Des-armardilhar

Julho 22, 2007

“Todos nós queremos desarmadilhar o mundo, queremos que o mundo seja mais nosso e mais solidário. Todos queremos um mundo novo que tenha tudo de novo e muito pouco do mundo, e queremos que ele seja um sonho e que nós apareçamos nesse mundo como um sonho também.Há armadilhas que moram dentro de nós. Nós acreditamos que as armadilhas mais sérias moram fora de nós, moram no mundo. Mas nós somos parte desse mundo e incorporamos essas armadilhas de maneira tão sutil que elas se instalaram na raiz do nosso próprio pensamento. Quebrar as armadilhas do mundo é em primeiro lugar quebrar o mundo das armadilhas que vive dentro de nós. Vou escolher algumas delas.

A primeira é a que chamarei a armadilha da ‘realidade’. Esse conceito é uma espécie de grande fiscalizador e controlador de nosso pensamento. O desafio é não levarmos tão a sério isso que afinal é uma construção social e uma representação ideológica. De fato, ensinar a ler é sempre um apelo para essa transcendência, para vermos para além daquilo que é imediato.

A armadilha número dois é a da identidade. Pensamos a nossa identidade como uma espécie de dado adquirido. Nossa verdadeira natureza humana é não termos natureza nenhuma. A escrita me deu a felicidade de poder viajar entre identidades que estão dentro de mim. Eu já fui mulher, já fui velho, já fui criança, já fui de todas as raças… É isso que a literatura dá não só a quem escreve, mas a quem lê. É possível transitar de vidas, podemos ser múltiplos. Não vale a pena saber ler e saber escrever se não for para isso: para nos deixarmos dissolver em outras identidades.

A terceira armadilha é a hegemonia absoluta da escrita. Existe uma idéia de que a sabedoria mora no universo da escrita, e isso transmite um certo olhar arrogante para o universo da oralidade, como se fosse uma coisa menor, olhado com certa condescendência. No universo da oralidade existe uma filosofia com sua própria lógica. Esse culto que fazemos de uma cultura livresca pode de fato destruir aquilo que é o sentido da cultura e do livro, que é a descoberta da alteridade. O desafio é ensinar a escrita a dialogar com o mundo da oralidade.

A quarta armadilha é achar que a leitura se restringe à leitura da palavra. A idéia da leitura aplica-se a um vasto universo. Lemos a emoção no rosto das pessoas, lemos as nuvens para sabermos o tempo, lemos a vida em geral. Tudo pode ser uma página. O que faz com que alguma coisa seja uma página é a intenção da descoberta em nosso olhar.”

mia-couto.png

Trechos da palestra brilhante do escritor moçambicano Mia Couto no 16o Congresso de Leitura (Cole) na Unicamp (julho 2007)

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9 Respostas to “Des-armardilhar”

  1. Leila Says:

    Não resisto a comentar – bonitinho o Mia Couto, né? : )

  2. Regina Says:

    Cris,

    Realmente brilhante o texto. Eu nao ainda nao conhecia esse autor. Obrigada pela dica.

    Bj e bom domingo,

    Regina

  3. cris s Says:

    Leila,
    Pois é bem bonitinho o moço! 🙂
    bjs

  4. cris s Says:

    Regina,

    Eu estou começando a familiarizar com o Mia Couto, o que é uma vergonha. Ele é muito, muito bom.

    bjs

  5. cris Says:

    gente, você também estava no COLE? eu estava lá e fiquei tão, mas tão emocionada com a palestra do moço. foi, sem dúvida, uma das melhores coisas do congresso. e eu, que nunca li nada dele, agora quero conhecer mais, muito mais. bj grande!

  6. cris s Says:

    Cris,
    Eu não fui ao COLE. Mas li sobre a palestra e tenho lido coisas dele e sobre ele. Enfim, a palestra deve ter sido absolutamente fantástica. E o homem não é de se jogar fora, né? ; ))

    beijocas

  7. cris Says:

    nossa, mas não é mesmo, hehehe. charme puro! bjs

  8. Raquel Says:

    Que texto banca, muito interessante, mesmo.

    Obrigada por compartilhar, provavelmente jamias teria lido se não fosse aqui.

    Bjs

  9. cris s Says:

    Raquel,

    Bacana né? Tenho certeza que você ia gostar do Mia Couto. Dê uma fuçadinha na internet.

    beijocas


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