Primeiro de março.

Março 1, 2007

Gostaria de lembrar melhor, mas vinte e sete anos é muito tempo. Olhos verdes brilhantes, a pele alva, os cabelos cheios e morenos. Um homem alto, muito bonito e carismático. No furor da minha adolescência, nunca pensei que fosse perder o meu pai tão jovem, apesar de vê-lo lutar contra o câncer durante nove anos. Ele nunca viu as minhas filhas. Não conheceu o meu marido. Não participou dos ‘grandes’ momentos da minha vida… Fazendo um breve balanço, acho que ele teria, no geral, orgulho de mim. Mas orgulho não é um sentimento que eu mereço – sem pieguice. Verdadeiro orgulho é o que eu sinto por ele e sua história de vida. Falo sem reservas, porque quem o conheceu confirma: o meu pai inventou o conceito de self-made-man, desafiando o destino típico que era reservado a um menino pobre, filho de imigrantes. Fugiu de um pai tirano, emprestou dinheiro e, sozinho, foi atrás do sonho de ser médico. O histórico do meu pai, uma pessoa que dedicou todos os dias de sua vida à causa da saúde pública, é invejável. Abraçava causas humanitárias sem medo nem preguiça, e fez diferença para muita gente. Principalmente os destituídos. Era a felicidade e a vocação dele.  

Com o passar dos anos, as pessoas lembram cada vez menos dele. Mas ainda acontece, e, invariavelmente, as pessoas ficam felizes em partilhar alguma história e de me contar como ele era. Não quero nunca esquecer. Porque o que eu me lembro se mistura um pouco com as fotografias e eu já não sei decantar o que vem da foto do que ele realmente era para mim. As cartas que ele me deixou, no entanto, são registros preciosos. Elas me confortam e me dão força para continuar a viver

18 Respostas to “Primeiro de março.”

  1. Leila Says:

    O tempo passa mas continua doendo, né? De qualquer forma, saber que teve um pai maravilhoso – mesmo que por pouco tempo – é um alento.

  2. Raquel Says:

    Ai, ai, dói, né?
    Meu chefe foi aluno do meu pai. Onde trabalho tem uns três ou quatro outros que também foram. Um dos melhores amigos do Mr. Engineer, também. Volta e meia topo com ex-alunos dele, de segundo grau e da universidade. E o engraçado é que dizem: “Pô, achava seu pai o maior carrasco, mas hoje acho que teria alto papos com ele, eu que não entendia nada quando era adolescente”.
    Aí, penso: “Nem eu, nem eu”.
    Bjs bjs bjs

  3. Gi Says:

    Cris, imagino sua dor na hora e também, de certa forma, agora. Muito bonita a sua admiração descrita no texto. Costumo dizer que o “grau da dor” é o mesmo; talvez o que diferencie é a idade “de quem fica” e a forma com que perdemos uma pessoa. Falo isso, porque infelizmente, ao longo da vida, tive de ouvir as pessoas me dizendo: “ah, você tinha 8 anos, não era tão novinha”, ou ‘ah, criança tudo bem”… Achava uma maldade tremenda as pessoas quererem “amenizar o problema” e ainda acho, porque ninguém sabe o que fica no inconsciente e tenho muitos conflitos interiores e “exteriores” por ter perdido minha mãe cedo e ter um “pai que é mãe” até de maneira cultural: gosta de cozinhar, gosta de novela, essas coisas. 😉 O mundo só aceita os “certos”. Bem, mas hoje em dia estou literalmente mais ” lá” do que “cá” (não me deixo influenciar tanto) e contente com minha sorte. Sempre vou encontrar analistas pela vida querendo justificar meus atos adultos na “infância”. Freud explica. Ou não.

    E sabe o que ando reparando ultimamente? Uma semelhança em algo que ainda não consigo identificar entre mulheres que perdem o pai (adolescentes ou jovens) e que têm irmãos. Sei lá, coisa da minha cabeça.. Você entende o que falo? Percebe alguma diferença entre uma mulher que perdeu a mãe (cedo ou adolescente) e o pai? O que será que muda, quais são os referenciais depois?

    Bjs

  4. Gi Says:

    Corrigindo: “Sempre vou encontrar analistas pela vida querendo encontrar justificativas na minha infância para os atos adultos.” Voilà. Isso que´dá escrever muito. 😉

  5. cris s Says:

    Leila,
    Ele foi um exemplo de vida para mim. É bem triste lembrar que ele se foi há tanto tempo, que ele teria adorado conviver c/ as meninas, etc.
    But life goes on….

  6. cris s Says:

    Raquel,
    O teu pai morreu há muito tempo também?
    Eu acho legal quando as pessoas me contam do meu pai. E cada coisa interessante…
    O teu pai foi professor também? A filha deve ter puxado ao pai! 🙂
    bjs

  7. cris s Says:

    Gi,
    Obrigada pelas palavras.

    É, as pessoas não entendem que palavras, sejam elas ‘sábias’ ou lugares-comuns, não amenizam a dor. A dor existe e pronto, a gente aprende a conviver da melhor maneira que encontra. Simplesmente não há o que falar. O máximo que os amigos podem fazer, é escutar e emprestar um bom ombro.

    Achei o máximo o teu pai — que ama novelas e gosta de cozinhar. Que amor, Gi!! 🙂 Você tem sorte.

    Respondendo a tua pergunta: Eu acho que as filhas que perdem os pais cedo são meio fragilizadas c/ relação ao sexo masculino. No meu caso, que perdi um referencial muito forte, sinto que amadureci muito mais tarde nas minhas relações. Imagino que as filhas que perderam a mãe tenham também dificuldades nas relações. Mas não saberia diferenciar. Sei que Freud tentou explicar, mas eu acho que a psicanálise tem perdido muitos adeptos por se basear em traumas da infância, etc. Aí vc tem que passar a tua vida no divã, esmiuçando o teu passado.
    Enfim, acho, por outro lado, que, por conta da morte do meu pai, tive que aprender a tomar decisões muito cedo e arcar c/ as consequências sózinha. A minha mãe sempre foi um pouco frágil, então eu nunca gostei de preocupá-la. Acho, também, que, comparativamente, sou mais independente do que as minhas amigas cujos pais são vivos. E mais impetuosa. Bem mais! Ah, uma coisa super interessante: os meus 3 irmãos são totalmente o oposto de mim: são super dependentes e muito acomodados. Eu pode ser tudo, menos acomodada. Dá até medo, hehe.

    E vc?
    bjkas

  8. Gi Says:

    Oi, Cris, meu pai tem fãs! 😉

    Mas pra mim foi difícil e hoje somente que percebo isso. Todo mundo acha ele santo por me “aturar”, mas todos têm seus defeitos e ele também não seria diferente… Carreguei um estigma “ah, você é a filhinha de papai; seja independente, solte-se do seu pai”, sendo que eu era bem solta já! Mas imagina pedirem isso de uma menina que não tinha mãe. O povo é cruel. E fui me largando disso, me tornei fria por causa disso. Essa é uma parte “saturnina” meio chata na minha personalidade. Tudo culpa das mulheres da minha família… Cobrança em tudo que é lado.

    Não sou acomodada; sou pessimista, procrastinadora e segundo o estado de espírito: meio sem energia. É que eu sou romântica-à-là Byron… hahaha! Digamos que eu “pego no tranco”, quando a situação pede, eu sobrevivo.
    😉

    É verdade isso que você falou da Psicanálise. Sempre quis fazer análise, mas acho que fiquei com trauma das orientadoras educacionais no colégio.

    Beijão!

  9. Edelize Says:

    Cris, dói tanto né? Não importa o tempo, a dor, a saudade, a falta sempre dói. O importante é que ele te deixou estas lembranças lindas, e na falta de palavras e da presença física dele, isto é o que conta. Eu ainda tenho os meus pais, mas meus avós não estão mais aqui, e sinto uma falta enorme deles. Beijos.

  10. cris s Says:

    Gi,
    As pessoas cobram tudo. Principalmente a família…Se vc não é casada, vc “tem” que casar. Se vc é casada, vc “tem” que ter filhos. Se vc emagrece, “nossa, que magra”; engorda um pouco, vc está ‘cheinha’. A nossa sociedade é cruel e vc tem q criar um distanciamento crítico para não se tocar tanto.
    Hehe, gostei da tua definição “romântica à la Byron”!! Chique, chiquíssimo!!
    Mas o bom mesmo é saber que com tudo, apesar de tudo, vc (e eu tbém!) sobrevive! Viva os sobreviventes!!
    bjkas

  11. cris s Says:

    Edelize,
    Nem fala, menina… Qdo escrevi o post, me deu um nó na garganta…, qse desisti. Ele morreu com 45 anos, com uma carreira brilhante, uma pessoa que só fazia bem para os outros, é difícil de engolir. Mas não adianta brigar com o destino…

    Que bom que os teus pais estão vivos, Ede. Aposto que vc deve amar estar c/ eles quando vc vem p/ a terrinha!!

    Uma das minhas avós ainda está viva. Aliás, alive and kickin’, hehe!
    Bjs e bom domingo p/ vcs.

  12. Gi Says:

    Cris, você tem Sol na casa 8? Sim, porque você é Virginiana com ascendente em Aquário e é provável que “bata” lá na 8. Geralmente esta configuração é difícil mas fascinante e é a marca dos “sobreviventes”. 😉

    O “romântica à la Byron” é o seguinte: nunca li Lord Byron, mas já vi algumas coisas aqui e lá em português e inglês. Então, daí quando eu fazia meu blog, a minha colega me disse: nossa, Gi, você me lembra muito Byron. Você é esse tipo de romântica. . Entendi o que ela estava falando porque já tinha ouvido falar algo sobre este poeta, mas mesmo assim fui ver, pesquisar. E a palavra “romântica” tem uma conotação ruim na sociedade, eu acho. Parece aquela pessoa sem “sex appeal”, leve e boba demais. E em Byron isso não existe pelo que pude analisar rapidamente. Deve ser uma leitura mais “casca grossa”´pra mim, mas é muito melhor encarar o desafio.

    Bjs

  13. Gi Says:

    Minha mãe também morreu aos 45 anos. Uma vez até escrevi lá no blog da Denise que quando me perguntavam sobre isso, eu respondia, as pessoas exclamavam um “ah, novinha..” e eu dizia: “nananinanão, ela viveu muito, tá?” 😉 Veja que para uma criança um adulto é “bem velho”. No meu caso, eu reagia mal a isso porque na minha cabeça (olha, eu já tinha isso na cabeça), ela tinha morrido feliz, apesar do sofrimento, sabe essa coisa?

  14. cris s Says:

    Gi,
    Vc entende bastante de astrologia né? Eu entendo super pouco mas sou interessada. Gostaria de saber mais, na verdade.
    Eu entendi o que vc havia dito com “romântica à la Byron” porque já li e estudei Byron.
    Na realidade, 45 anos é ‘bem novinha’ mesmo Gi… Que bom que, na tua percepção de menina, vc achou que ela morreu feliz. Acho que a mente ajuda muito em momentos de extremo sofrimento. É uma questão de ‘sobrevivência’!!
    bjkas

  15. Raqu3l Says:

    Cris,
    em maio serão dez anos que meu pai morreu.
    Ele era professor, eu não. Acho que traumatizei com a quantidade de provas que ele corrigia e de aulas que preparava. :p
    Sim, puxei algumas coisas dele, gosto por leitura, curiosidade, querer aprender, saber mais, sim. Se bem que, na área dele mesmo, quase tomei pau na escola. Teria sido um terror, ho ho ho. Mas, tem gente que nasce para as Humanas e tem gente que nasce para as Exatas, né?
    Lembro até hoje do meu pai aquelas contas complicadíssimas que tem no manual de inscrição do vestibular para saber se com a minha média disso, daquilo, somado com o coeficiente de não sei o quê dava para eu passar, fazendo o mesmo com os resultados dos outros candidatos (e era gente demais) e aí depois de uns 30 minutos ele vira e fala: “Você passou”. Eu: “Para o primeiro semestre?”. Ele: “Para o segundo”. E estava certo, mas acabei reclassificada para o primeiro. 🙂

    Mapa astral? Ah, faz o meu!! 🙂
    Bjs bjs

  16. Gi Says:

    Oi, a gente faz o que pode. Qualquer coisa, pode me perguntar e se eu souber responder, daí te digo. Fazemos uma “soirée Byron-Astrologia”.. ahaha Você me fala um pouco de Byron.. 😉

    Na verdade, nunca fiz um curso de Astrologia, mas sempre me interessei desde novinha. Por causa do preconceito das pessoas e até o meu causado pela falta de conhecimento (todo preconceito é isso, né?), fui deixando pra lá, mas cheguei a fazer meu mapa aos 20 anos de idade. E aos 26 anos, cheguei até a destruir a fita (um lado só ficou gravado na época.. engraçado) na França de tanta raiva; aquilo tudo só estava fazendo sentido naquele momento. E isso provou que o verdadeiro sentido da Astrologia não é essa coisa atual, moderna de aliá-la à Psicologia, como eu ingenuamente pensava. Pra mim é fácil separar um pouco agora porque o pouco que estudei de Psicanálise foi antes de me aprofundar em Astrologia. Daí, agora descobri um espaço no Orkut onde tiro minhas dúvidas (entrei só pra isso nesse site) e outros blogs de Astrologia Medieval/tradicional. Há muita porcaria mas muita coisa boa por aí. E a coisa boa foi começada pelos antigos, os árabes conservaram e como sempre o “nosso ocidente” destruiu e fez disso “poder” (daí a chacota às vezes) e não “arma de conhecimento e previsão”. Astrologia é previsão, mas os astrólogos modernos têm medo disso, talvez porque não sejam bons o bastante. Eu tô no início/básico, mas me esforço, já que nunca comprei um livro na vida (li 3 da família) e só vejo na internet. Precisaria fazer um curso. Mas não está nos meus planos agora.

    Bjs

    ps: sobre a idade, não se assuste, mas se eu morresse aos 45, não me acharia nova. Mas que não fosse sofrido… 😉

  17. cris s Says:

    Gi,
    Taí, gostei da soirée Byron-Astrologia!!

    Vc tocou num ponto muito importante p/ mim e que eu defendo ferrenhamente: o preconceito é essencialmente fundado na ignorância (não conhecer).

    Vc então acabou destruindo a fita do teu mapa? Algo deve ter te chateado, não. E as coisas que o teu mapa revelou, aconteceram? Eu nunca fiz o meu mapa astral… Antigamente o pessoal levava muito mais a sério, não? A própria Rainha Elisabete I tinha um astrônomo pessoal que funcionava, também, como psicólogo e médico. Aliás as ciências não faziam mto fronteiras entre si, o que eu acho fascinante.

    Pelo jeito q vc fala, Gi, vc deveria fazer um curso. Acho que vc adoraria.

    Hihi, 45 não é muito nova não. Mas também não é velha,né?!

    Bjkas

  18. Gi Says:

    Hahaha Cris.. Realmente, um dia faço esse curso, ou não. Por enquanto, é impossível. Essa astróloga não previu nada em 1995; o problema é que eu passava por momentos dificílimos, estava na França (em 2002/2003) e ouvir aquilo tudo só fez sentido naquela hora. Ela romanceou, porque senão a pessoa pode ficar paranóica; ela não previu nada, porque os atuais têm medo de prever algo (mas esse é o trabalho do astrólogo verdadeiro; de que serve analisar o que já ocorreu?), mas de certa forma todas aquelas palavras tiveram um sentido de “previsão romanceada” baseada no pouco que eu havia dito da minha vida aos 20 anos. Preferiria hoje esbarrar com um astrólogo que lide mais com a Astrologia Tradicional-Medieval e que fosse absolutamente direto ao ponto, porque eu sou esse tipo de pessoa, sabe? Ela colocou certas ilusões na minha cabeça sob paradigmas complicados, mas não me apeguei nos paradigmas e sim nas ilusões! 😉

    Bjs


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