Era uma vez um roseiral…

Maio 15, 2007

Era uma vez um velho roseiral que crescia forte e sólido e de cujas hastes brotavam lindas rosas que enfeitavam a porta da entrada de uma casa antiga. Ali ele vive há três gerações: três gerações de mulheres, o roseiral insiste em adicionar. Porque, apesar de muitos homens terem entrado e saído por aquela porta — alguns para nunca mais voltar — o comprometido roseiral, sobrevive, principalmente, para acompanhar a vida dessas mulheres, tão diferentes, e, ao mesmo tempo, tão parecidas.  Afinal, que graça tem em ser um frondoso roseiral, se você não consegue desenvolver a capacidade para passar os teus dias refletindo sobre a vida de alguém? E, quanto à sua escolha, sejemos justos, a vida dessas mulheres era incomparavelmente mais interessante do que a dos homens que ele havia conhecido. Ao longo de todo esse tempo, ele se admirou com as transformações daquelas mulheres, tentou entender o lento crescer, o amadurecer e o envelhecer. Triste, se enterneceu com o inesperado endurecimento, chorou com as lágrimas furtivas, mas, também, sorriu, aliviado, com o olhar terno. Quantas palavras ditas, quantas alegrias e quantas tristezas. E o roseiral, dia após dia, memorizou tudo em sua cabeça de roseiral, até que a vida daquelas mulheres se tornou a sua razão de existir. Porque, verdade seja dita, o prazer dele era contar tudo, com os devidos detalhes e exageros, para os pequeninos botões que dele brotavam e desabrochavam. Aos poucos, então, tornou-se um excelente contador de histórias e tecia belas narrativas sobre aquelas estranhas e fascinantes mulheres: as rosas, curiosas como somente as rosas o sabem ser, suspiravam com os romances, surpreendiam-se com as aventuras, e sofriam com as desgraças das três mulheres. Uma era a avó, a segunda a mãe, e a outra, a neta. 

O roseiral, a despeito de si próprio, admite que suas rosas têm um quê de superioridade, que, quando não primam pela cor, se exibem com as suas fragâncias fortes e exóticas, deixando todo o jardim com um certo cíume. E o roseiral tem toda razão, não há como privar as rosas de sua beleza voluptuosa, de seu desabrochar impetuoso e de sua fragância inebriante.  Por motivos escusos, que escapam o entendimento do sábio e curioso roseiral, os espinhos crescem e, machucam pequenas mãos (provavelmente, da filha da neta, o roseiral não tem certeza e nem tudo pode saber!). Enganam-se os que pensam que os espinhos são uma proteção para as rosas: as mãos da avó e da neta eram deveras destras e sabiam, muito bem, se defender dos espinhos.

O último botão que nasceu, com a força adquirida do sólido roseiral, sobreviveu duas tormentas e alguns dias de frio. Se tornou uma linda rosa. E seguindo o destino das rosas, cresceu linda e orgulhosa de si, esperando o dia certo de mostrar o seu esplendor. Depois de uma noite fria, logo com os primeiros raios de sol, ensaiou o seu desabrochar, e, ao meio-dia, toda faceira, abriu suas pétalas, atraindo borboletas, abelhas e alguns olhares. Linda e majestosa, reinou um reinado curto no jardim daquelas mulheres, que já nem às rosas prestavam mais atenção.

Naquele domingo à tarde, para a surpresa do roseiral, a neta, que há muito não aparecia, entra apressada pela porta. Quanto amor, quanta história, quanto coisa para falar e quão pouco foi dito: a neta sequer se senta. O roseiral pressente tudo, lembra da história da neta, lembra da história da avó… e chora pelas duas — a vida do roseiral, naturalmente, não havia passado incólume àquela separação forçada. A neta, embora visivelmente emocionada, tenta, ao mesmo tempo, esconder sua emoção e olha para a rosa na saída. Pois a neta é fascinada por flores e muito havia se servido das rosas mais bonitas do roseiral, que por vezes até se ressentia. Mas, generoso, o roseiral deixou todo o ressentimento de lado;  conhecendo a neta como ele conhecia, conhecendo a vó como ele conhecia, ele faz o esperado sacrifício: relaxa e verga a sua haste para a mão enrugada e levemente trêmula, que, habilmente, corta a flor na primeira tentativa. A mais bela rosa é ofertada à neta. A neta, por dois segundos, esquece tudo: fecha os olhos e leva a rosa aos lábios e sente (isso é o que o roseiral imagina!) o aroma mais maravilhoso que jamais sentiu. O roseiral fica feliz, muito embora tenha perdido uma de suas mais belas criações. O roseiral cumprira a sua função.

rosa-da-vo.png

“Of all the flowers, methinks a rose is best.” (Shakespeare)

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2 Respostas to “Era uma vez um roseiral…”

  1. cris s Says:

    Obrigada Raquel. Acho que só você gosta dessas minhas invençõezinhas. Fiel escudeira!
    bjs


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