O delicioso filme “Miss Potter”

Maio 10, 2007

Adorei o filme sobre a vida da criadora do Peter Rabbit e de outros personagens inesquecíveis. Beatrix Potter (1866-1943)nasceu na Inglaterra vitoriana e enfrentou com firmeza e doçura uma sociedade patriarcal, na qual as moças burguesas eram educadas exclusivamente para cuidar do bem-estar do marido e dos filhos. Foi uma época de grandes turbulências sociais que trouxeram modificações importantes para a mulher. Até a virada do século XX, o movimento das sufragistas já havia angariado várias conquistas, dentre elas o direito à herança e ao divórcio. Como Beatrix Potter morreu em 1943, ela teve a sorte e a oportunidade de colher todos os frutos do seu incrível sucesso como escritora e ilustradora. Com sua fortuna, foi adquirindo fazendas na Região dos Lagos e se tornou uma das primeiras preservadoras de uma região que poderia ter sido destruída pelas indústrias da área.

Acho legal lembrar que até o século XIX, principalmente, a grande maioria das escritoras usava pseudônimos masculinos ou até publicava anonimamente para conseguir entrar no mercado editorial. O grande escritor, era sempre associado à figura do “criador”, ou seja, do “pai” da grande obra. É incrível ver como essa associação ainda perdura no inconsciente coletivo, de forma que quando fala-se dos “grandes mestres” da literatura, poucas ou nenhuma mulher são lembradas. Mas não precisamos voltar tanto no tempo – infelizmente, várias edições de coletâneas organizadas por mulheres, trazem apenas o sobrenome. Aliás, para falar de um exemplo recente e bem conhecido, R. K. Rowling, a autora de Harry Potter, foi aconselhada pela editora Bloomsbury a usar apenas o sobrenome, uma vez que Harry Potter é um livro de aventuras de um menino e, presumidamente, perderia a sua ‘autor-idade’ se os pequenos (e grandes) leitores descobrissem que o autor era, na realidade, uma autora, a Joanne. Foi uma estratégia de marketing que ilustra muito bem como as coisas ainda funcionam no mercado editorial. A questão da mulher como escritora não é a tônica de Miss Potter, ainda mais porque Beatrix escreve e ilustra ‘livrinhos infantis inócuos’, com ‘bichinhos engraçadinhos’, que não se configuram como “alta literatura”.  

A fotografia do filme é linda, principalmente nas cenas filmadas no Lake District, a região dos lagos, que fica entre o norte da Inglaterra e Escócia. A beleza do lugar é realmente de tirar o fôlego e a fotografia faz juz à paisagem. Mas encantadora mesmo é “Miss Potter” e sua incrível imaginação que transforma coelhos, gansos, porcos e outros animais em alguns dos personagens infatis mais memoráveis da literatura de língua inglesa. Era uma das leituras mais apreciadas pelas minhas filhas (e por mim, que lia em voz alta para elas, tentando dar vida aos adoráveis personagens!). Vale mencionar que a reconstrução da época é impecável e que a atuação de Renée Zellweger como Beatrix é totalmente convincente. Um filme, sem dúvida nenhuma, delicioso.  

beatrix-potter_book.png

“Once upon a time there were four little Rabbits, and their names were — Flopsy, Mopsy, Cotton-tail, and Peter.”

17 Respostas to “O delicioso filme “Miss Potter””

  1. Raquel Says:

    Aaahhh, eu quero ver!
    Não sou muito fã da RZ, mas vi o thrailler e pareceu muito fofo.

    Bjs

  2. cris s Says:

    Raquel,
    Tenho certeza que você vai gostar muito. Volte para contar!
    Bjs


  3. Estou curiosissima pra ver o filme, acho a Renee W… meio enjoadinha nos ultimos filmes, mas adorava quando ela tinha um pouquinho mais de carne em Bridget Jones, depois ficou esquisitona… vou ver, depois te conto o que eu achei. Beijos!

  4. cris s Says:

    Denise,
    O filme é muito bom, você também vai gostar. A Rennée Zellweger está muito bem no filme. O sotaque inglês perfeito, acho que ela gosta de fazer papel de inglesas! Eu amei o primeiro Bridget Jones, me vi espelhada em tanta cena daquele filme…
    bjs

  5. Edelize Says:

    Puxa, legal saber da existência deste filme. Os livros dela são super populares aqui e a quantidade de produtos infantis que existe com os caracteres dos livros é imensa (uns muito fofos). Vou ver se encontro. Beijocas

  6. cris s Says:

    Ede,
    Você vai amar, não tem erro. Não é nenhuma obra-prima, mas é delicioso.

    bjkas

  7. Regina Says:

    Cris,

    Agora fiquei com vontade de ver o filme. Meus filhos sempre adoraram Peter Cotton Tail. Temos os videos e eles ja o viram varias vezes. As ilustracoes sao adoraveis. Quando eu estava gravida da minha filha e nao sabiamos se era menino ou menina, nos a chamavamos de Mopsy.

    Muito interessant o que voce disse sobre o mercado editorial. Eu nao sabia sobre esse lance da autora do Harry Poter.

    Beijos,

    Regina

  8. cris s Says:

    Regina,
    Pois não é incrível…. fico boba também. É uma discriminação horrosa. É claro que tem publishing houses bem liberais mas as mais conservadoras são terríveis. Muitas editoras se juntam a um nome masculino p/ poder publicar…
    bjs,
    Cris


  9. Para mim é sempre um prazer assistir a filmes de época bem feitos. Bem enquadrados, com impecável pesquisa de vestuário, de detalhes do cotidiano. Para mim um filme que não cuida dos detalhes perde muito. Eu sou um cara chato, daqueles que fica olhando se o capacete alemão usado num filme de guerra é o da guerra de 14 ou de 39… Se o disco que usaram num gramophone é realmente de 1920 é posterior… Sou realmente chato. E quando percebo falhas gritantes já vou levando o filme menos a sério. Não foi o que aconteceu com “Miss Potter”, um filme inglês, despretensioso, mas muito bem cuidado. Passando-se em 1902, com flash backs ne década de 1880, quando a biografada era uma menina, o filme é uma pequena delícia que trata da vida da escritora e desenhista de livros infantis Beatrix Potter. Tem-se verdadeiro prazer ao assistí-lo pela música, pela linda paisagem inglesa, pelos detalhes de interiores, pela performance dos atores – Renée Zellweger, que faz a Beatrix, Emily Watson, Ewan Mcgregor… Tem-se verdadeiro prazer em acompanhar a história de uma pessoa absolutamente comum e que muda seu destino ao mostrar ao mundo a sua arte. O filme trata de superação e de preconceito. Há quem possa achar esse típico filme inglês um pouco aborrecido, afinal a história é pacata, não tem muita ação, mas esse era o estilo de vida inglês na época – ainda bem que vivemos no século XXI ! Então, conditio sine qua non para degustar esse filme, coloque-se no tempo, desarme-se, abra seu coração e sua mente e entre nessa janela para o passado. A película foi um fracasso de crítica e de público, o que pode ser bom sinal. Porque não gostaram ? Falaram das caretas de Renée Zellweger, que crueldade ! Falaram da chatice dum filme inglês histórico, ora, que gente insensível ! Não se pode mais fazer um filme tranquilo sobre uma pessoa comum que descobre seu caminho calmamente, sem cenas de batalha ou de luta chinesa ? Heróis precisam sempre portar armas ou sofrer demais ? Nossa heroína não parece sofrer muito e só descobre o amor quase por acaso. Não é um grande conto de amor. É na verdade uma história de superação das convenções sociais de uma época graças ao talento. Porque se Miss Potter não tivesse talento e não soubesse usá-lo (e também um pouco de sorte), ela teria terminado sua vida como mais uma velha solteirona inglesa que a família e as convenções soterraram. Apenas isso. O filme é doce, elegante, muito bem estruturado, com uma fotografia linda e perfeita. Os atores impressionam e gostei principalmente de Barbara Flynn, que faz a mãe de Beatrix, que a gente chega literalmente a odiar, não pela sua maldade – coisa que ela não tem – mas sim pela sua absoluta insensibilidade, quase estupidez – coisa que o seu marido demonstra ter em duas cenas emocionantes. Achei a figura do pai vital nesse filme. Ele é emblemático. Mostra que as convenções de uma sociedade sufocam, mas sempre podem permitir uma saída, quando o coração fala. O recurso de animar os desenhos de Beatrix dá uma graça especial ao filme. Os desenhos, por sinal, são belíssimos. Recomendo essa fita para pessoas curiosas, nostálgicos, amantes da natureza, interessados pela arte dos desenhos e das gravuras, fotografia de cinema, filmes históricos e de época, bibliófilos… E também a todos os simplesmente interessados em histórias de superação. Só por isso já vale. Um belo filme.
    Paulo José da Costa

  10. Marilac Says:

    Olá, cheguei no seu blog por acaso depois de assistir hoje ao filme e ficar encantada!

    Ao buscar informaçoes em sites de cinema, fiquei chateada com as criticas negativas; e como simplesmente não concordava com elas, pode imaginar o encantamento que senti ao encontrar seu post tão gostoso , repleto de informações e lindamente ilustrado com uma foto do livro de Miss Potter.

    Amei o filme , fiquei encantada ao reconhecer nos desenhos alguns personagens que me encantaram na infância,A fotografia é belissima

    Complementando seu post que belo e explicativo comentário do Paulo José, disse tudo que eu queria para responder a criticas que não souberam se encantar com esse belo filme.

  11. Marilac Says:

    Olá, cheguei no seu blog por acaso depois de assistir hoje ao filme e ficar encantada!

    Ao buscar informaçoes em sites de cinema, fiquei chateada com as criticas negativas; e como simplesmente não concordava com elas, pode imaginar o encantamento que senti ao encontrar seu post tão gostoso , repleto de informações e lindamente ilustrado com uma foto do livro de Miss Potter.

    Amei o filme , fiquei encantada ao reconhecer nos desenhos alguns personagens que me encantaram na infância,A fotografia é belissima

    Complementando seu post que belo e explicativo comentário do Paulo José, disse tudo que eu queria para responder a criticas que não souberam se encantar com esse belo filme.

  12. cris s Says:

    Paulo José da Costa,
    Adorei o teu comentário!! Você mostra todas as qualidades para ser um excelente crítico de cinema. Eu concordo com você que o filme seja despretensioso e que, talvez, aí esteja um de seus grandes encantos. Da safra do ano passado, por exemplo, achei Babel muito histriônico e o excesso me incomodou muito.
    Ainda que eu não seja uma expert, também sou bem chata e fisgo alguns detalhes que passam despercebidos. Mas muitas vezes fico chateada comigo e lembro o que Coleridge falava sobre uma das condições para leitura ideal: suspension of desbelief ou suspensão da descrença. Explicando, o leitor/espectador ideal teria que suspender o dispositivo da descrença e se render ao mundo da ficção. É claro que quando vc tem um bom livro e um bom filme, vc se rende facilmente. Quando há problemas básicos da narrativa, a suspensão da descrença fica prejudicada. Imagino que isso te aconteça com frequência. Esses dias me peguei tentando ler um livro e realmente não consegui porque, a despeito da crítica positiva, ele simplesmente não me convenceu.
    Enfim, achei a tua análise impecável!! Obrigada por comentar aqui e sinta-se à vontade para contribuir com outros (valiosos) comentários.
    Cris

    • Paulo José da Costa Says:

      Querida Cris, só agora vi sua mensagem tão simpática. Obrigado pelas suas amáveis palavras. Se um dia vier a Curitiba, apareça em minha Livraria (Fígaro,Lamenha Lins 62) para tomar um gostoso café.
      Abração.

  13. cris s Says:

    Marilac,
    Obrigada pelo comentário! O filme é realmente adorável e parece que os críticos exageraram na dose.
    Você tem razão: o comentário do Paulo José da Costa foi bem melhor que o meu post!! Ele foi muito mais pontual. 🙂
    Tudo de bom para você!
    Cris

  14. Cherubino Says:

    Adorei o filme, fazia muito tempo que eu queria ver, já era fã de Peter Rabbit desde criança e o filme realmente é muito fofo, a fotografia linda, as paisagens, os sons dos pássaros e ainda aqueles desenhos maravilhosos, dá vontade voltar no tempo! 🙂

  15. Morgana Luiza Says:

    Sou fã de Beatrix Potter e estou com o filme original sem dublagem e sem legenda, como entendo pouco inglês está meio difícil para entender tudo. Vou tentar conseguir um com legenda. Identifico-me em tudo com Miss Potter, às vezes acho que já fui ela em outra encarnação por tanto me emocionar com tudo que ela fez e deixou. Adoro animais, em especial os coelhos, amo desenhar e escrever. A música tema do desenho é mais bonita e acredito que se o filme fosse feito com uma atriz mais semelhante teria ficado perfeito, mas vou terminar de vê-lo para fazer críticas.

  16. maria cristina Says:

    OI ADORO O SITE DE VOCES…


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