Só pode ser o alinhamento de Saturno e Vênus…

Junho 30, 2007

Atualização: Se você estiver passando por aqui hoje, domingo, corra para fora e tente ver Saturno e Vênus, eles estão começando a se afastar, mas ainda estão próximos!! Lembrem, a próxima vez será só em 2019…

Acabo de ver, a olho nú, e também no telescópio, um fenômeno que somente se repetirá em 12 anos: Saturno e Vênus alinhados, visualmente bem “próximos”. Meu marido, entusiasmado com a súbita clemência do céu pouco generoso desse nosso canto do hemisfério sul, está se deliciando com suas fotos. Esse belo fenômeno que vemos aqui nesse instante, pode ser visto por todos, em qualquer lugar do mundo. Saturno é o mesmo Saturno aqui e no Afeganistão. Vênus é o mesmo Vênus aqui e na China.

Isso me leva a continuar a refletir sobre a questão da nação, de “pertencer” e da língua materna. Desde criança eu tenho fascínio pela língua inglesa e um dos meus sonhos foi realizados quando eu fui morar na Inglaterra com 18 anos. Acabou que, desde então, a minha vida foi pautada por idas e vindas, embora tenha tido várias intervalos mais longos por aqui. Não satisfeita com os anos que morei na Inglaterra e com o meu conhecimento da língua inglesa, morei também na França. Aliás, nunca fiquei satisfeita, nem com o meu conhecimento de francês ou de inglês, nem com as minhas idas e vindas. Essa coisa de ‘pertencer’ a um lugar é realmente um pouco complexa para mim. Por pouco não me mudo do Brasil em três ocasiões diferentes. A última vez foi o meu marido que achou que deveríamos, por diversos motivos, ficar por aqui. Eu não sei se posso me chamar de “cidadã do mundo”, talvez por não ter me mudado do meu país, mas também não sou muito nacionalista. Amo chorinho e bossa nova. Mas também gosto de salsa, fado, blues e muitos outros tipos de música. 

A minha casa é uma casa bilíngue e eu, minhas filhas e meu marido (americano), somos “bilíngues” nos nossos costumes domésticos: conjugamos o “aqui” e o “lá” e criamos o nosso espaço bi-cultural, talvez um pouquinho multi-cultural. Ajuda muito o fato de meu marido ter morado na Europa muito tempo. Ele é muito aberto à diferenças culturais: recebe, assimila e/ou rejeita o que quer e eu aprecio e valorizo o espaço que construimos.  

Acho que a vida nos traz muitas surpresas e ironias — uma delas foi ter me trazido esse marido americano (que, segundo uma amiga, nem passaporte precisa para se saber que é americano 🙂 ) e ter visto cair por terra muito dos meus pré-conceitos sobre a América e sobre os americanos. O meu inglês britânico, cultivado com tanto esforço e esmero, logo mesclou o sotaque americano e, hoje em dia, já nem mais sei que tipo de inglês que falo. Para quem ensinou inglês durante muito tempo, isso poderia ser uma ‘questão’, mas não é, e eu não estou nem aí. Eu explico: na academia ‘antenada’, não se fala mais em “English”. Fala-se sobre  “EnglishES”. Tem o inglês escocês, irlandês, americano, australiano, canadense, neozelandês, sul-africano, caribenho, etc. E muito mais: há o inglês falado na Índia, falado na China, na Koréia, na Argentina, etc. Na Inglaterra, Estados Unidos e outros países anglófanos, por conta das diversas diásporas, você escuta vários tipos de sotaques ao longo do dia. Hoje em dia, com o perdão da Rainha Elizabete II e do Professor Higgins (lembram do linguísta de My fair lady?), você tem que falar um inglês que seja compreensível pelo mundo afora e é conveniente que o teu ouvido também esteja aberto a sotaques bem diversos. A língua inglesa se mostra bem maleável, é claro. Aliás, uma das características mais interessantes da língua inglesa é a sua incrível maleabilidade e, portanto, sempre serviu muito bem ao império britânico e, agora, ao império americano, funcionando como um instrumento de domínio e de apropriação do “Outro”. Mas, por outro lado, é também um veículo que conecta, que constrói pontes (para usar uma metáfora bonita da Regina), que faz com que pessoas ‘diferentes’ se aproximem e que diminuam a ‘diferença’.

Esse post tá uma beleza, não? Viajei para Saturno, para a Inglaterra e França, contei um pouco sobre a minha família, quase me mudei, voltei para o Brasil, falei de bi-culturalidade e, finalmente, da língua inglesa. E estou sóbria. Imaginem só se não estivesse. Só pode ser o alinhamento de Saturno e Vênus. 🙂

20 Respostas to “Só pode ser o alinhamento de Saturno e Vênus…”

  1. Gi Says:

    Cris, adorei o post! 😉

    Júpiter realmente representa o estrangeiro. Eu tenho a oportunidade de ver as estrelas e todos os planetas a olho nu (até Saturno, claro) e Deus resolveu me pregar uma hoje, ou melhor, agora: o céu está quase todo encoberto e eu só vejo a Lua cheia. Tenho luneta aqui e binóculo mas não gosto muito. Mas não é só Vênus e Saturno que vão “se alinhar”? Não sabia que Júpiter entrava na dança. Entre aspas porque na verdade “dá essa impressão visto da Terra”.

    Muito triste eu não poder ver; isso é um sinal para minha mente melancólica: ou o Rio é uma coisa tão nublada na minha vida e me prende, e não me deixa ir ou sei lá.. Júpiter atualmente transita na minha casa 4 (lar, família, país natal) e está, por retrogradação (ele está dando a idéia de andar pra trás, está retrógrado) em oposição a Vênus natal de casa 9 (estrangeiro). Ou eu desisto e me acostumo porque “Deus não quer” ou.. sei lá.

    ;-0

    ps: sorte sua ter conseguido sair do Brasil aos 18 anos. 😉 Eu ainda tive de amargar muita coisa… Tenho vocação pra mártir, quase tudo dá errado na minha vida e acabei entregando pro destino; livre-arbítrio só serve pra causar arrependimentos.

  2. cris s Says:

    Gi,

    O Rio está apenas hoje nebulado, assim como o céu que quase sempre é nebulado aqui, hoje está estrelado. Não é nada mais do que isso. 😉 E você hoje está melancólica, mas amanhã não estará.

    Acho difícil resolver o paradoxo destino x livre arbítrio, mas tenho uma certeza: que a gente não deve deixar as oportunidades passarem. O destino se encarrega de muito, mas é a gente que faz acontecer. Não fique nessa de mártir, tá? Você já me contou mil coisas legais da tua vida, pense nessas coisas. :-)) Nem todos conseguiram o que você conseguiu e o que vc pode conseguir.

    beijocas e durma bem

  3. cris s Says:

    Gi,
    Obrigada, já corrigi a mancada! É Saturno e não Júpiter. Aliás, não sei porque, mas sempre troco o nome desses dois planetas. Senilidade, alguns diriam…
    beijos

  4. Edelize Says:

    Nossa, adorei estes últimos posts! Sabe, neste assunto de nacionalismo, eu sou/estou sem nação. Acho que quando a gente viaja, ou mora fora da terra natal, a gente (ou pelo menos alguns) quebra algumas barreiras, preconceitos, pré-conceitos. Eu passei a ver o Brasil com uns olhos que nunca tinha visto, me tornei mais crítica e também passei a valorizar mais a nossa cultura. Isto também se passou em relação à minha nova terra, e se um dia me mudar daqui, o mesmo acontecerá. Nesta onda global, acho que não há lugar para xenofobia, e sim para um processo de absorção do que outras culturas tem a nos oferecer de bom. Não há pelo que negar nossas origens, mas também não há pelo que ficar enraizadas nela. A definição de nação do post anterior é excelente, nada mais é que um risco num pedaço de papel.
    PS – Também fui fascinada pela língua inglesa desde pequena (até brincava que estava falando em inglês com as minhas bonecas). No fundo, tinha a sensação que um dia saíria do Brasil, e quando a oportunidade apareceu, não pensei duas vezes. Bem, cá estou no meio deste inglês com um sotaque de influência cockney que um dia me fez pensar se realmente o inglês era a língua oficial daqui 🙂

    Vixe, aqui está nublado, não vai dar para ver o alinhamento. Pra falar a verdade, Sydney este ano está bem parecidinha com Curita, fria e úmida.

    Beijocas.

  5. Raquel Says:

    O tempo está bem feinho por aqui, acho que vai ser difícil ver alguma coisa, mas vou tentar.

    Esta coisa de diferentes tipos de inglês me lembrou uma cena do “Gangues de Nova York”, quando os personagens não conseguem entender o inglês uns dos outros.

    Bjs

  6. Gi Says:

    Cris, vc é um “brinco”! Realmente é assim que me sinto: metade fazer as coisas acontecerem e metade o destinão implacável.

    Júpiter acabou valendo para o contexto do post. ;-))

  7. cris s Says:

    Edelize,
    É verdade: viajar e morar em outros países abre outras possibilidades de pensar e de sentir o mundo. Acho que a maioria deixa a xenofobia de lado, porém alguns a desenvolvem. É a questão dos guetos de muitas cidades (Paris, L.A., etc.) que, grosso modo, seriam outras organizações com sentimentos parecidos com os da nação. Acho legal a gente ser aberto a tudo e todos.
    Você também era apaixonada por inglês? Quando cheguei na Inglaterra, lembro que eu já comecei a sonhar em inglês!! (devia sonhar meio errado, mas tudo bem!) 🙂 O teu inglês deve ser super charmoso. Olha só que engraçado, no congresso que eu fui, um inglês c/ quem eu estava conversando, perguntou se eu era canandense!! Achei a coisa mais engraçada do mundo.
    beijocas

  8. cris s Says:

    Raquel,
    O dia está lindo aqui!! Vou andar no parque ao lado da minha casa. Não sei se hoje dá para ver ainda o alinhamento de S. e V. vou perguntar p/ o Bill.
    bjs

  9. cris s Says:

    Gi,

    Obrigada pelo ‘brinco’ (adoro essa expressão!). Acho que é por aí mesmo. As coisas que a gente pode fazer, tem mais é que meter a cara e fazer. O que não dá, não dá. Espera que se resolve, de uma maneira ou de outra. Eu já te falei que sou super impetuosa, né? Sempre meti a cara. Agora estou mais ‘acomodadinha’, só pode ser a idade, hehe. Com o tempo a gente aprende que tem que dar espaço p/ o tal do destino.
    O Bill acha engraçado eu confundir sempre Saturno com Júpiter, ele me acha meio ‘burrica’ p/ essas coisas. Sou mesmo.
    bjs e bom domingo.


  10. Oi Cris! Como eu não li seu post ontem, pois um poste caiu e toda a cidade ficou sem luz por um looooooongo tempo, então não pude ver esse alinhamento. Mas o céu estava lindo, lindo e a lua maravilhosa.
    Sobre o inglês, eu acho tão lindo o inglês britânico. Acho muito mais fácil de entender. Acho que pelo sotaque do interiorrrrrrrr de SP também tenho mais facilidade de falarrrrrrrr o britânico. Tem alguma coisa a ver?
    Beijos


  11. PS: Quem vê pensa que eu falo horrores de inglês… Eu só falo quando não existe outra saída ou qdo eu não consigo gesticular…..hahahaha
    Beijos

  12. Gi Says:

    Cris, infelizmente sofro de procrastinação, em parte por minha própria culpa, mas há uns 50% aí que envolvem outras coisas (parece desculpa mas não.. hehe); nunca tive muita energia física para coisas do dia-a-dia, coisas que eu não gosto e que todo ser humano é obrigado a fazer. Tudo me entedia facilmente, eu gasto energia sem sair do lugar e por isso também preciso sempre comer. Ahahah! ;-)) E por essas e outras também meu metabolismo é rápido. Meus amigos sempre riram disso, porque se eu saio durante muito tempo, é certo levar docinho, biscoito na bolsa. Perco energia assim só de “abrir o olho” quando acordo. ;-)) Sou movida a amor, emoções fortes. “When love goes wrong, nothing goes right…” ;-0 Sem isso minha vida é horrível – só na parte de leitura, de textos. Quando estou feliz, não escrevo, simplesmente vivo. Mas agora..
    Enfim, isso é pra eu aprender; estou encarando pelo lado bom. ;-0

    Acho que todo mundo deve fazer essa confusão, porque o planeta Júpiter (isso aprendi há pouco tempo), apesar de mais distante da Terra que Marte e Mercúrio, é o que mais brilha depois de Vênus. Quando você olhar para o céu, já anoitecendo, pode logo ver a “platinada”, daí é só ver aquele que não se parece com estrela e é esfuziante também e pronto: é Júpiter. Saturno não “pisca” muito e eu não o encontrei direito ainda. O “alinhamento” de ontem nem me serviria, porque ele não estaria no seu “lugar ranzinza” habitual. Não sou estudiosa disso.. Eu ento.. 😉

    Bises!

  13. Ana Lucia Says:

    Cris eu perdi o alinhamento de Vênus e Saturno e foi de boba porque da minha janela aqui onde eu escrevo eu sempre vejo Vênus…paciência 🙂 Qto ao inglês, a questao do sotaque é bem essa…fala-se inglês na Africa, na Australia, no Canada, o seu sotaque ou nao-sotaque é sempre em relaçao à um lingua inglesa…E quando se é brasileiro entao é impossivel evitar essa questao, o meu português do RS é diferente do português da novela da globo rodada no Rio, o francês que falo aqui é diferente do francês da França e dos varios franceses da Africa ocidental. Eu acho que ser cidadão do mundo é uma grande ilusão, e muitas vezes as pessoas usam esse termo pra dizerem que são viajadas, que vivem bem fora do país natal, mas viver no Brasil e nos EUA, é diferente de viver na Africa ou na China, o mundo ainda tem muitas fronteiras, infelizmente. Beijocas.

  14. cris s Says:

    Flá,
    Se você ler a tempo, corra lá fora e você vai ver o alinhamento ainda!!
    C/ relação ao inglês britânico, o ‘erre’ do interior de São Paulo favorece mais o inglês americano!!
    beijocas

  15. cris s Says:

    Gi,
    Eu às vezes tenho falta de energia, mas trabalho em cima, tendo não me abater. Ando cansada, como você sabe, e com o nível de energia muito baixo, mas tô aqui tentando… Eu ando dormindo bastante, e não consigo acordar cedo. Vc dorme bem?? Ajuda muito.

    Quanto à confusão, você foi generosa e gentil comigo… obrigada!!

    beijocas

  16. cris s Says:

    Ana,
    É lógico que é muito mais fácil falar que você é ‘cidadão do mundo” num país que te dê condições de se sentir como cidadão. Mas há também a idéia de que cidadão do mundo seja alguém que aceite o Outro e as coisas do Outro c/ mais humanidade. Aí o termo se amplia e pode ser aplicável.
    Quanto à lingua inglesa, é isso mesmo. É definível a partir da diferença. Aliás, acho que tudo é assim.
    beijos

  17. Gi Says:

    “Dormir é uma arte” – nome da comunidade no Orkut da qual faço parte. ;-)) Durmo bem sim, Cris, mas demoro a pegar no sono, porque à noite, de madrugada é que posso ler direito, me concentrar, e também vejo tv. O problema é que ultimamente tem acontecido uns desrespeitos e parece que a lei não está com o cidadão e sim com os ‘grandes’. Não é o poço de calma aqui, mas é bom. Não tenho do que reclamar tanto. O quarto da menina (que era o meu antigamente) é que fica virado para a chatice. É impressionante a mudança. O Rio éuma terra sem lei. Depois umas pessoas perguntam porque eu reclamo. Se tudo vai bem, sou justa, mas se pisam no meu calo, eu grito. e principalmente nesses assuntos de vizinho. ;-00

    Dormir é muito bom, recarrego todas as baterias!

  18. cris s Says:

    Gi,
    Dormir é ótimo, eu viro um monstro se não durmo bem… Nada funciona p/ mim.
    Não deve ser muito fácil viver no Rio. Aqui em Curitiba já é bem perigoso e eu tenho medo quando minha filha sai à noite…
    Beijos

  19. Regina Says:

    Cris,

    Que pena, cheguei meio atrasada… Isso ta bom demais. Eu adoro essa questao da lingua e de sotaque.

    Achei excelente o comentario da Edelize. Eu me identifiquei muito com ela quando ela diz que se tornou ao mesmo mais critica do Brasil e passou a aprecia-lo mais. O mesmo aconteceu comigo e tambem em relacao ao pais onde moro e a qualquer outro.

    Gostei tambem da sua definicao de cidada do mundo: ” Mas há também a idéia de que cidadão do mundo seja alguém que aceite o Outro e as coisas do Outro c/ mais humanidade. ” Eu me sinto exatamente assim. Acho que ainda nem sou tao viajada assim… Ainda tenho muito que conhecer. Quando uso o termo cidada do mundo estou me referindo a um sentimento mais humanista e menos nacionalista.

    Beijocas,

    Regina

  20. cris s Says:

    Regina,
    Eu pretendo escrever um post sobre a questão da língua e sotaques. Acho que eu passei por umas dinâmicas bem interessantes.

    Que bom que você se identificou com o comentário da Edelize. Acho que o ideal seria esse mesmo. Eu tenho tendência a ser muito crítica com tudo (característica de virginiana?), porém vejo que fico cada vez mais aberta. E como sou extremamente curiosa, nunca rejeitei coisas diferentes, muito pelo contrário. O que é diferente de mim me atrai. Sempre foi assim.

    beijocas e boa segunda!


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