Archive for Junho, 2007

Só pode ser o alinhamento de Saturno e Vênus…

Junho 30, 2007

Atualização: Se você estiver passando por aqui hoje, domingo, corra para fora e tente ver Saturno e Vênus, eles estão começando a se afastar, mas ainda estão próximos!! Lembrem, a próxima vez será só em 2019…

Acabo de ver, a olho nú, e também no telescópio, um fenômeno que somente se repetirá em 12 anos: Saturno e Vênus alinhados, visualmente bem “próximos”. Meu marido, entusiasmado com a súbita clemência do céu pouco generoso desse nosso canto do hemisfério sul, está se deliciando com suas fotos. Esse belo fenômeno que vemos aqui nesse instante, pode ser visto por todos, em qualquer lugar do mundo. Saturno é o mesmo Saturno aqui e no Afeganistão. Vênus é o mesmo Vênus aqui e na China.

Isso me leva a continuar a refletir sobre a questão da nação, de “pertencer” e da língua materna. Desde criança eu tenho fascínio pela língua inglesa e um dos meus sonhos foi realizados quando eu fui morar na Inglaterra com 18 anos. Acabou que, desde então, a minha vida foi pautada por idas e vindas, embora tenha tido várias intervalos mais longos por aqui. Não satisfeita com os anos que morei na Inglaterra e com o meu conhecimento da língua inglesa, morei também na França. Aliás, nunca fiquei satisfeita, nem com o meu conhecimento de francês ou de inglês, nem com as minhas idas e vindas. Essa coisa de ‘pertencer’ a um lugar é realmente um pouco complexa para mim. Por pouco não me mudo do Brasil em três ocasiões diferentes. A última vez foi o meu marido que achou que deveríamos, por diversos motivos, ficar por aqui. Eu não sei se posso me chamar de “cidadã do mundo”, talvez por não ter me mudado do meu país, mas também não sou muito nacionalista. Amo chorinho e bossa nova. Mas também gosto de salsa, fado, blues e muitos outros tipos de música. 

A minha casa é uma casa bilíngue e eu, minhas filhas e meu marido (americano), somos “bilíngues” nos nossos costumes domésticos: conjugamos o “aqui” e o “lá” e criamos o nosso espaço bi-cultural, talvez um pouquinho multi-cultural. Ajuda muito o fato de meu marido ter morado na Europa muito tempo. Ele é muito aberto à diferenças culturais: recebe, assimila e/ou rejeita o que quer e eu aprecio e valorizo o espaço que construimos.  

Acho que a vida nos traz muitas surpresas e ironias — uma delas foi ter me trazido esse marido americano (que, segundo uma amiga, nem passaporte precisa para se saber que é americano 🙂 ) e ter visto cair por terra muito dos meus pré-conceitos sobre a América e sobre os americanos. O meu inglês britânico, cultivado com tanto esforço e esmero, logo mesclou o sotaque americano e, hoje em dia, já nem mais sei que tipo de inglês que falo. Para quem ensinou inglês durante muito tempo, isso poderia ser uma ‘questão’, mas não é, e eu não estou nem aí. Eu explico: na academia ‘antenada’, não se fala mais em “English”. Fala-se sobre  “EnglishES”. Tem o inglês escocês, irlandês, americano, australiano, canadense, neozelandês, sul-africano, caribenho, etc. E muito mais: há o inglês falado na Índia, falado na China, na Koréia, na Argentina, etc. Na Inglaterra, Estados Unidos e outros países anglófanos, por conta das diversas diásporas, você escuta vários tipos de sotaques ao longo do dia. Hoje em dia, com o perdão da Rainha Elizabete II e do Professor Higgins (lembram do linguísta de My fair lady?), você tem que falar um inglês que seja compreensível pelo mundo afora e é conveniente que o teu ouvido também esteja aberto a sotaques bem diversos. A língua inglesa se mostra bem maleável, é claro. Aliás, uma das características mais interessantes da língua inglesa é a sua incrível maleabilidade e, portanto, sempre serviu muito bem ao império britânico e, agora, ao império americano, funcionando como um instrumento de domínio e de apropriação do “Outro”. Mas, por outro lado, é também um veículo que conecta, que constrói pontes (para usar uma metáfora bonita da Regina), que faz com que pessoas ‘diferentes’ se aproximem e que diminuam a ‘diferença’.

Esse post tá uma beleza, não? Viajei para Saturno, para a Inglaterra e França, contei um pouco sobre a minha família, quase me mudei, voltei para o Brasil, falei de bi-culturalidade e, finalmente, da língua inglesa. E estou sóbria. Imaginem só se não estivesse. Só pode ser o alinhamento de Saturno e Vênus. 🙂

Reflexões sobre a emergência do nacionalismo (continuação do post abaixo).

Junho 29, 2007

Interessante como uma idéia chama outra: o diálogo na blogosfera pode ser mais do que manter conexões (que só por si já justifica a existência de blogs), pode fazer com que reflitamos sobre assuntos. Este post foi suscitado pelo comentário da Alexandra no post abaixo: ela afirmou, mutatis mutandi, que o nacionalismo é uma invenção do século XIX. Ela está correta, ainda que, strictu senso, tenhamos que creditar o Iluminismo (XVIII) como seu grande impulsor. Mas, de fato, o sentimento nacionalista, tal qual hoje o concebemos, foi construído no período pós-iluminista, na sociedade pós-industrial oitocentista. O terreno estava mais do que propício, afinal, os resquícios do feudalismo haviam se desintegrado e a burguesia encontrava, cada vez mais, o seu lugar.

A ordem burguesa foi uma revolução sem precedentes: procurou reorganizar suas formas de pensamento e explicar a nova realidade. Período de muita efervescência em todos os segmentos sociais, foi quando a história, a geografia, a antropologia e outras disciplinas acadêmicas se profissionalizaram e proliferaram. Foi também quando a cartografia alcançou uma importância política sem precedentes para o conceito de nação, pois as demarcações territorais precisavam ser claras, específicas e, sobretudo, “nomeadas”. Foi quando a Europa precisou cada vez mais sistematizar conhecimentos e documentos sobre o “Outro”, dessa forma, demarcando a diferença, o “estranho”, o “incomum”, o “exótico”, — características que marcam o pensamento imperialista. Somemos a isso, a literatura produzida por romancistas, poetas, tradutores e viajantes e temos um corpus impressionante que irá pensar o “Outro”, afirmando, mais e mais, o “Nós”. Ou seja, a sistematização de conhecimento do “Outro”, além de proporcionar informações vitais para o domínio colonizador, por tabela, ajuda a criar a idéia do “Nós”. Definimos o “Outro” comparativamente e, nesse processo afirmamos a(s) nossa(s) identidades.

Na dinâmica Nós x “Outro” o nacionalismo é formado como uma ‘conseqüência natural’. Não é nenhuma coincidência que a maioria dos hinos nacionais são compostos no século XIX, com exceção de “God Save the Queen” (1745), “La Marsellaise” (1775) e “Marcha Real” (1770). É também na mesma esteira histórica que os símbolos da pátria (bandeiras, etc.) ‘aparecem’ e as imagens do “Outro” como ‘bárbaro’ ou ‘exótico’ proliferam na literatura e pintura. Tudo isso se põe a um serviço bem específico: firmar a identidade nacional. O nacionalismo surge na sociedade moderna como uma configuração de poder e não como simples e inócua necessidade histórica.

A imagem da mulher como alegoria da Pátria aparece com recorrência na literatura (é só lembrar de Iracema, a virgem dos lábios de mel que foi ‘violentada’ e abandonada pelo europeu) e na pintura. A mulher vai servir propósitos os mais diversos: reafirmar os valores da nação (a mulher é o símbolo da Revolução francesa), estabelecer a relação “Nós” versus “Outro”, entre outros. Deixo as imagens abaixo como prenúncio para outro post. 

Essa leitura européia da Pocahontas é impressionante. A Pocahontas mais parece uma vitoriana com olhos angelicais e pele alva (outra construção). Os estereótipos da índia estão somente presentes nos objetos e adornos.

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(Jone Johnson Lewis, final do século XIX)

Abaixo, um outro tipo de construção da mulher como alegoria: a escrava. Uma bela e dócil nativa africana, invariavelmente generosa, forte, sensual, fecunda (está com o filho, que, naturalmente, segura um papagaio) e convidativa. Notem também como a natureza, ao mesmo tempo ‘exótica’ e ‘domesticada’ parece corroborar o ‘convite’. (Obs. É minha leitura, ninguém precisa aceitá-la!)

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(Albert Eckhoust, séc. XIX)

[Eu me interesso muito sobre esses assuntos e leio bastante. Serve para as minhas pesquisas e também pessoalmente. Afinal, só consigo entender o ‘meu lugar’ quando me posiciono no mundo historica e culturalmente. Se alguém quiser sugestões de bibliografia, é só falar.]

O que é uma nação? Qu’est-ce qu’une nation? What is a nation? Qué es una nación? 什么是国家?

Junho 29, 2007

A Regina do Always-por-um-triz escreveu um post excelente sobre a condição ‘de exílio’. Ao meu ver, ela lida muito bem com sua situação de imigrante e se situa, em suas palavras, “como uma cidadã do mundo”. Quem dera as pessoas tivessem a consciência cultural da Regina. A grande maioria responde a conceitos muito arraigados no imaginário coletivo. E é esse debate que eu gostaria de levantar nesse post.

A palavra nação vem do latim natio que designava “uma comunidade local, um domicílio, uma família, uma condição de pertencer” (Bhabha 1990, p. 45, minha tradução). Logo, o conceito originial de nação estava intimamente ligada com a situação de nascer em uma comunidade ligada à um lugar. A idéia do “Estado-Nação”, i.e., uma entidade política, administrativa e legislativa, só veio mais tarde e foi, aos poucos, sendo assimilada e confundida com “nação”. A mistura da idéia da nação com a prática e poder do “Estado-nação” forma o nacionalismo, que vem a ser uma das forças mais poderosas na sociedade contemporânea. Acontece que o o nacionalismo é algo forjado por meio de invenções históricas arbitrárias; é, em outras palavras uma invenção social.

Franz Fanon foi um dos primeiros a teorizar sobre a questão do nacionalismo, que ele define como “um conjunto de esforços feitos pelo povo na esfera do pensamento para descrever, justificar e elogiar a ação pela qual aquele povo se criou e se mantém em existência” (in: Ashcroft, 2001, p. 151, minha tradução). Até aí tudo bem, mas o próprio Fanon, no mesmo artigo, já adverte sobre os perigos dessa consciência nacional, ao dizer que o nacionalismo é apenas ‘uma concha vazia’, ou seja, simplesmente, uma ‘bela’ palavra oca. Como diz Bhabha, o “nacionalismo não é o despertar das nações para uma auto-consciência: ele inventa nações que não existem” (1990, p. 45, minha tradução).

Um outro termo, cunhado por Benedict Andersen, freqüentemente utilizado para designar a nação no discurso pós-colonialista é o de “comunidades imaginadas” (1986, p. 15). Particularmente, eu gosto bastante dessa expressão; ela denota a artificialidade da idéia da nação, como ela é inventada e imaginada a partir de um caráter artificial de coesão étnica, cultural e territorial.

Esses dias, a Raquel  fez uma pergunta bem interessante: o que é “literature without maps”? São textos que tentam desconstruir as fronteiras artificiais do mapa, que articulam e parodiam estilos diferentes, que brincam com as polaridades “Império x Colônia”,  “Nós x o Outro”, “Centro x Margem”.  É um tipo de literatura que resiste ao rótulo artificial  e simplista de “brasileira”, “americana”, “australiana”. Encontramos esses textos em países que passaram pelo processo de colonização ou em países onde há várias diásporas, como os Estados Unidos e alguns países da Europa. Lembremos que, no período colonial, a literatura foi um dos veículos mais apropriados para a difusão dos ideais que precisavam ser alicerçados na nação em construção. No Brasil, por exemplo, esse tipo de literatura é conhecido como “nacionalista” ou “narrativa da nação”. Romances como Iracema, O Guarani, entre outros, são paradigmáticos dessa fase. Com o passar do tempo, a própria literatura das ex-colônias européias reconhece que nunca conseguiria desvincular-se totalmente do colonizador. Esse período de aceitação e reconhecimento é que produz uma literatura muito mais fecunda e rica. Vemos essa preocupação com o axioma do movimento modernista brasileiro “Tupy, or not tupy”. A questão da literatura sem mapa (ou da literatura pós-colonialista) é essa: é o “to be”, mas também é o “not to be”.  É as duas coisas. É a soma da voz do Império, que afinal, jamais poderá ser apagada, à “nova” voz, adquirida, meio aos trancos e barrancos, na nova terra. A literatura encontra novos rumos e recupera a sua força.

É por isso que eu curto esse discurso ambivalente. A arte, ao aceitar a sua condição de “entre-lugar”, se renova e revigora, sem se reduzir às muletas dos modelos eurocêntricos. É pelo mesmo motivo que eu curto escutar “world music” (música do mundo), que segue exatamente o mesmo princípio da “literature without map” — mesclandando sons, ritmos, instrumentos e mesmo língua diferentes.

As representações que perpassam os nosso cotidianos inventam o nosso mundo e forjam o nosso olhar. A nação é inventada. A própria história oficial é inventada (e re-inventada). A mulher, nossa, essa é uma invenção poderosa e muito perigosa. A ideologia utiliza imagens, signos, textos, símbolos, valores, crenças, filmes, etc. que ‘naturalizam’ conceitos. Todos somos vítimas dessas invenções. No entanto, confio no espaço crítico que podemos cultivar em nós mesmos. Acredito, também, que ler, refletir, questionar e falar sobre o assunto ajuda a criar um espaço de resistência.

Há muitas ramificações interessantes para esse debate.  Esse post é apenas um amuse-bouche, como diriam os franceses.

O que é uma nação? É um contorno de lápis desenhado num papel avida e rapidamente,  vez por outra apagado e reconfigurado. É um hino composto laboriosamente por alguém. É um gol de futebol. É um aplauso e um grito abafado. É um samba enredo do carnaval passado. É um sonho sonhado por outra pessoa. É só isso e mais nada.

E é por isso que se mata e que se morre.

world-map-ptolomeu.png

artelius-world-map.png

Mapas: Ambos encontrei na wikipedia. O primeiro é uma releitura da visão de Ptolomeu de 150. O segundo é de Artelius, c. 1570. A comparação de mapas de épocas diferentes comprova como os territórios sempre foram vistos de forma arbitrária.  

Referências bibliográficas:

ANDERSEN, Benedict . Imagined communities. Reflections on the origins and spread of nationalism. Norfolk: Verson Editions, 1986.

ASHCROFT, Bill (ed.). The post-colonial studies reader. London: Routledge, 2001.  

BHABHA. Homi. Nation and narration.  London: Routledge, 1990.

Cansaço II

Junho 26, 2007

Ando tão cansada que nem consigo descrever o meu cansaço. Já comecei a escrever sobre mil coisas, ensaiei um post sobre a Paris Hilton e outro sobre a imagem da mulher. Não sai nada. Estou numa fase de irritação com “Lost”, e chegando a conclusão que são todos paranóicos naquela ilha. E não me sinto nem um pouquinho mal em falar que fiquei super satisfeita com a morte da chatérrima da Ana Lucia. Isso é o máximo de “justiça” que pretendo encontrar nesse seriado. Para a poesia não há nem lugar, nem efeito na ilha. No entanto, receio que tenha que resignar-me a assistir o resto desse seriado, já que eu é que incentivei meu marido e filhas a assistirem comigo… O meu refúgio é o maravilhoso romance de Ian McEwan, Atonement, que, inclusive, já foi traduzido para o português como Reparação (Companhia das Letras). A boa literatura, fiel escudeira, nunca me deixa na mão.

Outra coisa, detesto a sensação que os posts desse blog possam gravitar somente em torno do meu umbigo e que eu não tenha nenhum assunto de ‘utilidade pública’ para discutir. O último post legal que eu escrevi foi, se não me falha a memória, sobre a visita do Papa ao Brasil. Tenho tanto para falar e, provavelmente, para contribuir ao importante debate sobre a imagem da mulher, que é, para quem possa interessar, o assunto da minha tese. Mas, no momento, desculpem-me, meus cinco caros leitores, a dona desse blog está cansada, muy cansada. Tão cansada, que recorre às palavras do poeta (vide post abaixo) para falar do próprio cansaço. Sorry.

My kingdom for a sunny beach…

tired-woman.png

Meu cansaço via Álvaro de Campos.

Junho 26, 2007

O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
 
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
 
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
 
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
(Álvaro de Campos)

E por falar em justiça poética…

Junho 25, 2007

Se, por um lado, a ficção às vezes me frustra (vide post anterior), a realidade, desta vez, me mostrou que existe justiça poética: fui formalmente convidada para dar aulas no Mestrado de Teoria Literária (daí o ‘poética)!! Fico muito feliz, obviamente. Mostra que eu estou tendo um reconhecimento por todo o meu esforço. Para ser bem franca, jamais pensei que fosse chegar a dar aulas no mestrado, ainda que secretamente alimentasse essa esperança. O interessante é que vou integrar uma equipe de professoras feríssimas, as mesmas que me deram aulas quando eu era aluna do mestrado e a quem eu admirava (e temia) muitíssimo! Duas delas foram da minha banca do doutorado e gostaram muito do trabalho que fiz na tese, então vejo que a escolha para a banca foi providencial. De que outra maneira elas teriam lido a minha tese? Ninguém lê tese de doutorado à toa. Enfim, eu mal consigo acreditar, mas é verdade.

Lembram do pedido dos dedos cruzados? Pois era isso. Mil obrigadas!! 🙂

yes.pngHitch your wagon to a star. (Ralph Waldo Emerson)

[Momento pensamento do dia Paul Rabbit (Paulo Coelho): Cuidado com os teus desejos secretos, eles podem se realizar] 

Notícias de “Lost”.

Junho 24, 2007

Aviso: Se você não assistiu “Lost” e pretende assistir, melhor não ler!

Quase acabamos de assistir a Segunda Temporada. 

Eu realmente não entendi o porquê de matar a Shannon. Ora bolas, ela era uma patricinha reformada, uma personagem com grande potencialidade e, ainda por cima, estava tendo um romance lindo com Saiid. Fiquei desolada.  Pô, cadê o respeito com a justiça poética?? O que vai ser do pobre do Saiid (que eu acho um charme)?

Fora isso, tô ficando um pouco cansada do mistério dos “Outros”: acho que agora começou a enrolar um pouco. Outra coisa, o Jack é um personagem ‘too good to be true’ (bom demais para ser verdade): além de nunca dormir, o cara faz tudo para todos. Está em todos os lugares ao mesmo tempo, é o típico “bom moço”. Estou aguardando algum deslize que o deixe mais humano.

Aqui em casa, estamos todos irritadíssimos com as caras exageradas de bandida mexicana da Ana Lucia. E o Sawyer, apesar de engraçado, também é um tanto quanto caricato, né? E quando que a Kate irá se decidir entre o Sawyer e o Jack?? Gente, como é que esse pessoal não se cansa de subir montanhas, abrir trilhas na mata, caçar, encontrar e fazer comida, lutar, etc.?  

É bom esse “Lost” começar a me dar algumas respostas, senão eu acabo explodindo essa ilha e volto para as minhas leituras! Ah, é verdade, falta o Rodrigo Santoro entrar em cena e é claro que eu estou curiosa. Espero que a minha curiosidade compense! Vamos ver.

Lost in “Lost”

Junho 21, 2007

Confesso, acabei sucumbindo, ainda que com um pé atrás: estou grudada na TV assistindo “Lost”.

Embora eu continue achando que “Six Feet Under” seja bem melhor, “Lost” é um seriado muito bem arquitetado. Obviamente não é nenhuma obra-prima, mas mantém a atenção em todos os momentos e consegue deixar o telespectador curioso para o próximo episódio. Ontem acabamos de assistir a primeira temporada e hoje começamos a segunda. 

Fico pensando no que reside o appeal de “Lost”. Além de interpretações bem convincentes, há a irresistível idéia de que o destino faz sentido, até mesmo quando um acidente de avião deixa um bando de sobreviventes que parecem ter sido pré-determinados, por uma ordem maior, a ficar na ilha para aprender mais sobre si próprios. Até agora deu para conhecer melhor alguns dos personagens e, por meio dos flashbacks, vemos que nenhum deles teve um passado, digamos, “light”. De uma maneira ou de outra, cada um está lá para dar conta de algo que fez no passado. Junto com a questão do destino, há outras paralelas que vão se complementando. A capacidade que o ser humano tem de aprender e se adaptar a situações jamais pensadas fica evidente desde o início. Os mais fracos vão logo perecendo e a lei darwiniana impera. Ao longo dos episódios, os personagens vão criando feições mais interessantes e as relações entre eles vão ficando mais complexas.  No final das contas, todos nós gostamos de escutar as mesmas histórias. Com pequenas variações.

lost.png

O mistério da ilha é obviamente parte do suspense e algumas coisas me soam bem forçadas, mas tudo bem. Vou tentar levar como um entretenimento leve e não ficar interpretando tudo (será que dá?). É verdade que eu sou super crítica e que é muito difícil não ser, com tanto trash movie por aí.  Aliás, hoje saiu a lista dos 100 melhores filmes de todos os tempos do American Film Institute e o que salta aos olhos é a ausência de bons filmes na atualidade. Estamos, definitivamente, num período de estiagem no cinema. Incrível, com tantos recursos e possibilidades, pensaria-se que o cinema fosse se enriquecer. Mas em tempos de pobreza d’alma, podemos esperar o quê?

Por isso mesmo, enquanto não há nada fantástico no cinema, o melhor talvez seja se perder pelas trilhas tortuosas da ilha de “Lost” e dar crédito à criatividade dos diretores, que, pelo menos, são competentes o suficiente para manter o nível de suspense vivo. Pelo que eu leio por aí, parece que a trama ganha mais densidade. Então, ótimo. Já que eu não posso curtir a incomparável vitalidade do teatro inglês que eu tanto amo, tudo o que espero no momento são algumas horas de um seriado inócuo na TV.

A vida é muito, mas muito engraçada…

Junho 16, 2007

E eu não vou contar agora o que aconteceu. Desculpem, mas noblesse oblige. Só peço para que fiquem de dedos cruzados por mim e depois eu conto tudinho. Se realmente der certo, eu vou acreditar que justiça existe. E, como já aconteceu na minha vida mil vezes, vou confirmar o quanto a vida é, de fato, irônica.

Já pensei muito sobre o poema abaixo do Robert Frost. A vida é uma sucessão de escolhas e eu, invariavelmente, escolhia “the road less travelled by” [o caminho menos viajado]. Se algum dia, por ingenuidade, imaturidade ou vaidade, me esqueci da responsabilidade das minhas escolhas, a vida logo se encarregou de me mostrar que, para cada ação, há sempre uma reação. E, como o sábio poeta lembra, “that has made all the difference” [isso faz/fez toda a diferença].

 two-roads-diverged.png

“The road not taken” (Robert Frost) 

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth.

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same.

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I–
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Bom fim de semana!

Crédito: A foto acima vem daqui e ilustra a última estrofe do poema.

Um fiasco, um sonho e um poema.

Junho 14, 2007

Eu ando su-per cansada. Um de nossos amigos é psiquiatra e ele disse que é muito natural para depois de um período de trabalho duro, noites mal dormidas, muito stress e ansiedade. Na realidade, ao longo de 4 anos do meu doutorado, tive algumas folgas, mas nada ideal. Então, muito provavelmente, estou passando por um período de estafa, uma espécie de ressaca psicológica. Ocorre que a vida continua e é óbvio que eu não tenho tido tempo para descansar. Logo depois da defesa, fui ao congresso. Mal cheguei, me falaram que eu tinha que entregar o novo projeto de pesquisa para o dia seguinte e eu varei a noite e o dia trabalhando em cima do projeto. As meninas cobram a minha atenção com toda razão, afinal eu não tenho a super desculpa que eu antes tinha. A minha filha mais velha, por conta desse clima louco, pegou uma virose e a levei duas vezes ao médico. A mais nova tem que ir ao dentista. Eu tenho que ir ao dentista e ao médico. Meu marido vai fazer um check-up (por ordem da esposa!).  Na universidade, junho é a correria do final de semestre e, como sempre, os alunos que folgaram o semestre inteiro, agora não me dão folga. Fora isso, orientandos, provas bimestrais, provas finais, provas de 2a chamada. Quem passa, quem reprova. Às vezes as decisões não são tão fáceis: elas podem efetivamente mudar a vida de um aluno. Apesar de eu ter um senso de justiça extremamente acirrado, nunca senti prazer em reprovar ninguém. Mas, força da profissão, reprovo.

O fiasco. Ontem aconteceu algo estranho: eu fui convidada para dar uma palestra em um Café Literário (super charmoso, aliás) e a minha apresentação foi um fiasco (sem brincadeira!). Hesitei, tropecei nas palavras, não articulei bem as idéias, foi o ‘seguinte’… Fiquei com a maior vergonha de mim. O pessoal que assistiu a palestra deve ter me achado uma incompetente, com toda razão. O interessante é que eu estava pressentindo mesmo que não ia ser legal: a apresentação que eu fiz no powerpoint ao invés de ajudar piorou. Enfim, nada deu certo… 😦 

O sonho. Sabem qual é o meu sonho de consumo para julho? Uma praia linda, com muitos coqueiros e pouca gente, sol, céus azuis e estrelados. Areia branca e macia, uma brisa gostosa. Muitas caminhadas e alguns mergulhos. Leituras e comidinhas. O calor, o sorriso e o “bom feeling“, como diz a maravilhosa cantora portuguesa de raízes caboverdianas Sara Tavares, de estar no norte do Brasil (juro, lá é outro planeta para mim!).  Na realidade, a Bahia seria um lugar perfeito, mas tenho muito medo de pegar chuva em julho (já aconteceu).

Se tiver 3 minutinhos, não deixe de escutar “Bom Feeling” aqui (é do excelente álbum “Balancê”).

 bahia_sonho.png

O poema:  

“Vou-me embora pra Pasárgada”

(Manuel Bandeira)

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar

– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Em tempo: o Manuel Bandeira é simplesmente tudo, não?