiro 17, 2007

A Denise publicou um artigo escrito pelo jornalista Larry Rohter do NY Times sobre a anorexia no Brasil. Gostei muito da leitura crítica que ela fez. E fiquei pensando, lógico. 

Quem leu alguns posts aqui já deve ter notado que o assunto me intriga bastante. E que não sou especialista no assunto. Que sou, principalmente, preocupada e, que se pudesse, acreditem, ajudaria de alguma forma. Talvez seja porque anorexia é, com efeito, um fenômeno complexo, que mexe com algo que foge ao especular científico. Abaixo, algumas idéias que me fazem refletir sobre o assunto: 

  • anorexia não é um fenômeno novo. Os historiadores narram casos como o de Catarina de Siena e de outras santas que, para purgar o corpo do pecado, jejuavam. Algumas jejuaram até a morte.  Na Idade Média tardia, surgiu um livro, “O Sagrado Jejum”, que promovia a idéia do jejum entre as mulheres que desejavam se purificar. Ocorre que não era muito raro encontrar freiras grávidas nos conventos. Os filhos da união dos padres e freiras se tornaram um problema para a reputação do Cristianismo, que fazia tudo para se consolidar como a religião dominante. E a “purificação da carne” foi uma estratégia da Igreja. A anorexia era, então, um fenômeno ligado à religião.
  • O primeiro caso de anorexia foi diagnosticado no século XIX, em torno de 1870, em Londres. E por que isso não me surpreende nem um pouquinho? A Inglaterra vitoriana talvez tenha sido a época mais opressora para as mulheres. Foi quando a mulher começa a atingir alguma expressão na esfera pública e o homem, filho da revolução industrial, queria manter o seu mais precioso objeto de consumo restrito ao lar. Surgiu então uma literatura vasta (manuais, tratados científicos, periódicos femininos, etc.) que se dedicava em: a) promover a idéia que a mulher era “naturalmente” constituída para gerar (até aí tudo bem, né!) e cuidar dos filhos. Que a mulher era “responsável” pela paz e integridade do lar, que ela era a mantenedora da felicidade do marido (em outras palavras, se o marido não está bem, a mulher é culpada); b) que a mulher era inferior ao homem, ou seja, que ela não possuia a mesma capacidade intelectual, que ela era mais frágil em todos os aspectos. A expressão artística que melhor registra essas noções é a pintura. É incrível ver a recorrência do motivo pictórico da “bela mulher morta“. Há muitas variações do mesmo tema: mulheres dormindo, doentes, loucas, suicídas – todas belas, poética e etéreas. É uma representação mórbida do feminino.

opheliamillais.png

  • Mas o padrão dominante de beleza não era o cadavérico que vemos hoje em dia. A mulher redondinha e curvilínea era tida como atraente pois simbolizava status social para uma sociedade industrializada, onde a tônica era ter e consumir “mais”. Durante as duas grandes guerras, a preocupação era, simplesmente, ter algo para comer. 
  • Com os movimentos feministas, as possibilidades se ampliam para as mulheres. Agora ela já pode ser dona de si. E do seu próprio corpo. Disciplinas sobre “Women’s Studies” proliferam na Academia. As mulheres estudam as mulheres como nunca foi feito. Há a chance de recuperar a voz, as lacunas da mulher na história. E então o que acontece?!  

Janeiro de 2005, Congresso: “The Feminine and the Sacred”, Inglaterra. Encontro de grandes pensadoras. Teóricas e ativistas africanas, européias, árabes, americanas, sul americanas. Todas pensando sobre o que constitui o “feminino” e o “sagrado”. Sobre a emergência das mulheres suicídas no Islã. Sobre o reinado absoluto da objetificação da mulher no cinema. Sobre o aumento da violência e do estupro. Sobre o corpo feminino e as intervenções cirúrgicas,  os jejuns, as academias, os sacrifícios que a mulher, aparentemente “liberada” se submete. E o que fica, como um eco, para mim, é a palavra SACRIFÍCIO. “O sagrado” e “o feminino” seriam, então, o sacrificial, o ritual do sacrifício, algo atávico e inexoravelmente (?!) ligado à mulher? Difícil de compreender.

sadwoman.png

Ilustrações: 1. Ophelia de John Everett Millais (1853, Tate Gallery, Londres). 2. Escultura de Giorgio Vasari (Florença, 1570).

14 Respostas to “Por que a anorexia me incomoda tanto?”

  1. Regina Says:

    Cris,

    Excelente o seu post! Como sempre continuo aprendendo com voce. Eu nunca tinha parado para observar a pintura da era vitoriana. Faz muito sentido.

    Esse congresso na Inglaterra deve ter sido super interessante. Voce foi?

    Beijos,

    Regina

  2. cris s Says:

    Regina,
    Saudades dos teus comentários aqui. Sim, eu fui e gostei muito. Trouxe muitas reflexões para casa, hehe.
    A minha tese tem um capítulo que estuda a pintura do Millais, que postei. Se vc se interessar, dê uma olhadinha na pintura dos “Pre-Raphaelite” e depois me diga o que achou.
    Bjão,
    Cris
    P.S. Eu li o teu último post. Adorei, me fez lembrar tanta coisa. Depois comento.

  3. Gisela Says:

    Olá. Interessante este enfoque sobre o sacrifício. Juntando com a androginia atual dá um bom casamento-tese. 😉

  4. JN Says:

    Como sempre, mais um Post!
    Deveras interessante…
    E juntar temas da tese com posts, é uma boa ideia… 🙂

  5. cris s Says:

    Oi Gisela,
    Que bom que você achou interessante.
    Mas não consigo estabelecer relações de imediato com a androginia. Ao que você se refere, em específico? Porque não entendo a androginia como algo ‘sacrificial’, sabe como?
    Tudo de bom para você.
    Cris S.

  6. cris s Says:

    JN,
    Pois é, fico pensando que os posts ficam um tanto quanto ‘acadêmicos’. Eu não queria. Será que as aulas que a gente dá (ou aquelas que pensamos em dar) perseguem a gente?hehe.
    Vou tomar um cafézinho!! Tudo para fazer nada na tese.

  7. elisa Says:

    Achei muito interessante este post!!Não deixa de me surpreender o quão difícil ainda é ser mulher hoje em dia.
    Beijinhos e boa continuação de tese:)!

  8. cris s Says:

    Elisa,
    Que bom que você achou o post interessante. Ser mulher é difícil sim. Mas ser a mulher “ideal”, aquela que dá conta de tudo e todos, ah, essa é impossível.
    Bjs e obrigada. Vou tentar acabar c/ essa coisa antes que ela acabe comigo!! 🙂
    Cris.


  9. Nooossa, muito bom! Só hoje tive tempo para vir ler com calma. Fia, se parece aula, me parece aulas das boas, daquelas que a gente nem pisca para não perder. Muito bem estruturado, e como disse a Regina, a gente aprende coisas totalmente novas e fora da minha realidade.
    Beijão

  10. cris s Says:

    Flá,
    Hehe, que bom saber que eu teria uma aluninha tão interessada como você!! 🙂 Mas sabe, na realidade, eu não quero (mesmo!) ensinar nada aqui. Só quero expor as minhas dúvidas e pensamentos. E gosto muito quando me elogiam, mas, ao mesmo tempo, fico pensando se o tom não está meio chatinho. Tipo muito ‘aulinha’. Só que não sei se sei escrever de uma perspectiva diferente, hehe. Vou tentar.
    bjkas,
    Cris

  11. Diana Says:

    Exelente o post..
    nao fazia ideia de determindas situaçoes do ideal perfeito da mulher em épocas anteriores…
    so sei o ideal que muitas mulheres pretendem agora (seculo XXI)..
    um ideal da qual nao corresponde a totalmente ao que os media, conscientemente ou inconscientemente apelam..
    todos nos somos diferentes e aí é que esta o “sabor” a “beleza” natural na vida…
    demorei ate perceber isso…
    mas agora que percebi vou tentar recuperar de toda uma batalha criada contra a minha propria alimentaçao..
    mts bjinhos… e continua a postar..:-9

  12. tatiana Says:

    bem vim aqui para nao sei bem pq… quer dixer eu sofro de anorexia e bulimia(mas a pouco tempo k entrei em recuperação da anorexia) e queria escrever sobre esta doença… sobre a bulimia para mim é facil falar mas de anorexia nao… pois nao enfluencio ninguem a entrar nisto… sofremos muito… mas tbm nao tenho mt vontade de sair e desde que comecei a comer passei a odiar me mais… e etc…
    xo para dixer que o teu post esta xelente…

  13. Kamila e Kamily Says:

    Oh meu kerido, eu keria uma reportagem sobre o 1° caso registrado de Anorexia naum uma fotu de uma “bela mulher morta”.!!!

    Bejx


  14. a anorexia e uma parvalise


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