Para cada corredor, sua corrida.

Julho 4, 2007

Acabei de voltar da minha caminhada-“corrida”. Três quilómetros de caminhada, um de “corrida”, uma distância vergonhosa para quem treinava para maratonas há apenas dois anos. Para quem corria na grama, no asfalto, ladeira acima, ladeira abaixo, debaixo de chuva, de sol e até de neve fina. Durante os meus treinos longos, às vezes corria de duas a três horas, intercalando corridas de longa distância com treinos curtos e rápidos (10-15 kms) + um ou dois dias de repouso por semana para me recuperar. Eu nunca fui radical, mas quem corre longa distância tem que, por pura necessidade, desenvolver uma disciplina que envolve dormir bem, hidratar, comer bem e bastante. Conhecem aqueles gelzinhos para atleta? A minha bolsa era cheia deles. O meu carro também era sempre munido de uma muda de shorts + camiseta + tênis + boné + filtro solar + óculos de sol. O legal da corrida é que, aconteceu a oportunidade, você se troca rapidamente e… pernas para que te quero! Eu geralmente corria depois das minhas aulas de manhã ou antes das aulas da noite na universidade.

No início, achei que a corrida prometia me dar algumas coisas que eu estava procurando:  fugir do agito infernal das academias inóspitas, escolher o meu próprio inspirational playlist (detesto música de academia) e economizar dinheiro. A exceção veio com o quesito ‘economia’, que é um mito inventado por quem nunca levou a corrida a sério. Deixe-me explicar: você tem que descobrir o tênis mais confortável para a tua própria ‘pisada’ e para o tipo de corrida: o melhor p/ ‘corridinhas’ é geralmente mais ‘pesadão’, comparado com o peso-pluma do tênis de longa-distância. Depois de muitas bolhas no pé, descobri que investir no tênis certo é absolutamente vital. Tem também vários acessórios, mas o mais importante é o relógio-cronômetro à prova d’água (suor e chuva), que acaba sendo imprescendível. Você já viu largada de corrida? É todo mundo acionando o tal do cronômetro. Aliás eu era (e ainda sou) obcecada com o tempo que levo para fazer as coisas, acho que é resquício da mania de cronometar as minhas corridas. Há também os relógios-cronômetros mais sofisticados, que registram os batimentos cardíacos e a distância percorrida. Só que não é mera sofisticação para um corredor de longa distância: é prudente verificar o teu batimento cardíaco e mantê-lo dentro de um nível de segurança. Há casos de maratonistas famosos que morreram no meio de uma prova. 

Depois que eu consegui atingir os almejados 10 kms, comecei a me animar e me uni a um grupo de amigos-corredores. Íamos em grupos e chegávamos até a marcar corridas para as noites frias aqui de Curitiba. Antes da corrida, cada um escolhia uma turma de corredores que corria mais ou menos no seu ritmo para acompanhar. E, nossa, não há nada que se compare com correr na rua, você redescobre a tua cidade, é uma delícia. Eu sempre ficava com os corredores ‘lentos’ na retaguarda e ia curtindo um papo ou uma boa música. Aprendi que eu era uma “boa” corredora de longa distância porque sabia me poupar ao longo da corrida. Ia devagar e sempre. Quando a coisa apertava muito, eu andava.

A maratona é fenômeno muito especial: você vê coisas incríveis – homens imensos chorando por não aguentarem mais as bolhas no pé ou por terem de desistir, pessoas passando mal e sendo atendidas em ambulâncias. Você vê a garotada nova, toda empinada, voando no começo e, depois de 15-20 kms, literalmente espumando de cansaço. Você vê os veteranos que correm há décadas fazendo jogging para, somente no final apressar o ritmo. Você vê de tudo: mulheres e homens mais jovens e mais velhos, os atletas brasileiros e os famosos angolanos em busca de um primeiro lugar (aí tem que olhar muito rápido: esse pessoal não esquenta o pé!) e gente que viaja de outras regiões só para ter a experiência de ter participado de uma “maratona internacional”.

Outro aspecto bem interessante da maratona é a ligação imediata que você estabelece com pessoas que estão passando pelo mesmo esforço que você.  Então acaba que você conhece figurinhas que no dia-a-dia você nunca se interessaria em trocar uma palavra. Mas, naquele momento, todos viram irmãos e solidários. A melhor coisa para uma maratonista inexperiente como eu foi ter encontrado alguns anjos da guarda que pararam para me ajudar e, com palavras inspiradoras, me impulsionaram a correr o próximo quilómetro. Aliás, esse é o mote de todo aspirante a maratonista: acabe o próximo quilómetro. Acabe o próximo quilómetro.

A minha vida sempre foi uma sucessão de corridas de média a longa-distância, com momentos que dá a maior vontade de largar tudo para sentar no meio fio e chorar. Aliás, na primeira maratona que eu participei, foi isso mesmo que eu fiz: sentei no meio fio e botei a boca no mundo sentindo que eu não ia conseguir. Os músculos da minha perna doíam muito, as bolhas não ajudavam e eu não consegui por mais nada na boca depois dos 30 kms (erro crasso!). Mas criei coragem (ou vergonha na cara), levantei e me arrastei com as minhas dores e cãimbras. Cheguei no final quase feito aquela corredora na Olimpíada dos anos 90, lembram? Meu marido falou que eu estava entrando em choque. Passei muito mal, mas não fui parar no hospital. Levou um mês para o meu sistema imunológico se recuperar e só depois de dois meses voltei a treinar novamente. Nas outras duas maratonas eu já havia me tornado ‘macaca velha’ e não cometi os mesmos erros. Alternei corridas e caminhadas. Me hidratei com a constância devida. Ingeri o tal do gel e parei para comer banana e melancia nas banquinhas ao longo das ruas. Foi muito mais fácil. 

Você pode estar se perguntando, “por que diabos ela corria tanto”? Sei lá, mas acho que tinha um época na minha vida que eu estava precisando de uma sensação de superação.  E, também, às vezes eu pensava que corria da vida. Outras vezes eu sentia que corria pela e para a vida.   Talvez a corrida seja uma mistura das duas coisas. Se eu quero voltar a correr agora? Eu gostaria de voltar a correr sim, botar as endorfinas para trabalhar e sentir a brisa no rosto. Maratonas? Não, foram-se os tempos das maratonas. Agora ficaria feliz em voltar a correr os 10 kms aos quais eu aspirava tanto quando comecei a correr. A questão da ‘longa distância’, afinal de contas, deve ser uma questão de perspectiva. 😉

running.png 

“Every morning in Africa a gazelle wakes up. It knows it must move faster than the lion or it will not survive. Every morning a lion wakes up and it knows it must move faster than the slowest gazelle or it will starve. It doesn’t matter if you are the lion or the gazelle, when the sun comes up, you better be moving.”   – Maurice Greene.

A foto acima foi tirada do site da revista runnersworld, uma das minhas leituras favoritas quando eu era corredora.

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15 Respostas to “Para cada corredor, sua corrida.”


  1. Cris, so de ler ja fiquei exausta! 😉
    Tenho a maior inveja de corredores, pois eu nao consigo correr. So consigo walk briskly, o que ja me falaram que eh muito bom e preserva os joelhos e outras areas mais sensiveis a corrida para mulheres. Bom, mas nem andado assim eu tenho mais. Mas eu nado, duas vezes por semana, o que me faz escapar por um fio de ser classificada como sedentaria. 😉

    bjoo,

  2. cris s Says:

    Fer,
    Eu também não conseguia correr. Comecei devagar, alternando jogging + corrida e, quando eu cansava, andava. Aliás, todos falam que é a melhor maneira p/ vc começar. Se vc não corre tanto, pode até ajudar a previnir esses problemas nos joelhos, se não esquecer de alongar. Uma corrida leve não faz mal, não. O problema são essas maratonas!!
    Eu nado bem, mas o meu cabelo fica muito seco.
    Menina, eu tô tentando sair do sedentarismo agora. Foi um longo inverno!!
    beijocas

  3. Gi Says:

    Eu não sou sedentária; eu estou. Espero que isso passe! ;-0 Já tentei correr e contei pra vc minha experiência, né? Eram 20 minutos só, no máximo meia-hora. Aturaria uma aula de 3 horas de dança depois de anos decorridos de sedentarismo, mas não isso!

    Cris, parabéns por esse tratado de amor, ode à corrida! ;-))

  4. Raquel Says:

    Cris,

    quanto esforço!!! Estou impressionada. Mesmo.

    Eu sou uma pata para correr, nunca consegui direito e olha que até aula de corrida na academia (na esteira) eu tentei. O que eu gosto mesmo é de andar rápido e andar de bicicleta. Gosto muuuuito de andar de bicicleta, o Rio é uma boa cidade para isso.

    Eu tinha voltado a nadar, mas os professores eram péssimos, a piscina horrível e muito mal cuidada (nojo!) e parei. Onde moro são poucos locais com piscina próximos e nenhum dos outros tinha horários compatíveis.

    Agora estou tentando andar nos fins de semana e, em casa, usar a bicicleta ergométrica enquanto leio. Tenho playlists e aulas gravadas, o que também ajudam a “passar o tempo”.

    O melhor de tudo é a endorfina no final. Na boa, se vendessem em cápsulas as academias da vida ficariam vazias!

    As bolhas são um problema mesmo. Volta e meia ganho algumas, nem acho que são o tênis, que é próprio para minha pisada, mas, às vezes, a meia errada.

    Quando você chegar aos 10km conta para a gente.

  5. cris s Says:

    Gi,
    Se você aguenta correr 20 minutos direto, tá ótimo! Você deve alternar corrida c/ caminhada e consegue muito mais. E aí vai aumentando. As endorfinas adoram.
    Você acha que foi uma ode à corrida? Olha, foi uma fase muito legal, por um lado, e eu tenho saudades. E o corpinho agradecia!
    Só que, por outro lado, leva muito tempo de você. E afinal de contas eu já passei pela experiência da maratona!! Agora vou correr de brincadeirinha! hehe
    beijocas

  6. cris s Says:

    Raquel,
    Eu corro feito pata também, nunca consegui corrigir a pisada; é hilário. Esqueci de falar no post que eu tinha as meias apropriadas, sem elas, nada feito.
    Natação é excelente, mas eu encano com as madeixas… Mas nadava quando estava grávida, era ótimo!
    Legal vc andar rápido e andar de bike. Aqui até que tem um monte de parques legais e eu gosto bastante. Só que sempre fico achando que a corrida rende muito mais. Acho melhor, então, voltar aos pouquinhos.
    Vai demorar p/ eu voltar par os 10 kms. Mas pode deixar que eu conto aqui!!
    beijos

  7. cris s Says:

    Raquel,
    Onde vc arranja as aulas gravadas??? É uma boa, né? Eu também me animo!
    bjs

  8. Gi Says:

    Dizem que natação é o esporte mais completo, mas eu acho que yoga e dança são ótimos: alongamento, musculação, modela o corpo de maneira feminina (para mulheres, claro.. hehe), dá condicionamento físico, relaxa, dá concentração, boa memória, noção de espaço, boa respiração, tudo mais no esquema.

    Corrida também deixa com um quadril certinho, sem quase celulite, jesui, muito bom! 😉 Não curto nado; gosto de ficar livre em mar e piscina, boiando, brincando. Todas as vezes que tentei fazer natação (apesar de até nadar bem) foi um fracasso. Eu nadava, ia para o fim e os prof. gritavam: “gisela, pára de falar, voooooolta”. ;-)))

  9. cris s Says:

    Gi,
    Acho tudo ótimo. Já fiz anos de yoga, de dança, natação, sei lá mais o quê!
    O problema é a preguiça, porque falta de tempo é desculpa manjadíssima.
    Eu cuido de piscinas por causa da cabeleira, que é horrível!!
    bjs

  10. Ana Lucia Says:

    Cris correr corrido eu nunca corri, jogging é o maximo que consigo fazer, alternado com umas corridinhas, como vc disse o tênis é fundamental e pra começar é preciso estar em forma. Nadar eu já nadei bastante, fazia competições qdo era adolescente, mas nunca foi além disso. Mas o seu relato desperta a vontade de correr, aqui é um bom lugar pra correr, muita gente corre inclusive qdo as temperaturas estão lá pelos 15 negativos. Beijocas.

  11. cris s Says:

    Ana,
    Jogging já é ótimo. Continue assim, às vezes dê uma forçadinha e corra (e daí alongue bem). O legal é quando as endorfinas ‘kick in’, a sensação é maravilhosa!!
    Eu passei 2 meses como prof. visit. na Inglaterra em 2005 (jan.-fev) e 2 vezes peguei uma neve fininha no meio das corridas. Quando vc está aquecida, tudo bem, é até gostoso!! 🙂
    Tô indo agora fazer um joggzinho no parque! Esse papo anima mesmo.
    bjs

  12. Ana Lucia Says:

    Eu sinto os efeitos quando faço todos os dias, e com a corridinha os efeitos sao realmente mais rapidos que com a caminhada…vc tem mais é que voltar, depois de ter atingido esse estagio, nao dah pra perder Cris. bjos.

  13. Raquel Says:

    Cris,

    aulas gravadas são as minhas aulas, que eu gravo, jogo no MP3 e ouço enquantotento voltar à forma.

    Bjs

  14. cris s Says:

    Ana,
    Estou tentando voltar, mas não está sendo fácil…

    Raquel,
    Legal a idéia! Eu tenho um podcast que peguei do Itunes.

    bjs p/ as duas

  15. Everton Says:

    Comecei a correr a 3 meses e o que achava impossivel antes , hoje nao acho nada demais , acredito que um dia ainda nao muito longe chegarei onde pretendo, meu nome e everton tenho 18 anos e um dia serei conhecido por todos por minha garra e FORÇA DE VONTADE .


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