Archive for Julho, 2007

Entre a galinha e a barata

Julho 26, 2007
Cultura (in)útil:

Você conhece a expressão inglesa “running around like a headless chicken“? Não? Então aprenda correndo, porque é utilíssima em momentos como os de hoje:  quer dizer “correr de um lado para o outro, feito barata tonta“. Eu, eterna aprendiz do idioma de William Shakespeare, vibrei quando achei o correspondente em português para uma expressão tão aplicável à alguns momentos da minha vida. E a expressão colou: segue que há anos penso na galinha quando falo da barata ou falo da barata quando me refiro à galinha, num exemplo emblemático dos vários imbróglios lingüísticos de chez moi.

cockroach.pngE, como até as baratas tontas da vida merecem um certo rigor acadêmico, abro o Aurélio para uma (auto)definição:  Barata tonta. Fam. Pessoa atônita, desarvorada.  Agora, engraçado mesmo foi descobrir a riqueza semântica do vocábulo barata — a  língua portuguesa é realmente um barato…

E todo esse blá blá blá sem graça é para falar que eu estou feito uma headless chicken ou uma barata tonta (escolha o bicho e/ou a língua preferida), com mil coisas para fazer e não sabendo por onde começar. Aliás, tão logo eu me ocupo de alguma coisa, mudo de idéia, no melhor estilo desses insólitos animais.

Então, num raro gesto de resignação, concedo-me alguns momentos do desarvoramento, da tontice (existe, sim!) e de headlessness (também existe!) das baratas e galinhas do melhor pedigree. Et voilà!

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Comfort drink

Julho 23, 2007

Semana passada eu assisti o filme Marie Antoinette da Sophia Coppola e, ao meio dos deliciosos macarons e tortinhas e éclairs e muitos outros quitutes, o que mais me chamou atenção foi o chá de jasmin que ela ganhou de um imperador chinês. Para a minha surpresa, os “blooming teas” não são chás raros. São bem mais caros do que as folhas e ervas que eu tomo, mas um blooming jasmine tea não é mais caro do que um capuccino (custa em torno de $4). Olha só que beleza:

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 Fico só imaginando a fragância e o sabor… Há tempos sou fascinada por chás, xícaras, bules & Cia e adoro provar chás diferentes. Há uma variedade incrível desses chás-flores que desabrocham na xícara ou bule. Dá uma espiada aqui e aqui.

Por enquanto, esquento frio do inverno terras sulino com os meus cházinhos. Um dos meus preferidos é o chá branco, que nada mais é que os brotos das folhas do chá verde.  As doces folhinhas do chá branco multiplicam as propriedades terapêuticas do chá verde e são muito mais gostosas, se preparadas corretamente. Tanto a infusão do chá branco quanto a do chá verde tem que ser muito mais rápida do que a do chá preto.  A maneira adequada de preparo é assim: ferva a água e espere 2 minutos. Despeje a água sobre o chá branco e deixe em infusão por apenas 1 minuto. Se passar do tempo ele fica amargo. Só assim eu pude entender o porquê de eu não gostar do banchá (chá verde) servido na grande maioria dos restaurantes japoneses. Eles deixam o chá muito tempo em infusão e deixa um gosto amargo na boca.

Find yourself a cup; the teapot is behind you. Now tell me about hundreds of things.  (Saki)

Des-armardilhar

Julho 22, 2007

“Todos nós queremos desarmadilhar o mundo, queremos que o mundo seja mais nosso e mais solidário. Todos queremos um mundo novo que tenha tudo de novo e muito pouco do mundo, e queremos que ele seja um sonho e que nós apareçamos nesse mundo como um sonho também.Há armadilhas que moram dentro de nós. Nós acreditamos que as armadilhas mais sérias moram fora de nós, moram no mundo. Mas nós somos parte desse mundo e incorporamos essas armadilhas de maneira tão sutil que elas se instalaram na raiz do nosso próprio pensamento. Quebrar as armadilhas do mundo é em primeiro lugar quebrar o mundo das armadilhas que vive dentro de nós. Vou escolher algumas delas.

A primeira é a que chamarei a armadilha da ‘realidade’. Esse conceito é uma espécie de grande fiscalizador e controlador de nosso pensamento. O desafio é não levarmos tão a sério isso que afinal é uma construção social e uma representação ideológica. De fato, ensinar a ler é sempre um apelo para essa transcendência, para vermos para além daquilo que é imediato.

A armadilha número dois é a da identidade. Pensamos a nossa identidade como uma espécie de dado adquirido. Nossa verdadeira natureza humana é não termos natureza nenhuma. A escrita me deu a felicidade de poder viajar entre identidades que estão dentro de mim. Eu já fui mulher, já fui velho, já fui criança, já fui de todas as raças… É isso que a literatura dá não só a quem escreve, mas a quem lê. É possível transitar de vidas, podemos ser múltiplos. Não vale a pena saber ler e saber escrever se não for para isso: para nos deixarmos dissolver em outras identidades.

A terceira armadilha é a hegemonia absoluta da escrita. Existe uma idéia de que a sabedoria mora no universo da escrita, e isso transmite um certo olhar arrogante para o universo da oralidade, como se fosse uma coisa menor, olhado com certa condescendência. No universo da oralidade existe uma filosofia com sua própria lógica. Esse culto que fazemos de uma cultura livresca pode de fato destruir aquilo que é o sentido da cultura e do livro, que é a descoberta da alteridade. O desafio é ensinar a escrita a dialogar com o mundo da oralidade.

A quarta armadilha é achar que a leitura se restringe à leitura da palavra. A idéia da leitura aplica-se a um vasto universo. Lemos a emoção no rosto das pessoas, lemos as nuvens para sabermos o tempo, lemos a vida em geral. Tudo pode ser uma página. O que faz com que alguma coisa seja uma página é a intenção da descoberta em nosso olhar.”

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Trechos da palestra brilhante do escritor moçambicano Mia Couto no 16o Congresso de Leitura (Cole) na Unicamp (julho 2007)

Sobre o acidente aéreo em Congonhas ou “God only knows what I’d be without you”

Julho 19, 2007

 “God only knows what I’d be without you”

 A cena abaixo, do filme Love, Actually é, ao meu ver, uma das mais bonitas, singelas, alegres e comoventes da história do cinema contemporâneo. Eu nunca me canso de assistí-la. Da mesma forma que eu não me canso de observar as cenas de chegadas e partidas dos aeroportos que eu vou. Há sempre uma energia incrível que circunda as pessoas que se despedem e/ou recebem os seus amados. Pais recebendo o filho, a filha recebendo a mãe; o marido que se despede da esposa; a namorada do namorado; um amigo recebendo o outro. É geralmente lindo de ver.

Me corta o coração imaginar a partida dos passageiros do trágico acidente que aconteceu em São Paulo. Pior ainda é saber que nunca haverá nenhuma cena de chegada como as do vídeo abaixo para eles e para os seus amados.

E tudo isso por uma apatia geral que assola esse país. Todos sabemos que o aeroporto de Congonhas tem que ser fechado. Lembro ter assistido um documentário sobre isso há mais de dezesseis anos na Globo: era um controlador aéreo que anonimamente denunciava as péssimas condições de trabalho e das pistas do aeroporto mais movimentado do Brasil.

Espero que você tire três minutinhos do teu dia para assistir as cenas abaixo e que pense nos passageiros do vôo JJ 3054, bem como das vítimas que se encontravam no prédio da Tam Express. E que o teu luto por essas pessoas, que a tua lástima pelos parentes e amigos dessas vítimas se transforme em algo mais do que um profundo pezar. Que nós não esqueçamos que nada foi feito, que esse acidente poderia ter sido evitado e que se não fizermos nada, outros, com certeza, acontecerão. E daí, cenas como as do vídeo abaixo, “Nunca. Nunca. Nunca. Nunca. Nunca [mais]”, como Lear repete cinco vezes ao ver a filha morta.  (Rei Lear, Shakespeare)

“God only knows what I’d be without you” (The Beach Boys) 

I may not always love you
But long as there are stars above you
You never need to doubt it
I’ll make you so sure about it
God only knows what I’d be without you

If you should ever leave me
Though life would still go on, believe me
The world could show nothing to me
So what good would livin’ do me
God only knows what I’d be without you

God only knows what I’d be without you

If you should ever leave me
Though life would still go on, believe me
The world could show nothing to me
So what good would livin’ do me

 God only knows what I’d be without you

Tragédia aérea em São Paulo.

Julho 18, 2007

 Enquanto escrevo esse post as imagens que assistimos na televisão são horríveis e não deixam espaço para esperança: hoje tivemos o pior acidente aéreo da história do Brasil. O horror aconteceu no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, ao meio de muita chuva. Ainda há especulações, mas o certo é que o piloto do Air Bus da Tam fez um pouso difícil, derrapou e, ao tentar decolar novamente, colidiu contra um prédio de carga e descarga da Tam Express. Com a explosão do avião, o prédio pegou fogo e desabou parcialmente.

De forma semelhante ao acidente da Gol no ano passado, a TV Globo se mostra excessivamente econômica na divulgação das notícias: o Jornal Nacional confirmou apenas 15 mortos, dando margem à falsas esperanças para milhões de brasileiros. Quinze minutos mais tarde, a CNN, muito mais ágil, já havia confirmado a terrível notícia de que há pelo menos 200 mortos. A lista de passageiros ainda não foi divulgada, apenas o nome de um deputado federal foi confirmado. E os outros nomes? O descaso com o humano é algo totalmente incompreensível para mim.

O aeroporto de Congonhas, localizado no meio do centro de São Paulo, é uma vergonha nacional e tem protagonizado cenas muito perigosas nas suas pistas. O reporter da CNN aventou a possibilidade do avião ter tentado pousar na pista principal do aeroporto que recentemente passou por reformas e permaneceu fechada por 45 dias. O asfalto da pista onde ocorreu o acidente, de acordo com especialistas da CNN, ainda não estaria totalmente seco e a chuva só fez piorar as condições do pouso. Outro problema da pista seria a falta de groovings, espécies de ranhuras na pista que evitam derrapagens e facilitam na drenagem da água. Veja mais sobre o acidente aqui.  A opinião unânime é de que as pistas de Congonhas não estão dentro dos padrões de segurança por não serem longas o suficiente.

O acidente de hoje traz muito horror, mas pouca surpresa. Muito se tem debatido sobre as péssimas condições do tráfego aéreo brasileiro e sobre o estado lastimável do aeroporto de Congonhas. Quantas centenas de pessoas mais devem morrer para que se comece agir? Não sei mais o que pensar desse país que fala, fala e nada faz.

O meu sentimento está com as famílias das vítimas.

Fotos de julho.

Julho 17, 2007

Foto: Sampa I

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[atrás do Masp: “a dura poesia concreta de tuas esquinas”]

Foto: Sampa II

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[geométricas]

Foto: Praia I 

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[durante as duas únicas horas de sol que tivemos lá]

Eu que estava sonhando com uma praia, não cheguei a ter sequer meia hora de pé na areia. Mas não tem nada, não. Tem muita praia linda aqui no Brasil (e fora!) e nós teremos muitas oportunidades para viajar.  E São Paulo, a cidade que é “o avesso do avesso, do avesso do avesso” sempre surpreende, seja pelo feio, seja pelo belo.   

Uma tarde de terça.

Julho 17, 2007

Doença crônica:

Falta de organização. Armários permanentemente desarrumados. Folhas e mais folhas empilhadas e sem nenhuma ordem. Perda de objetos, documentos, datas e fotos. A única coisa boa é quando estou procurando uma coisa e me deparo com algo que já havia esquecido. Daí esqueço do que estava procurando.

Fico profundamente admirada quando encontro quartos e escritórios organizadíssimos. Para mim isso é uma coisa totalmente surreal. 

Desejo de consumo:

Uma várinha de condão que magicamente arrumasse tudo. Nada me faria mais feliz nessa tarde de uma terça-feira de profunda agonia.   

P.S. Alguém notou algo de diferente? Depois de sete meses de blog eu consegui alinhar o meu texto e dar cor às minhas fontes.  Mas ainda não consegui mudar o título do post… Uma lentidão só.  

Trabalho e mais trabalho à vista…

Julho 16, 2007

Mal volto e tenho um sem-número de coisas para fazer. Nesse semestre vou me dividir em muitas: duas universidades diferentes com aulas na graduação e na especialização (onde estou assumindo o cargo de coordenadora, salve-se quem puder!). Mas o que mais vai tomar o meu tempo serão as aulas que eu vou dar no mestrado. Se eu já ficava horas preparando as minhas aulas na graduação, agora quero ver como vou dar conta… Mas, antes de começar a reclamar, vou me sentir feliz por ter tido a oportunidade de ter um novo desafio. No fundo eu sei que no final tudo dá certo, mas não me pergunte como! E vou me sentir e recompensada por estar colhendo os frutos desses quatro anos de ralação. 

O que me deixa mais animada é a minha disciplina no Mestrado: “Linguagens da Alteridade”. Então é isso:  — estarei imersa nas questões do “Outro” esse semestre. Aposto que será interessante pois é sempre no Outro que vislumbramos facetas de nós mesmos.  

Retorno, então, para o mundo dos livros e já vi que não adianta mesmo, por mais que eu tente fugir, é sempre para eles que eu volto. Pobre e vã esperança de voltar a ter um escritório organizado, com os livros retornando e permanecendo (tarefa muito mais difícil) aos seus devidos lugares.

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P.S. Vou tentar me disciplinar para voltar a andar e/ou correr porque as costas (e a balança!) agradecem. But no more marathons. Marathons, no more.  

Esta blogueira está de férias!

Julho 7, 2007

Por decreto próprio — seja por necessidade, mérito ou o que mais se aventar, eu me concedo férias. Vou-me embora prá Pasárgada com o filho do rei, com as filhinhas, com morangos e barras de cereal. Vamos meio sem lenço e sem documento e não sabemos direito onde vamos parar. Talvez cheguemos ao Rio. A única certeza, por enquanto, é São Paulo e alguma praia.

exposiçãododarwinnomasp. exposiçãodegasnomasp. bareserestaurantes gostosos. livrarias. smogeloucuradametrópole. praia. mar. brisa. comidinhas. caminhadas. castelonaareia. solefiltrosolar. família. fotos. fériasdainternet. fériasdecasa. fériasdealunos. simplesférias.

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Para que a gente não esqueça de ser feliz.

Imagem: cartoonstock.com

Abaixo o fanatismo!

Julho 7, 2007

Achei sensacional esse texto do escritor israelita Amo Oz que eu encontrei no Notas ao Café e que o JN gentilmente cedeu para eu aqui reproduzir. É uma contribuição às reflexões sobre nacionalismos, doutrinamentos e fundamentalismos.

«Intitulei-me especialista em fanatismo comparado. Não é nenhuma piada. Se alguém souber de uma escola ou universidade que vá abrir um departamento de Fanatismo Comparado, cá estarei eu para solicitar um lugar de professor. Na minha qualidade de antigo jerosolimitano, e como fanático reabilitado, sinto-me plenamente qualificado para esse posto. Talvez seja chegado o momento de todas as escolas, todas as universidades, facultarem pelo menos um par de cursos de Fanatismo Comparado, pois este está em toda a parte. Não me refiro tão-só às óbvias manifestações de fundamentalismo e fervor cego. Não me refiro apenas aos fanáticos natos que vemos na televisão entre multidões histéricas que agitam os punhos contra câmaras, ao mesmo tempo que gritam slogans em línguas que não entendemos. Não, o fanatismo está em todo o lado. Com modos mais silenciosos, mais civilizados. Está presente à nossa volta e talvez também dentro de nós. Conheço bastantes não-fumadores que o queimariam vivo por acender um cigarro ao pé deles! Conheço muitos vegetarianos que o comeriam vivo por comer carne! Conheço pacifistas, alguns dos meus colegas do Movimento de Paz israelita, por exemplo, desejosos de dispararem directamente à minha cabeça só por eu defender uma estratégia ligeiramente diferente da sua para conseguir a paz com os Palestinianos. No entanto, não afirmo que qualquer um que levante a voz contra alguma coisa seja um fanático. Não sugiro que qualquer um que manifeste opiniões veemente seja um fanático, claro que não. Digo que a semente do fanatismo brota ao adoptar-se uma atitude de superioridade moral que impeça a obtenção de consenso. É uma praga muito comum que, certamente, se manifesta em diferentes graus.»

Amos Oz, in «Contra o Fanatismo»

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