O amor desmetaforizado: O soneto CXXX de Shakespeare.

Janeiro 30, 2007

Não tem olhos solares meu amor;
Mais rubro que seus lábios é o coral;
Se neve é branca, é escura a sua cor;
E a cabeleira ao arame é igual.

Vermelha e branca é a rosa adamascada
Mas tal rosa sua face não iguala;
E há fragrância bem mais delicada
Do que a do ar que minha amante exala.

Muito gosto de ouvi-la, mesmo quando
Na música há melhor diapasão;
Nunca vi uma deusa deslisando
Mas minha amada caminha no chão.

Mas juro que esse amor me é mais caro
Que qualquer outra à qual eu a comparo.

Poemas de amor (tradução de Barbara Heliodora)

Gosto muito do soneto CXXX: Shakespeare “desmetaforiza” o amor ideal: a amada não é aquela cantada pela maioria dos poetas: a musa de cabelos sedosos, lábios rubros e pele alva. Ela “caminha no chão” e tem uma cabeleira igual ao “arame”. Muito se especula sobre a chamada “dark lady” que habita muitos dos seus belos sonetos. Será que o bardo inglês teve um love-affair com uma africana, ou com uma mestiça, ou mesmo com uma sensual italiana com a tez tingida pelo sensual sol mediterrâneo? 

Especulações  à parte, não se deve esquecer que um bom poeta é, sem dúvida nenhuma, um bom “fingidor”, como já dizia Fernando Pessoa. Para mim, o mais interessante é perceber como Shakespeare desconstrói as metáforas tradicionalmente atribuídas à amante ideal — aquela que apenas se encontra nos sonhos e na imagem construída pelas chamas da paixão. A amante do soneto CXXX é a amante “real”, cujo amor, na ótica do poeta, é muito “mais caro” do que toda a beleza efêmera.

Se há uma metáfora no soneto, a mais importante é, na minha opinião, o próprio fazer poético. É o poeta falando sobre a própria poesia, sobre a construção do amor “ideal” versus o amor real na literatura e, por analogia, na vida. Dessa forma, o poema se torna um “metapoema”.   

black-woman.png

Achei a ilustração acima aqui. O nome do pintor é Merello.

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20 Respostas to “O amor desmetaforizado: O soneto CXXX de Shakespeare.”

  1. Edelize Says:

    e o que me chamou a atenção, além da beleza dos versos, o trabalho da tradutora!

  2. elisa Says:

    Também concordo com Edelize, a tradutora fez um óptimo trabalho!
    E gostei de descobrir este soneto:)!
    Obrigada

  3. cris s Says:

    Edelize e Elisa,

    A Barbara Heliodora é a maior autoridade em Shakespeare aqui no Brasil. Publicou vários livros, alguns traduzidos para o inglês (de tão bons!). Ela traduziu quase todas as peças de Shakespeare e, com seus oitenta e poucos anos, dedica a sua vida a fazer críticas de teatro e a traduzir as peças faltantes.
    É uma senhora adorável, cultíssima e muito simpática. Já viz vários cursos c/ ela.
    bjkas p/ as duas,
    Cris

  4. Raquel Says:

    Oi.:)
    Cheguei ao seu blog via o Síndrome de Estocolmo da Denise.
    Estou encantada, de verdade.
    Quanta coisa nova aprendi lendo seus posts. Nunca tinha ouvido falar em ecocritica e, de repentemente, faz todo o sentido do mundo!
    Posso colocar um link para o seu blog no meu bloguinho?

    Raquel

    P.S. Também não gostei de Babel. 🙂
    P.S.1 A Bárbara é uma lady. Suas críticas de teatro são temidíssimas, mas ela pode. Quando lançaram “Shakespeare apaixonado” no Brasil, os distribuidores fizeram uma cabine apenas para os críticos de cinema e a Bárbara foi por O Globo. Quem estava lá conta que ela ia recitando baixinho junto com os personagens as falas de Shakespeare. Achei o máximo.

  5. cris s Says:

    Raquel,
    Seja benvinda aqui! Pode me linkar sim, é claro. Obrigada pelos gentis comentários.
    A Barbara é uma senhora adorável, que tem um vozerão engraçado e sempre está de vestido, parece uma inglesa. Sabe as peças de cor (em inglês) e fala de Shakespeare c/ uma intimidade impressionante. Vc sabe que fizeram uma peça falando dela “Quem tem medo de Barbara Heliodora?” (numa referência à “Who’s afraid of Virginia Woolf” do Edward Albee). Ela é realmente temida no meio teatral pois a palavra é um selo de garantia. Não há ninguém q conheça teatro (não somente o shakespeariano) melhor do que ela.
    Qdo tiver um tempinho, dou um pulinho no teu blog.
    bjs,
    Cris

  6. Lili Says:

    Olá! Voto na italiana. Acho que o meu cabelo , que é cacheado, é mais parecido com um arame do que o das mulheres negras. Os cabelos crespos costumam ser macios, lembrando um tufo de algodão. Mas cada poeta tem a sua interpretação… pergunta intrigante!

  7. cris s Says:

    Lili,
    Sabe que se fosse para ser uma delas, eu também apostaria na italiana. Naquela época era raro encontrar africanas e mestiças na Inglaterra. Então a italiana seria a opção mais plausível. Quanto ao cabelo, vc também tem razão… o meu cabelo também é feito um arame, apesar de eu tentar domá-lo.
    Mas, sinceramente, eu acredito que mesmo que tenha existido uma dark lady na vida real de Shakespeare, o mais importante é, sem dúvida, a maneira pela qual ele a descreve. E é isso que permaneceu.
    bjkas

  8. Raquel Says:

    Realmente a Bárabara conhece muito de teatro e acho que tem muita gente que a detesta justamente por causa desse conhecimento, somado à experiência empírica de ter visto praticamente todo texto teatro que existe encenado em pelo menos três versões e línguas diferentes. 🙂
    Uma vez li uma entrevista, não lembro com qual diretor, que ele dizia não se importar com as críticas, só achava que ela poderia ser mais generosa com jovens atores, porque ela massacra iniciantes e veteranos sem piedade.
    Eu acho ela é ótima e há duas ou três semanas elogiou uma montagem do Oscar Wilde com tanta empolgação que virou até capa do Segundo Caderno de O Globo.
    Adoraria fazer um curso com ela.

    Ah, quem sabe a dark lady do Shakespeare não era uma espanhola?

  9. cris s Says:

    Raquel,
    Hum, uma espanhola morena, sensualíssima? Hehe. Se nos basearmos na parte histórica, seria pouco provável (mas não impossível!) pois na época a coroa espanhola estava contra a Inglaterra por conta do pai da Elisabete I, o famigerado Henrique VIII. E os espanhóis (e todos os seguidores da “velha fé”, os católicos) eram perseguidos.

    Menina, vc lê bastante sobre teatro, não? Vc trabalha c/ teatro? Vc conhece o site da Barbara? Ela é de fato um pouco cruel e elitista, mas eu entendo. Como vc disse ela sabe TUDO de teatro e não gosta de amadores. Acho, também, que ela está fazendo o trabalho dela. Afinal, ela é “crítica” de teatro. E quando ela gosta, todo mundo gosta (e com motivo). Não é tietagem não, Raquel, é que ela é realmente “Barbara”. Nunca vi um nome servir melhor p/ uma pessoa.

    Seja sempre benvinda.
    bjs

  10. Tiago Says:

    Encontrei este blog por acaso enquanto eu procurava informações sobre a peça Quem tem medo de Virginia Woof? Então comecei a ler e percebi que descobri mai sobre a Barbara Heliodoro do que sobre a peça em si. Mas tudo bem! rsrrs…É sempre bom saberum pouco mais de alguma coisa…rsrs…Ah já ouviu falar numa peça chamada Barbara não lhe adora. Não assisti, mas escutei alguma coisa…Sou ator e escrevo tbm e fico feliz de ver essa bate-papo no seu blog. Muito valido. Um beijo.

  11. cris s Says:

    Oi Tiago,
    Seja bem-vindo! Você estava se referindo à peça “Quem tem medo de Barbara Heliodora”? (é uma paródia de uma peça conhecidíssima chamada “quem tem medo de Virginia Woolf” , de Edward Albee).
    Nunca ouvi sobre a peça “Barbara não lhe adora”! hehe.
    Legal você ser ator. Eu sou professora!
    Apareça quando quiser. De vez em quando rola papo sobre teatro.
    Cris


  12. Ah, a docilidade realista shakesperiana! A perda da visão luxuriosa de Deusa, para ente humano, terreno, vindo do pó, porém, amado!

    Um brinde ao meu amigo Bardo!

  13. cris s Says:

    Lucas,

    Seja bem vindo!

    Brinde feito ao grande Bardo.

    Cris

  14. poetriz Says:

    Esse também é meu poema favorito dele!

  15. elias maluco Says:

    adorou o poema eu fiz muito amigo com shakespeare e um grande amor ,,bj a todo

  16. maehaj Says:

    sonetos

  17. Gil Says:

    Ainda que concordando com a análise do poema, não fiquei nada agradado com a tradução dele para o português. O soneto em inglês oferece ao leitor frases diretas e simples, virando de ponta cabeça até o estilo de escrever sonetos de amor. Nele Shakespeare se torna, novamente, nosso contemporâneo. A tradução de B.Heliodora, entretanto, quase nos arrasta para trás, para o sec. 19; usa ordens inversas de contrução, trai e limita significados e ambiguidades do original, usa termos empolados e não explora os ritmos devidamente. Só um poeta poderia traduzir adequadamente esse soneto e, assim mesmo, nem todos consegueriam.

  18. Gil Says:

    Ainda que concordando com a análise do poema, não fiquei nada agradado com a tradução dele para o português. O soneto em inglês oferece ao leitor frases diretas e simples, virando de ponta cabeça até o estilo de escrever sonetos de amor. Nele Shakespeare se torna, novamente, nosso contemporâneo. A tradução de B.Heliodora, entretanto, quase nos arrasta para trás, para o sec. 19; usa ordens inversas de contrução, trai e limita significados e ambiguidades do original, usa termos empolados e não explora os ritmos devidamente. Só um poeta poderia traduzir adequadamente esse soneto e, assim mesmo, nem todos conseguiriam.

  19. Paulo Capella Says:

    Salve!

    Vim aqui pelo google, farol dos povos. Ótimo o poema

    My mistress’ eyes are nothing like the sun;
    Coral is far more red, than her lips red:
    If snow be white, why then her breasts are dun;
    If hairs be wires, black wires grow on her head.
    I have seen roses damasked, red and white,
    But no such roses see I in her cheeks;
    And in some perfumes is there more delight
    Than in the breath that from my mistress reeks.
    I love to hear her speak, yet well I know
    That music hath a far more pleasing sound:
    I grant I never saw a goddess go,
    My mistress, when she walks, treads on the ground:
    And yet by heaven, I think my love as rare,
    As any she belied with false compare.

    A Heliodora é sem dúvida pomposa, mas isso faz parte, não existe poema perfeito e esse é o assunto. Queria chamar a atenção para distinguir o fazer poético da temática. O fazer é estrutura (e olha que eu sou de outra escola…), a pedra dura de quebrar, os dentes roendo… Leiam em inglês, mesmo não dominando a língua, não é tão difícil quanto parece e garanto que com o tempo vai melhorando…

    Obrigado pelo post.

    • Paulo Capella Says:

      Olá, novamente, quando eu disse que era estrutura eu quiz dizer que a quebra, digamos, no caso, é elemento organizador, notem o que minha velha professora dizia sobre o ponto central, digamos, o foco do poema. ele está no verso:

      My mistress, when she walks, treads on the ground

      Olha só que belezinha, a quebra é elemento organizador da brincadeira, a cacofonia. Salve, bardo, aprendi essa com o Bandeira mas acho que ele deve ter aprendido com você!!


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