“De um país distante…”

Abril 2, 2007

[Para aqueles que gostam de literatura: o título vem de Hamlet e tem relação, ainda que de forma indireta, com a minha pesquisa]

Na realidade,  me sinto num “país distante” mesmo. Estou distante de tudo, totalmente fora de sintonia com as coisas rotineiras. Só saio para trabalhar na universidade e depois me enfio nos livros e no meu texto!

Então para os meus (ex)leitores, algumas rápidinhas:

– As coisas progrediram imensamente! Até a minha neutríssima orientadora concorda! Eu ando super concentrada e logo devo ter novidades!  

– Sábado passado foi o aniversário da minha filha, Maria Luiza. Fizemos a maior festa com tacos e piña colada. A garotada amou! Eu adoro conversar com os amigos da minha filha, trocar idéias e aprender com a garotada – incrível como todos estão concentrados no vestibular que vão prestar no final do ano. Na idade deles eu, francamente, não estava nem um pouco preocupada. Aliás, me preocupava com pouquíssimas coisas. Êta tempo bom.

– Sábado retrasado foi aniversário do meu marido. Fizemos uma paella (encomendei, né, porque não sou de ferro!) e convidamos vários dos nossos amigos. Foi uma festa agradabilíssima, uma noite estrelada e deliciosa, com gente divertida e inteligente e, ainda que o grupo fosse bem eclético, todos se deram bem.

E eu não sei como vocês são, mas eu sou ultra perfeccionista quando faço festas. Organizo tudo, penso em pratos, coordeno cores e arranjos de flores, bebida, tudo. É uma chatice, mas no final dá tudo certo e eu realmente sinto o maior prazer em me esmerar, receber meus amigos bem e ver que tudo funcionou. Mas acima de tudo, o que adoro é ver como a minha família fica feliz com as festas e aprecia a maneira especial pela qual recebemos os amigos.  O meu marido e as minhas filhas me ajudam sempre e acabam até curtindo o processo todo. O meu marido, em especial, adora as suas festas de aniversário: ele sempre diz que nunca havia curtido os aniversários dele antes de me conhecer. Como ele é estrangeiro, acho muito importante que ele saiba que além da família, ele tem um círculo de amigos aqui também (que aliás gosta muito dele!).

– Ando num impasse importante: falta convidar uma pessoa para a banca da minha defesa e há três pessoas em vista. Os três são convidados de fora. Todos são figurões na minha área e, obviamente, me metem medo. A primeira é uma das acadêmicas que eu mais respeito, mas ela é ultra, hiper crítica. Uma vez eu publiquei um capítulo em um livro que ela organizou e ela deve ter me enviado o tal do capítulo de volta umas dez vezes (a última foi por causa de uma única vírgula…). A fama dela em defesas, pelo que me falam, não é das melhores. A segunda é uma professora que eu não conheço pessoalmente e que trabalha com ‘inter artes’ (literatura, pintura e cinema), já publicou horrores. Está orientando uma das minhas melhores amigas que está fazendo seu pós-doutorado. O último é também o ‘seguinte’, além de ter vários livros publicados, é um tradutor conhecidíssimo. Parece que os últimos dois são ‘simpáticos’. Ocorre que, numa banca de doutorado, as coisas mais absurdas acontecem: os simpáticos se tornam monstros e os amigos têm uma amnésia súbita — um quer aparecer mais do que o outro, ninguém para de falar: é o circo! Se você já assistiu uma defesa, você sabe bem sobre o que estou falando. O mundo acadêmico é um universo de egos acirrados e nada melhor do que juntar 5 examinadores numa banca de doutorado para que isso se evidencie. Então, a idéia é a seguinte: ataque o candidato durante 1/2 hora com perguntas e comentários absurdos, alguns das quais nem versam sobre o objeto de análise da vítima. Encontre teóricos que contradizam a linha de pensamento da vítima. Quanto mais desconhecido e obscuro melhor. Exemplo: você está tratando sobre um aspecto x da civilização maia no México e o examinador encontra um polonês que trata dos aspectos x + y + z da civização egípcia. O figurinha então te pergunta de que maneira a teoria do polonês iluminaria alguns aspectos da tua pesquisa. Se você der a resposta honesta, que você nunca ouviu falar do polonês e que, francamente, você acha que a teoria dele só tem o “x” de semelhança com o teu objeto de estudo, e que esse “x” se configuraria de maneira totalmente diversa na tua pesquisa, você está ferrada. Então, de praxe, você elogia a brilhante idéia do examinador e admite que sim, obviamente, a teoria do polonês ilumina grandamente o teu estudo e confessa você foi cego (e burro!) durante todos os 4 anos da tua pesquisa, e que ele, nossa, é um gênio. Se você responder assim, o ego do fulano se infla e ele está no papo. Juro, funciona exatamente assim, aqui e nos países de língua inglesa onde eu estudei e trabalhei.  Espero só que eu funcione bem no dia e que tenha o necessário jogo de cintura. Eu sempre sou muito honesta, ainda que bastante delicada; sou também um pouco tímida. Mas gente, tudo, absolutamente TUDO para eu me livrar desse troço.

 Então, você que leu, mantenha os dedos cruzados por mim. Porque mesmo que você não me conheça, juro para você que eu mereço!! Aliás, qualquer pessoa que chegou nesse ponto merece.

E eu volto para contar qual dos três examinadores foi escolhido. Volto antes da defesa. E provavelmente depois. Ah, e ando bem desencanada com a questão do blog e da minha escrita.  Esse bloguinho será, o que será. Eclético, múltiplo, sem identidade fixa. E falará da condição feminina, de receitas, de poesia, de lavandas, de cinema, de estrelas e o que mais me der na telha.  Voilà! 

Aliás, por falar de estrelas, segue uma foto da vista do meu quintal, tirada na semana passada 🙂 É a famosa “Eta Carinae” (“Eta” é a estrela mais brilhante e “Carinae” é a constelação), próxima do Cruzeiro do Sul.  Portanto quando você vê a “Eta Carinae” é porque você está no Hemisfério Sul (ou próximo dele).  A foto é do meu fotógrafo e astrônomo favorito, Bill Smith, que não cansa de se maravilhar com o céu aqui debaixo do Equador.

eta-carinae-blog.png

Tudo de bom para quem passar por aqui!

Hitch your wagon to a star” (Ralph Waldo Emerson)

Cris S.

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8 Respostas to ““De um país distante…””


  1. Ai, Cris, eu acho esse mundo acadêmico aterrorizante… me dá arrepios só de imaginar uma banca examinadora, eu ia entrar em pânico.

    Boa sorte, tomara que você seja bem iluminada na hora de escolher a pessoa!

    Beijão e boa semana!


  2. Lindíssimo!!!!!!!!!!!!!!!!

  3. JN Says:

    De um outro «país distante» desejo de felicidades… 🙂

    E até uma próxima!

  4. Raquel Says:

    Como assim ex-leitores? 😛

    Pôxa, no meu ano de vestibular eu estava tããão despreocupada!

    Maria Luiza é um nome lindo. Lembra a música do Tom Jobim qeu diz “O samba de Maria Luiza é bonito pra chuchu, é bonito pra chuchu…”. Parabéns para ela e para o seu marido!

    Também adoro festas, curto muito. Hoje não faço mais por uma série de fatores cansativos de explicar. Mas me dá aquela vontade de fazer umas comemorações… ai, ai, ai. Sempre com flores, muitas, muitas flores…

    Nossa que tensão a escolha da banca, hein? Se você gosta dos três, fica com os três. Uma boa banca valoriza a sua tese não? Por exemplo : “Fulana de tal passou na defesa super bem e olha que a banca dela tinha o Bicho Papão, a Bruxa Malvada do Oeste e a Madrasta da Branca de Neve!”.

    Claro que você vai conseguir se dar bem na defesa. Afinal, quatro anos de estudo, não vão ser a banca que vai te derrubar, né? Faça o que tem que ser feito, dentro dos seus limites e valores , e vire doutora. 😀

    Amei a foto. Teve a ajuda de um telescópio, certo? Ah, não agora, que você precisa estudar, mas depois da defesa, me explica como o seu marido faz para colocar o nome dele e copyright/all rights reserved no pé da foto? Juro que quero fazer isso com as minhas….

    O bloguinho é o que é!

    Bjs bjs e boa sorte

  5. cris s Says:

    Denise,

    Essa parte do mundo acadêmico, a dos egos inflados, é aterrorizante mesmo. Eu já estou em pânico!

    E que bom que você gostou da foto do Bill! É maravilhosa, concordo!!

    beijocas

    JN,

    E, ‘de um país distante’, mas muito distante mesmo, mais do que eu estou geograficamente, eu te agradeço. E logo, logo, você estará a caminho da forca também, não?? (nossa que imagem horrível)

    Raquel,

    Claro que eu lembro da música! Foi uma das motivações p/ eu escolher “Maria Luiza”. Tem “Luiza”, também. 🙂

    Eu também adoro flores e ervas. Se tivesse dinheiro encheria minha casa de bouquets. Acho que elas alegram o ambiente.

    Uma banca de doutorado deve ter 5 examinadores (contando com o orientador) e cada um tem 1/2 hora para argüir e eu tenho o mesmo tempo p/ “me defender”. Acho que o termo “defesa” é alías, BEM apropriado. Porque na realidade é muito ataque que você sofre. Mas vou tentar não me concentar nisso agora. Tenho que acabar a tese!

    A foto é tirada com uma câmera acoplada a um telescópio. Para ficar boa assim, ele tira umas 100 fotos e depois trabalha em cima delas, sobrepostas. O Bill é fascinado por astronomia e astronomia fotográfica e tem curtido os céus estrelados desses dias quentes. Parece que é muito fácil colocar a watermark (se não me falha a memória é esse o termo correto) nas fotos. Eu pergunto para o Bill e depois te falo, tá??? Aliás, eu também quero usá-la nas minhas fotos.

    Obrigada pelos comentários e pela força!!!

    bjs,

    Cris

  6. JN Says:

    LOL… a forca para mim ainda vai demorar uns dois anos… espero eu! 😉

    Força nisso… 🙂

  7. Regina Says:

    Cris,

    Espero que voce escolha a pessoa certa para a banca examinadora. E’ realmente de dar pavor.

    Meus parabens e votos de felicidades para o Bill e a Maria Luiza. O aniversario do Bill e’ por acaso no dia 17 de marco, St. Patrick’s Day? Se for, e’ no mesmo dia do aniversario do Danilo, meu filho.

    Incrivel a foto que o Bill tirou. Jesus, fico imaginando que tipo de equipamento ele tem. Sinto saudades do Cruzeio do Sul aqui no hemisferio norte.

    Quanto a festas, fico tao estressada que acabo nunca fazendo nenhuma. Geralmente convido os amigos para um jantar, so uns dois de cada vez, hehehe

    Para finalizar, adorei quando voce falou que se sente num “pais distante”. Poetico! Nao se espante, se eu acabar criando um poema a partir dessa sua expressao. E’ claro, lhe darei o devido credito.:-)

    Bj.

    Regina

  8. cris s Says:

    Rê, querida,

    Eu e minha orientadora ficamos entre duas examinadoras e, no final das contas, se ela aceitar vir p/ cá, vai ser a que eu mais admiro. Na realidade, a que mais me incentivou, uma das pessoas mais generosas e mais sérias que eu conheço profissionalmente. Ocorre que ela é muitíssimo rigorosa mas eu já estou um pouquinho mais calma e acho que eu tenho que enfrentar essa parada. Vai ser um ritual de passagem, sem dúvida. E que seja o que tiver de ser. Porque eu dei o meu melhor.

    O Bill nasceu no dia 11 Regina. E obrigada pelos votos de parabéns p/ os dois. A Maria Luiza está na fase mais bonita (interna e externamente) da vida dela. O namorado é um amor e já o considero da família pois ele a ama, a respeita e cuida muito dela. Ela precisava de uma pessoa assim. Quanto ao futuro, quem sabe falar, não?

    Hehe, você também é perfeccionista não? Eu também acho melhor fazer jantar pequenos, é muito mais fácil. Mas algumas vezes por ano eu não me importo de me esforçar tanto porque o Bill e as meninas adoram o resultado, ficam felizes e os amigos também. É uma das minhas maneiras de mostrar o meu amor.

    O equipamento do Bill é realmente extraordinário. Ele construíu um observatório aqui em casa. Pena que os céus de Curitiba não ajudam muito. We would love to welcome you guys when you come to visit your sister. Hopefully there will be some starry nights and we will be out talking about the beauty and mysteries of the universe. 🙂

    Um país distante é a tradução de uma citação de Hamlet de “unknown country”. Vou adorar que você faça um poema a partir dessa expressão. E não precisa me dar crédito, imagina.

    bjs,

    Cris


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