This is for you, Karina.

Fevereiro 12, 2007

Amanhã volto ao trabalho. Para ser franca, não me sinto muito feliz e nem muito animada. E é por isso que quero lembrar da Karina.

Karina foi minha aluna da graduação, desde o início do curso até o último ano. Uma menina bonita, quieta, tímida e muito inteligente. Eu era um pouco temida por esta turma, em específico. Eles me consideravam muito exigente e por vezes tivemos alguns conflitos. Alguns alunos, alegando que eu pedia muita leitura e que as notas estavam muito baixas, mudaram logo de turma. Foi uma turma bem difícil e, apesar de já ter tido bastante experiência na sala de aula, confesso que fiquei preocupada e comecei a questionar se o problema não estava comigo.  Nunca irei saber ao certo, esta é a verdade. Mas no último ano, nós tivemos que nos enfrentar novamente: a temida turma e a temida professora. Eles prontos para o ataque. Eu pronta para a defesa.  E eis que acontece o inesperado — por algum motivo, ambos nos desarmamos. Acho que deve ter sido a literatura: trocamos nossas desavenças pelo universo fascinante da ficção.  

Ao longo dos quatro anos, a Karina sempre ficou. As amigas próximas foram para a outra turma. Ela, entusiasmada pelas minhas aulas, participava até das disciplinas opcionais que eu ministrava.  Me seguia onde eu fosse. Num dado dezembro, antes das aulas acabarem, ela deixou a timidez de lado, chegou para mim com um sorriso, e falou: “Cris, I want to be just like you when I grow up”. Ela não imagina o bem que essas palavras me fizeram naquele momento…

Os alunos se formaram e a Karina ganhou um prêmio da universidade, por ter sido a melhor aluna do curso. Todos seguiram com suas vidas. Cerca de um ano depois, durante uma aula minha, aparece a Karina, assim, do nada. Bate na porta e me chama. Interrompo minha aula e, um pouco apressada, vou falar com ela. Ela me dá um pacotinho e um cartão: “open it when you get home, please”. Eu a abracei, feliz por revê-la, disse “Thanks a lot, Karina. I’d better get back to work”. Cheguei em casa e abri o presente, era uma miniatura a óleo: um lírio. O cartão: “Dear Cris, thank you so much for everything. I will never forget you. All the best for you. Sincerely, Karina”  Fiquei super feliz, guardei o cartão e coloquei o quadro em cima da minha mesa de trabalho, onde ainda está.   

Dois meses depois, recebi a notícia que a Karina havia falecido, de um aneurisma cerebral . Deixou duas filhas, uma ainda bebê. 

Agradeço por ter tido a oportunidade de ter tido a Karina como aluna. Por ela nunca ter desistido de mim quando a maioria havia. Pelo contrário, ela sempre estava lá, silenciosa, atenta, e com o brilho nos olhos, típico dos alunos inteligentes e interessados. Hoje vejo que ela foi um porto seguro, um conforto, e me trazia um pouco de segurança, num momento de insegurança. Imaginar que eu possa ter ensinado algo para uma pessoa como a Karina é uma motivação para mim. E é com a Karina em mente que eu quero retornar ao trabalho amanhã.  

O lírio, segundo O Dicionário de Símbolos de Chevallier e Gherbrant, é relacionado “com a árvore da vida plantada no Paraíso (…). É ele que que restitui a vida pura, promessa de imortalidade e salvação”. 

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18 Respostas to “This is for you, Karina.”

  1. Raquel Says:

    Acho que, às vezes, os professores não têm noção do impacto na vida dos alunos.

    Que fofa ela.

    Boa aula e bom início de ano letivo. 🙂

    Bjs

  2. Gi Says:

    Oi, Cris

    É verdade. A Raquel tem razão. Eles não têm noção mesmo. Eu tinha um professor na faculdade que se queixava: “Até hoje nunca nenhum aluno me “causou” nada e nem eu a ele. Nunca houve nada ‘profundo'”. Bem, isso era o que ele supunha na seu lado orgulhoso e rabugento. 😉 Nossa, quis me aproximar mas com ele era dificílimo… Era tudo muito superficial. E olha que na monografia de fim de curso ele foi citado nos meus agradecimentos. Ele e alguns outros nem imaginam o quanto me ajudaram. Quem bom pra você ter uma aluna assim.

  3. cris s Says:

    Raquel e Gi,

    A atitude que impera com relação ao professor, na maioria das vezes, é de descaso. Em casos extremos, de desrespeito. E, obviamente, é muito desistimulador.

    Por outro lado, há alunos como a Karina. Que valorizam o teu trabalho, percebem o teu empenho, a tua experiência no assunto. Não se amedrontam quando vêem que as aulas são ‘difíceis’, encaram como desafios. É por esses alunos que vale a pena.
    Gostaria muito de ter uma Karina nesse meu recomeço. Estou precisando! 🙂
    bjs e boa semana para vocês.
    Cris

  4. Gi Says:

    Pois é, Cris. Fico me perguntando como podem fazer isso… Além de ser falta de respeito com o ser humano que está ali, é uma total falta de consciência do papel do professor numa sociedade. Eu sou daquelas que sei diferenciar meu “papel de aluna questionadora” da submissa. Muitas vezes o aluno não consegue fazer isso e parte pra agressão (há professores assim também, claro). Alguns alunos não conseguem enxergar que quando o professor critica e desafia a turma, não é porque “odeia” essas pessoas. Uma vez em sala, eu tinha lá meus 22 anos (entrei na faculdade aos 21) e uma menina falou: “ah, não sei qual é a desses caras, querem sempre insinuar que somos idiotas, o que é isso, pô?” Respondi a ela mais ou menos assim: “mas é esse mesmo o objetivo, fulana, contanto que eles não chamem ninguém de imbecil diretamente… Depende de como você encara este “estar na universidade”, vai depender de como você encara o aprendizado; se no primeiro desafio você já armar uma guerra de egos com quem te ensina algo, não valerá de nada estar aqui. O importante é desconstruir pra depois alcançar o outro estágio que é justamente o que o professor almeja, onde ele vai ver que você entendeu algo do que ele quis passar. Onde tudo valeu a pena.

    Não sei se ela entendeu, mas quis ajudá-la. ;-)) Bjs

  5. Lili Says:

    A gente só entende um professor quando vira um. Eu achava que os professores nem me notavam no meio de dezenas de alunos. Mas nós tinhamos várias disciplinas, os professores, poucas turmas. Agora sei que o professor tem uma impressão sobre cada aluno e penso como aproveitei mal isso. Eu fui uma boa aluna, mas deveria ter aproveitado mais meus professores. Bjs

  6. cris s Says:

    Gi,
    Encaro o meu papel como o de mediadora, de facilitadora. Nunca gostei de professores que fazem os alunos se sentirem estúpidos. Os meus melhores professores davam aulas difíceis mas eram muito generosos, “facilitavam” questões que eu achava complexas, me levavam a pensar que, com um pouco de empenho, eu daria conta. Há os figurões que chegam e dão aulas herméticas, cheias de verborragem, chatíssimas. Esses, têm como platéia apenas as suas vaidades e o desprezo dos alunos.
    bjkas.

  7. cris s Says:

    Lili,
    Não sei se se aplica a todos professores. No meu caso, sempre lembro de cada aluno individualmente. Lembro das perguntas que cada um faz, se um é quieto, lembro das feições e das expressões. Tenho que dizer que algumas vezes me enganei com algumas reações dos alunos quietos. Tomava-as como desinteresse.
    Há mil energias rolando na sala de aula, coisas boas e não tão boas, às vezes vc ‘misinterpret’ as energias.
    bjs

  8. Gi Says:

    Cris, xi.. nesse aspecto somos diferentes. No entanto, estou de acordo que o papel é o de facilitador mesmo, mas se eu fosse professora, tenderia a ver a questão por um viés mais “mandante”. Não sei.. Adoro esses professores sobre os quais você fala. Acho-os injustiçados. Evidentemente foi o que te disse, se me faltar com respeito, aí realmente terá meu desprezo. O que acho que acontece com eles é o seguinte: há uma certa infantilidade. Vou dar um exemplo: uma vez um karinha escreveu algo no quadro negro antes de começar a aula algo como um trocadilho com o nome do professor; não vou falar aqui, mas ficava assim. “Fulano (nome de três letras com “v”) viu a vara”. A reação dele foi péssima. Ele entrou, viu aquilo, deixou a sala e os puxa-sacos começaram a tentar culpar a “galerinha” que senta atrás. Provavelmente foram eles, mas os bajuladores não tinham provas. Mas acusaram assim mesmo. Foi um bafafá e um dos acusados mandou mesmo um “vai t… no..”. Eu tive de concordar com o acusado. Mas olha só o que o professor começou a fazer: sem avisar a ninguém, ele combinou secretamente com os bajuladores que daria aula (daquele dia em diante) na sala tal e poucos ficaram sabendo. Resultado: quase perdi a aula. Ele não podia fazer aquilo. Achei horrível o que ele fez, mas a aula dele era sem dúvida a melhor da faculdade. Entende minha visão?

  9. Gi Says:

    Cris, acabei esquecendo, deixa eu te dizer porque gosto tanto dos “herméticos”. Fiz Comunicação Social. Não tem como dar uma aula de Teoria da Com., Antropologia, Português (ensinando a ler de novo), Filosofia, Psicologia, etc sem se utilizar um pouco disso. Quem não precisa desse lado são os “marketeiros” e jornalistas que estão lá só como bico e não têm prazer no que fazem, a não ser quando “enfiam” na goela alheia aquela teoria ridícula técnica e completamente sem sentido quando ministrada em sala de aula pra depois sair pra uma redação. Por isso vejo mais sentido no hermetismo. Ele sim dá armas para que o comunicador atue, seja na redação, seja na tv, seja onde for. Bjs

  10. cris s Says:

    Gi,
    Não acho que professores “facilitadores” ou “mediadores” sejam “injustiçados”. Eu sempre mantive uma posição firme frente todas as minhas turmas. E nunca fui de levar desaforo de aluno (ou de quem quer que seja) para casa. Jamais faria o que esse teu professor fez e não acho que seja uma posição ética. O conhecimento superior dele não justifica a exclusão dos alunos. Se fosse eu, teria enfrentado a classe e dito na cara de todos que eu não havia gostado e que exigia respeito.
    Já enfrentei coisas piores e, talvez por me mostrar humana, não ‘acima’ ou uma “Star Professor”, resolvi conflitos mais problemáticos que o que vc relatou.

    É difícil assumir a posição de ‘facilitador’ e mediador. Vc precisa de traquejo e de impor respeito p.q. senão os alunos podem pensar que ‘vale tudo’. Não é isso. É muito mais fácil chegar, dar a matéria e ir embora.

    bjkas!

  11. Gi Says:

    Ai, já vi que me expressei mal. Falei que os injustiçados não são os facilitadores, ao contrário! Os “herméticos verborrágicos” que são incompreendidos. Acabei não falando no meu comentário, mas na dita situação eu e meu amigo fomos tirar satisfação sim, mas o professor já tinha “desaparecido”. O grupo dos bajuladores que estava lá a confabular o caso da “vara” e nós entramos assim como quem não quer nada. Olha, imagino que você já deve ter enfrentado coisas piores. Cris, sua profissão é bonita demais, agora falando sem poesia… Mesmo com tudo isso deve ser gratificante. Minha irmã por parte de pai (mais velha do que eu 20 anos.. ops) tem ascendente em Aquário como vc, é PHD em Química e outras coisas (de corrosão sei lá) e ela me conta também alguns causos. 😉 Há umas diferenças entre mim e ela: ela é contra as cotas e eu a favor. hihi Bjs

  12. Gi Says:

    Um último adendo, aproveitando o gancho do seu comentário sobre a dificuldade em manter a postura do facilitador. Observo o seguinte nessa história toda: a postura “facilitadora”, “mediadora” seria bem-vinda se os alunos fossem sempre criaturas dóceis. O problema é que isso envereda a uma “visão grupal” de que você é amiga e não uma pessoa que detém um conhecimento que esses alunos não têm e nem tiveram tempo hábil pra ter evidentemente por causa da idade. E o jovem é por si só arrogante e a situação da Escola/universidade/estabelecimento de ensino é por si só conflitual e por incrível que pareça este jovem acha realmente que viveu mais do que uma pessoa mais velha que ele. Não estou falando da “indústria do doutorado” que hoje forma aqueles que querem ter um título só pra esbanjar e ganhar algum cargo numa empresa e depois dizerem “olha com quem vc está falando.” E geralmente estes são mais novos ou têm a mesma idade do que aqueles que estão ali assistindo à aula. C´est ça qui étonnera toujours! Mas enfim, por isso que prefiro os professores mais herméticos. E a verborragia ao meu ver e uma certa “masturbação intelectual” são inerentes a essa profissão. Acho que se eu fosse professora, chegaria de mansinho (mas séria) com meu ascendente em Virgem e depois, se algo não corresse bem, mandava ver com meu Sol ariano de casa 8. 😉 Bjs

  13. Gi Says:

    C´est ça qui m´étonnera toujours, je veux dire.
    : -)

  14. cris s Says:

    Gi,
    Putz, se eu deixasse o meu lado de virgem dominar, viraria uma chata sem limites e os meus alunos iriam me detestar.
    Os professores mais estrelas que eu tive, nomes conhecidíssimos na minha área, foram aqueles que sabiam dar aulas muito bem. Em outras palavras, sabem transformar conceitos aparentemente impermeáveis em algo que o aluno consegue entender. A ‘masturbação intelectual’ fica para as pesquisas e publicações (hihihi) 😉
    bjs

  15. Gi Says:

    Entendo, Cris. Mas é que Virgem no ascendente é diferente. E às vezes ele empresta ao Sol as qualidades que ele não aplica de Virgem e vice-versa. Bjs 😉

  16. Regina Says:

    Cris,

    Nossa que historia triste essa da Karina. Todos nos sabemos que a morte e’ algo inevitavel, mas eu acho que fica mais dificil aceita-la quando alguem e’ tao jovem e cheio de promessa.

    Por lado, como professora e’ uma sensacao incrivel quando encontramos alguem que tem talento e aprecia o nosso trabalho, nao e’ mesmo?

    Como foi o seu primeiro dia de trabalho? Espero que voce tenha alun@s interessantes.

    Beijocas,

    Regina

  17. cris s Says:

    Gi,
    Hehe, agora ficou hermético p/ mim!! O meu lado virginiano é meio cético e nunca me deixa muito à vontade com a astrologia. Pardones mon ignorance!
    bjs

  18. cris s Says:

    Re,
    Eu fiquei abalada com a morte da Karina. Semana passada encontrei umas fotos de uma apresentação dramática que a turma havia feito e ela estava tão bonita… parte o coração.

    Mudando de assunto, o primeiro dia de aula foi melhor do que eu esperava. Uma turma em especial parece ser muito boa e já vi que vou gostar bastante. Era tudo que eu precisava. O contato com a garotada nova e inteligente é muito saudável e faz vc se manter jovem também. 🙂

    bjs


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