Sobre congressos, textos e viagens.

Junho 9, 2007

Sou uma caseira incurável. Ou quase. Adoro ficar na minha casa e me prendo com mil coisinhas e afazeres domésticos. Além disso, quase sempre fico um pouco ansiosa antes de viajar; porém, quando saio ou viajo com a família ou sózinha, exponho a minha cara no mundo fora do meu cantinho e sempre volto energizada. 

Mas queria falar um pouco do congresso que eu fui, ou melhor, da experiência curiosa, interessante e, invariavelmente, enriquecedora que é a de ir a esses eventos. Um congresso é, a rigor, um acontecimento de cunho científico (tendo em vista que ciência vem do latim scientia que significa conhecimento) que proporciona o encontro, a troca e a disseminação de conhecimentos de pessoas que trabalham na mesma área que a tua.  Congressos internacionais são, naturalmente, os mais interessantes pois você pode ter uma visão mais abrangente do que o pessoal anda fazendo em outros cantos do nosso mundo, de pontos de vista ‘diferentes’ sobre o mesmo assunto. E, para mim, o que me f.a.s.c.i.n.a. (paradodiando o grifo da Maharani) absolutamente na literatura é isso: verificar como textos (e aqui, entendam-se textos na sua acepção mais ampla: o escrito e o visual, em suas diversas formas) são espelhos do mundo e, sob essa condição, são visitados, revisitados, explorados, mas jamais, vale repetir em itálico, jamais, dominados.

E é esse justamente essa recusa à dominação que me prende aos textos que eu estudo e ensino. Pois são a partir de novas perspectivas, ou de leituras ‘diferentes’, que re-avalio as maneiras pelas quais eu os lia e, feito uma novata (mas não exatamente), volto ao início, vendo tudo de novo, “como se fosse” a primeira vez. É por isso que tenho a plena convicção que a literatura me deixa uma pessoa mais humilde.

Mas não é todo o texto que tem esse poder de renovação: alguns se rendem com demasiada facilidade e, tão logo o leitor os tenham deixado de lado, são esquecidos. O bom texto tem uma longevidade e uma plasticidade impressionantes. Para aqueles profissionais que gostam de se atualizar (convenhamos, não são todos), a crítica literária prova e comprova a força inesgotável da literatura. Tá bom, estou generalizando, pois a crítica literária gosta mais ainda é de provar a sua própria força e erudição, em detrimento dos pobres textos. Mas a boa crítica literária é boa e, definitivamente, vale o investimento do dinheiro e do tempo de leitura e estudo. Acontece que num congresso de grande projeção, tudo rola em real time! E esse tudo quer dizer muitas coisas interessantes rolando ao mesmo tempo. E a minha cabecinha curiosa fica vertiginosa: quero assistir todos os keynote speakers, quero participar da maioria dos simpósios, quero fazer perguntas e, quando não consigo, levo para casa as minhas questões e fico matutando. Fora isso, que é, vale ressaltar, o mais importante aspecto do evento, tenho que apresentar e participar da minha mesa-redonda, tenho que participar das reuniões do centro de estudos do qual sou membro e do grupo de pesquisa que integro. Na realidade, até que gosto das reuniões porque são as únicas reuniões que efetivamente funcionam rapida e eficazmente, visto que ninguém quer perder tempo. E, também, adoro a mulherada (desculpem-me os homens, mas a mulherada da minha área é, geralmente, mais interessante) dos grupos, são divertidas, espirituosas, rápidas, super trabalhadoras, descoladas, feras. Algumas, é verdade, são obcecadas por trabalho. Talvez só tenham o trabalho como razão de viver. Sei lá, talvez os textos sejam bem melhores que muita gente por aí. O interessante é que na área dos estudos literários, como imagino que aconteça em várias outras, quanto mais velho você é, melhor você fica, de forma que as minhas colegas mais velhas estavam kicking young butts (dando de dez a zero nas mais jovens). Então, ainda tenho uma longa jornada pela frente.

Mas, enfim, digam-me, como posso conciliar um programa tão diverso que envolveu, entre muitas outras coisas: Asian Canadian literature, interart studies, Chicana feminism, hypertext, information overload and literature, gender studies, feminist criticism, Emily Dickinson, African-American poetry, homo-erotic texts, literatures without maps, challenges in teaching Shakespeare, the body of the mother and the writer, strategies of resistance in African lit, the meme theory and Shakespeare, crossdressing in Shakespeare, silence as gendered discourse, etc, etc.?  Como dá para notar com apenas esses exemplos, o cardápio de assuntos foi tão muito interessante quanto diverso. E eu, igual ao que acontece quando vou a um restaurante com um cardápio muito variado, fico meio baratinada…

Fora isso, a parte social do congresso é outro destaque: encontrar os colegas de outros estados,  fazer novos amigos nos coffee breaks e cocktails, trocar idéias com o pessoal de fora. Cafés da manhã, almoços, jantares e mil papos. Chegava no quarto do hotel exausta, mas, ainda assim, demorava para desligar, pensando em tudo o que eu tinha escutado, nas idéias que tive, em quantos livros eu tenho que ler, nas novas frentes de trabalho, no que tenho ainda que descobrir e na jornada do dia seguinte.      

Mas, subitamente, tudo acaba e eu, partindo cansada, porém satisfeita do simpático aeroporto de Pampulha, e, com uma sorte danada no caos de um feriado de Corpus Christi no Aeroporto de Congonhas, consigo voltar ilesa para casa e ser recebida com três rosas (o pessoal aqui de casa é sábio!), muitos abraços e beijos no frio aeroporto Afonso Pena — testemunho de minhas muitas partidas e chegadas. A casa está igual, porém senti que as minhas flores, ressentiram-se um pouco com minha ausência; com exceção das lavandas, que, obviamente, encheram-se de pequenos rebentos azulados. Adoráveis.

Enfim, tudo isso para dizer que voltei. Que voltei um pouquinho diferente, é claro. Porque cada viagem legal que você faz deve acrescentar um tanto e, se acrescenta, é porque você já não é, a rigor, o que você era há uma semana. Por analogia, o mesmo aconte com um bom livro. Porque bons livros proporcionam boas viagens. Para aqueles que curtem visitar o mesmo (bom) livro, muitas vezes, as ‘viagens’ serão múltiplas e, progressivamente, mais interessantes. Et voilà.   

Imagem: Woman Reading (Matisse)

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15 Respostas to “Sobre congressos, textos e viagens.”

  1. Gi Says:

    Ocupada por uma boa causa. Deve ser ótimo viajar assim, ir a congressos. Senti falta dos seus posts! 😉

  2. cris s Says:

    Gi,
    Sim, esse congresso foi bem proveitoso e me deu muito prazer. Mas nem todos são assim, esse era internacional e o mais badalado na minha área. 🙂
    Já fui te dar um oi lá no blog! Vc está bem ativa (bloguisticamente falando!) né?
    bjs

  3. Gi Says:

    Ativa só no blog mesmo. Isso é perigoso. Mas não me toma muito tempo; eu faço rapidinho. É que a fase vida que está meio “lesma Lucia já vou indo”. ;-((

    Comigo às vezes é muita infos de uma vez, mas gosto de escrever textos mais longos, bem acabados. É que não resisto a uma ironia, uma piadinha sobre algum filme, ou um comentário mais, digamos, light.. ;-))) Bises!

  4. Raquel Says:

    Cris,

    deve ter sido ó-t-i-m-o mesmo! Mas o que é litteratures without maps? É uma literatura sem localização, cuja ação pode ocorrer em qualquer lugar do mundo?

    Gi,

    eu li “Lúcia já vou indo”!

    Bjs bjs

  5. cris s Says:

    Gi,
    Pelo menos está ativa no blog! E a fase lesma passa logo!! Fico pensando que o Rio deve estar numa fase muito convidativa para umas caminhadas. O clima perfeito, não? Talvez a gente passe uns dias aí em julho!!

    Raquel,

    “Literature without maps” é a literatura que desafia / questiona / desconstrói a idéia da nação como território geográfico e rompe as fronteiras, sendo multicultural, híbrida. A idéia é muito legal. Por exemplo, as diásporas da Argélia na França, as diásporas do Irã na Inglaterra, etc. São textos que encontram voz num “espaço intermediário” ou em “espaços intermediários”. Acho que o “Monsieur Caloshe” que vc leu pode servir de exemplo, pois ele conjuga dois territórios: a Austrália e a Inglaterra (com a paródia dos contos natalinos do Dickens).

    Bjs para as duas e bom começo de semana (eu detesto segundas….)

  6. Gi Says:

    Muito bom esse livro! Coitada da minha mãe que tinha de repetir toda santa noite. Acho que eu tinha uma leve espereança que a lagarta chegasse a uma festa mais ou menos na hora. ;-))

  7. Raquel Says:

    Pôxa, então eu já li “literature without maps” e não sabia!
    É por isso que eu gosto do seu blog, sempre aprendo taaaanto!
    Bjs

  8. cris s Says:

    Gi,
    Não li o “Lúcia já vou indo”! E nem li p/ as meninas… que pena!!

    Raquel,
    C/ certeza deve ter lido vários textos híbridos que dissolvem as fronteiras geográficas. Me ocorreu… vc gosta do Kazuo Ishiguro? Não
    é o melhor exemplo, mas é um romancista /contista fan-tás-ti-co. Vc deve ter visto o filme “Vestígios do Dia” (Remains of the day) baseado no romance homônimo. Ele tem uma elegância, digamos, mais do que britânica na narrativa, que é pontuada de silêncios. Ele traz um pouco da tradição japonesa p/ a literatura inglesa. Mas o Michael Ondatjee é melhor exemplo desse hibridismo.
    bjcas,
    Cris

  9. Raquel Says:

    Vi o filme sim, mas nunca li o livro.

    O Michael Ondaatje eu conheço, eu li “O Doente Inglês”.

    O Tahar Ben Jelloun também faz parte do grupo? Eu gosto do que ele escreve.

    Bjs

  10. elisa Says:

    Que experiência fantástica deve ter sido! Literatura é um tema que sempre me interessou muito e ler o seu post deu-me vontade de saber mais, de ler mais…
    Posso perguntar o que acha de Haruki Murakami?
    Beijinhos

  11. cris s Says:

    Raquel,
    Eu amo o livro de paixão; só que o título é “O Paciente Inglês” que está na minha lista dos melhores filmes. Lembre do enredo e veja como ele se encaixa perfeitamente na noção de “lit. without maps”. Putz, ótima lembrança. Dá vontade de ler de novo. A propósito, estou lendo um livro ótimo. Acho q logo faço um post sobre o assunto.

    Quem é o Tahar Ben Jelloun???? Fiquei curiosíssima, claro ;-)))

    bjkas

  12. cris s Says:

    Oi Elisa!!
    Que bom que vc gostou do post! Eu também amo ler e voltei a ler por prazer agora (depois da correria).
    Estou louca para ler o Haruki Murakami, que ainda não conheço mas já ouvi muito. Quero ler o “Crônica do cavalo de corda” (acho que é esse o título.) O que vc recomenda? Acho que vou encomendar da amazon.com

    bjs,
    Cris

  13. Raquel Says:

    Isso, isso, “O Paciente Inglês”. Sei lá porque fui escrever o “doente”. :p

    O Tahar Ben Jelloun é um escritor marroquino que vive na França há mais de 30 anos e escreve em francês. Ele fala muito sobre transitar entre duas línguas e duas culturas, escreveu um penca de livros, inclusive “Racismo Explicado a Minha Filha”.

    Ele tem um site bacaninha e coloquei também um link legal para uma entrevista dele quando esteve por aqui da última vez.

    Bjs

    http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=281&Artigo_ID=4361&IDCategoria=4969&reftype=2

    http://www.taharbenjelloun.org/

  14. elisa Says:

    Bem, ando um pouco sôfrega a “consumir” tudo o que encontro dele. São enredos e uma escrita que acho muito diferente de tudo o que já li (bom…a minha bagagem literária também não é assim tão vasta;))
    Estou a ler ” À procura do carneiro selvagem” mas já vi que não é dos meus preferidos. Gostei muito dos contos de “Depois do terramoto” mas o meu preferido é, sem dúvida, “o fim dos tempos” (acho que o título em português é este).
    Um beijinho para si e mime-se: tire uns dias de férias:)!

  15. Regina Says:

    Cris,

    Esse congresso parece ter sido incrivel. E’ tao estimulante estar trocando ideias com tanta gente interessante.

    Bjs.

    Regina


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