Casa própria.

Fevereiro 25, 2007

Suas histórias sempre acalentaram o desejo da casa própria. Leve para o lado metafórico (que é muito belo, eu sei) e pelo lado literal (que é muito digno também, eu sei). Ele, do lado norte do globo, na América ou na Europa. Ela, peralambundo alguns anos por lá, mas, na maior parte do tempo, por aqui, do lado de baixo do Equador, onde nem todo pecado é pecado, nem tudo que é nobre, é nobre. Os dois lutando pelos mesmos direitos e sonhos, de maneiras diversas.

Hoje, o almoço descompromissado de domingo com o indefectível frango assado.  Mas, noblesse oblige, e a nobreza há de servir pelo menos para a culinária, o frango assado é realmente muito bom, com as ervas próprias, frescas; feito sem preguiça, e, portanto, jamais seco, mundos à parte daqueles que se assam nos bares de esquina. Tudo que é bem feito nessa vida vale a pena, ela pensa. O frango, fresco, marinado com ervas da horta, alho e cebola, um pouco de vinho branco seco, um fio de azeite extra virgem. Encontrar a quantidade certa dos ingredientes é uma arte para poucos, convenhamos. Vinte minutos no fogo alto para selar os sucos da carne, 45 minutos no forno baixo. Para acompanhar, batatas cozidas rapidamente e posteriormente assadas com raminhos de alecrim. Não há nada mais simples e melhor. O vinho branco na temperatura certa. Os filhos viajando e a sensação de liberdade, quase esquecida.

O céu azul se encobre de noves pesadas cinzentas. 

— Não há nada mais belo que ver uma tempestade se aproximar e sentir-se, ainda assim, protegido, dentro da própria casa, ela diz com um sorriso largo.

— Sempre gostei desta sensação. Desde criança, quando aguardava os tornados chegarem ansiosamente no Texas.

— E saber que aqui, dentro de nossa casa, a casa que construímos nós dois, nada há de acontecer. No matter what.

— É verdade.

Subitamente, ele diz: você sabe que na história de 4.6 bilhões de anos do nosso planeta, ele foi aniquilado pelo menos três vezes? A vez mais conhecida, apesar de não ter sido a mais destrutiva, foi aquela que acabou com a era dos dinossauros, 65 milhões de anos atrás. Os astrônomos recentemente discutem o sólido argumento que o maior destruidor do nosso planeta é o fenômeno das supernovas (a exploxão espetacular que marca o fim da vida de uma estrela). De qualquer maneira, o importante é lembrar que a terra sempre teve recursos próprios para renascer das cinzas, feito fênix. Ela sempre se surpreende com o conhecimento dele.

— Você acha que a terra tem condições de sobreviver a destruição trazida por nós?

Ele, otimista, faz que sim com a cabeça.

A tempestade continua, inclemente. Logo a paz é interrompida: as folhas das árvores entopem a calha. A água, rapidamente, invade o banheiro dos filhos. A falsa promessa de paz e proteção é interrompida por uma tempestade passageira de dez minutos.  Os dois se levantam e, em gestos aparentemente coreografados, pegam os baldes e os panos para secar o banheiro.

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6 Respostas to “Casa própria.”

  1. Raquel Says:

    Pôxa, que bacana.

    É autobiográfico?

    Nõs somos o nosso meteoro!

    Bjs bjs

  2. JN Says:

    Muito bem! 😀

    O fim da «história» (acho que é uma história) não podia ser melhor…

  3. cris s Says:

    Raquel,
    Obrigada! É uma brincadeirinha “meio” autobiográfica sim.
    É como vc diz, somos o nosso meteoro. Mas ainda bem que não chegamos ao ponto da destruição das supernovas. Mas, do jeito que as coisas estão, podemos (ai, ai, ai) chegar lá.
    bjs!

  4. cris s Says:

    JN,
    Thanks!
    Sabe que eu deveria continuar o fim da ‘história’. Pois não é que a tempestade arrancou metade de uma árvore? Ainda bem que ela caiu em cima do muro e não na nossa “casa própria”!!!

  5. r.filgueira Says:

    GOSTEI MUITO.
    …COZINHA COMO EU – SEM PREGUICA…

  6. cris s Says:

    R. Filgueira,
    Cozinhar sem preguiça não é fácil. É fazer as coisas com prazer. A tal moça do pseudo conto consegue. Eu, nem sempre.
    bjs


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