Archive for Agosto, 2007

Errata metereológica.

Agosto 31, 2007

Dois posts abaixo, eu havia falado “final de agosto chove menos e começa a esquentar”; ahã. Tá um frio aqui de gelar a alma. O Bolho,  peixinho da minha filha, morreu hoje e as plantas e flores devem estar sofrendo e pensando que o mundo está louco. Está mesmo.

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Sobre morangos e watermarks.

Agosto 27, 2007

Juro, os morangos aqui andam algo que não dá prá resistir. Com chocolate então, esqueça a balança. Eu derreti um bom chocolate meio-amargo e misturei com um pouco de creme fresco. Salpiquei um tiquinho mínimo de basílico fresco no creme de chocolate, o gosto do basílico (manjericão) fica quase irreconhecível, mas dá um quê diferente. Na próxima vez eu vou experimentar salpicar uma florzinha macerada de lavanda. Deve ficar bom também.

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E nós que jurávamos que nunca comeríamos morangos tão bons quanto esses da Califórnia! Só nos faltam as cerejas.

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Agora vou tratar de fechar o bico e dormir porque me assanhei demais com esse trequinho do watermark (alguém percebeu?!) e com as minhas fotos. Pareço criança com brinquedo novo.

 Update: Pessoal, esse watermark tá bem breguinha, eu sei. Quando eu tiver tempo, faço algo decente; pelo menos consegui decifrar o grande mistério. Ana e Raquel: eu vou escrever um post sobre como fazer um watermark para vocês (e p/ quem mais se interessar), tá? Só que agora tá complicado.

Maravilhas.

Agosto 27, 2007

Lembram daqueles rebentos que eu tinha fotogrado aqui? Pois são as minhas glicíneas que estão desabrochando e enchendo o jardim de charme e perfume. Corri para tirar fotos e documentar porque elas são danadas e desaparecem sem deixar uma pista. Só deixam mesmo saudades porque fica a trepadeira verde que não tem graça nenhuma. No hemisfério norte elas abundam entre a primavera e o verão e geralmente florescem duas vezes. Aqui é uma vez e rápido!

  wisteria.png

Eu já tinha comentado aqui que eu estava sentindo muito a falta de rosas no meu jardim. Ontem comprei algumas roseiras, uma delas veio com duas rosas brancas lindas. Olha só. Vou contar uma coisa: as rosas têm um je-ne-sais-quoi todo misterioso. Elas são meio de lua, então, sabe como é, gostam de ser paparicadas, aparadas e bem nutridas. Prá quem segue a minha carreira jardinística, já imagina o que eu estou pensando… É que a comparação é inevitável: uma rosa é uma rosa é uma rosa, já dizia Gertrude Stein e eu assino embaixo. Mas tenho que adicionar: uma rosa não é uma lavanda e nunca será, então é melhor se preparar. Nem tudo são lavandas nos jardins de nossas vidas. Mas dá só uma olhada e depois diga se não vale a pena!  Uma coisa eu ainda quero aprender: o que faz uma rosa ser mais cheirosa do que a outra? Já pesquisei com meus amigos jardineiros e, segundo eles, não é a cor. E parece que não há um fator determinante… Enfim, continuarei a minha busca pela rosa mais cheirosa. Um dia eu a encontro.

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Nessa época do ano, meu jardim se torna um lugar que me dá um prazer sem tamanho. Final de agosto, depois de um frio danado, chove pouco e começa a esquentar: dicas suficientes para que as belezas pensem que é primavera. Cores e perfumes se mesclam, nem sempre na dose certa, mas a verdade é a seguinte: quem tem flores gosta mesmo é de rosas, amarelos, vermelhos, roxos, e azuis intensos. Isso é sinal de vida. Que os tons pálidos habitem em outro lugar.

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Abaixo, outra prova cabal do meu dedo-verde: consegui resuscitar outra orquídea! Fico impressionada com o vigor e exuberância dessas bichinhas.

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Quem me conhece, sabe que flores (vivas) são presentes certeiros… Essas belezinhas são as presenças mais novas do jardim: sejam benvindas!

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Sinto uma alegria genuína com as minhas flores. Meto a mão na terra, sujo a roupa, planto, faço podas e mudas; ponho adubos diferentes, rego pouco, rego demais; travo batalhas incansáveis com formigas esfomeadas. Erro muito, mas também acerto a mão. Sobretudo, aprendo assistindo esse espetáculo todos os anos, cada vez com prazer maior e renovado. As flores mais fortes e benevolentes com a minha incompetência retornam: certamente estas percebem a minha dedicação e boa vontade; devem ficar faceiras com o meu prazer e gratidão. As outras se ressentem com a minha inexperiência e partem para um mundo melhor. O mais importante mesmo é que a maioria volta no ano seguinte me reenergizando e reafirmando que maravilhas podem acontecer aqui mesmo no meu quintal.

Là, tout n’est qu’ordre et beauté, luxe, calme e volupté. (Baudelaire, Les fleurs du mal)

Sexta-feira punk.

Agosto 25, 2007

Não há nada pior do que alunos mimados. Detesto ter a sensação de que preciso agir como se fosse professora de jardim-de-infância para marmanjos universitários. Vão dar duro molecada!!

Enquanto no mestrado as coisas vão de vento em popa, ou seja, dou aulas para profissionais e pessoas que sabem o que querem e entendem muito bem que precisam ler um monte, estudar e trabalhar para as aulas, esses novos alunos da graduação são punk, no pior sentido da palavra…

Se uma coisa eu tenho como princípio de educação, seja como mãe, seja como professora/educadora é que, se você quer aprender algo, você tem que dar duro: no pain, no gain. Que não me venham com conversinha fiada: eu não me comovo facilmente.

Amanhã é 23…

Agosto 23, 2007

[Sempre pensei que a Paulinha Toller fez essa música para mim. E se alguém achar que é um ego-trip, tá certíssim@. Pelo menos hoje, tá!]

As entradas do meu rosto e os meus cabelos brancos, aparecem a cada ano no final do mês de agosto…

Amanhã é 23, são 8 dias para o fim do mês…

The real me.

Agosto 19, 2007

The sky from my window ain’t always

sunny and gay

but that’s where

I’ve been and

where

I wanna be.

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Desert, stormy clouds, a bumpy road:

Like it or not babe,

(ride with me on the fast lane!) 

that’s the real me.

Foto: minha (indo de Phoenix para Sedona)

Textos e (con)textos.

Agosto 19, 2007

Acabei de assistir uma mini-série brasileira intitulada Otelo de Oliveira de Aguinaldo e Silva, de 1983. Uma adaptação declarada de Otelo, o mouro de Veneza, Silva reconstrói a clássica tragédia shakespeariana de amor, ciúme e racismo e lhe dá uma roupagem brasileira. Na releitura de Silva, o samba, o carnaval e a macumba servem como pano de fundo para que ele explore, ainda que de maneira pouco satisfatória, questões como o racismo e o conflito de classes. Nada fica anacrônico naturalmente: o enredo de Shakespeare, escrito em 1604, serve muito bem para a sociedade brasileira de hoje, como poderia servir, aliás, para várias outras. Fica óbvio que o excelente musical Otelo na Mangueira que eu assisti no Festival de Teatro de Curitiba de 2006 se inspirou na mini-série de Silva. Daniel Herz (diretor) e Gustavo Gasparini (escritor) desenvolveram e complexificaram as idéias da mini-série. Numa manobra talvez um pouco arriscada, mesclaram a linguagem shakespeariana com sambas clássicos de Cartola e Cavaquinho, e o resultado foi absoluto sucesso da crítica e do público.

Shakespeare não ficaria nem um pouco surpreso ou chocado com o empréstimo de suas obras. Em primeiro lugar porque não havia nada parecido a direitos autorais na sua época.  A prática de empréstimos de textos, de colaboração com outros autores era comum e até esperada. De forma que ele próprio quase sempre se inspirou em vários autores, clássicos e populares, para escrever seus célebres textos. Não há nada mais saudável do que inspirar-se em boas idéias para criar ‘novas’ idéias. Isso me lembrou um trecho paradigmático do romance O nome da Rosa (Umberto Eco) e reproduzo aqui egoisticamente (eu não quero esquecê-lo):

(Guilherme:) Parece-me, lendo esta página, já ter lido algumas dessas palavras, e vê-me à mente frases quase iguais que vi alhures. Parece-me, antes, que este fólio fala de alguma coisa da qual já se falou nos dias passados… Mas não lembro o quê. Preciso pensar sobre isso. Quem sabe tenha que ler outros livros.

(Adso:)Como assim? Para saber o que diz um livro deveis ler outros?

(Guilherme:)Às vezes, pode-se proceder assim. Freqüentemente os livros falam de outros livros. Freqüentemente um livro inócuo é como uma semente, que florescerá num livro perigoso, ou, ao contrário, é o fruto doce de uma raiz amarga…

(Adso:) É verdade, disse admirado. Até então pensara que todo livro falasse das coisas, humanas ou divinas, que estão fora dos livros. Percebia agora que não raro os livros falam de livros, ou seja, é como se falassem entre si. À luz dessa reflexão, a biblioteca pareceu-me ainda mais inquietante. Era então o lugar de um longo e secular sussurro, de um diálogo imperceptível entre pergaminho e pergaminho, uma coisa viva, um receptáculo de forças não domináveis por uma mente humana, tesouro de segredos emanados de muitas mentes, e sobrevividos à morte daqueles que os produziram ou os tinham utilizado. (Eco, 1983, p. 330)   

Notícias do quintal.

Agosto 13, 2007

Jasmins do poeta. As rainhas do jardim no momento (com o perdão das lavandas — é para que elas aprendam a compartilhar!)jasmins_primavera.png

New babes. Sabe o que é?

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Surpresa. Vida nova.

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Lição. Aquelas orquídeas secas no vaso de plástico velho e feio que não prometiam mais nada e que eu ia jogar fora.

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A amamentação e o poder das imagens: Macbeth e As vinhas da ira.

Agosto 7, 2007

A amamentação e o poder das imagens: Macbeth e As vinhas da ira 

Gostaria de falar sobre a amamentação de um ponto de vista literário, fazendo um pequeno e superficial recorte de duas fortes imagens que encontramos na literatura de língua inglesa. A titulo de isca, recorro a duas imagens emblemáticas da tragédia Macbeth (William Shakespeare, 1564-1616) e do romance As vinhas da ira (John Steinbeck, 1902-1968), ambas obras literárias canônicas das literaturas inglesa e norte-americana, respectivamente.

A primeira vem com, provavelmente, uma das mais poderosas e temerárias personagens femininas do acervo shakespeariano: Lady Macbeth, a esposa do protagonista que, ao incitá-lo a dar cabo do Rei Duncan para usurpar-lhe o trono, clama: “Unsex me here!” e confessa que não hesitaria em esmagar a cabeça de seu bebê enquanto o amamentava, fosse para dar a coroa ao marido: “Eu já amamentei / E sei quanto é doce o sugar do neném; / Enquanto ele sorria eu poderia / Roubar-lhe o seio da gengiva mole / E arrebentar-lhe o cérebro, se houvesse / Jurado que o faria” (I.vii.54-59). Eis, sem dúvida, uma cena fortíssima: Shakespeare demoniza a figura de Lady Macbeth por meio de uma das mais belas e sagradas imagens da maternidade: a amamentação.

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Fig 1. Ellen Terry as Lady Macbeth (John Sargent, 1889)

Cabe abrir um parênteses para lembrar que a amamentação na Inglaterra elisabetana-jacobina (a época de Shakespeare) era uma prática enfaticamente recomendada pela literatura médica e religiosa, bem como pelas receitas medicinais encontradas em registros escritos pelas mulheres. Desta maneira e, talvez aqui alguns possam se surpreender, existiam manuais que tratavam meticulosamente dos cuidados para uma adequada amamentação. Diria-se mesmo, que o interesse e o conhecimento sobre os poderes do leite materno há mais de 400 anos não ficariam nem um pouco aquém das últimas edições de livros acerca do assunto para leigos. Reconhecia-se as propriedades medicinais do lei materno não somente para os bebês, mas também para vários tipos de doenças.

Lady Macbeth, muito embora seja uma mulher bela, sedutora, forte e influente até em assuntos políticos (algo atípico para a mulher da época) é, no âmago de seu ser, uma pessoa sem escrúpulos e desconstrói o arquétipo da imagem mais sagrada do acervo pictórico da representação feminina: a figura de Maria. Em termos imagísticos, Maria é a construção sócio-cultural do que temos de mais materno e santo; da mulher pura, imaculada, altruísta e nutridora. Lady Macbeth, por meio de sua transgressão que atinge o clímax na citação acima, incorpora, então, a figura antitética de Maria e torna-se Eva, a tentadora –- aquela que expulsou a humanidade do Paraíso e a condenou a um eterno mundo de pecados, imprimindo a culpa na mulher. Lady Macbeth, tal qual Eva, com efeito, não passou impune: enlouqueceu, perdeu a coroa e o marido que amava, e acabou tendo um fim nada surpreendente: se suicidou “por suas próprias mãos violentas” (V.ix.).

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Fig.2 – Original Sin (Hugo van der Goes, 1467).

John Steinbeck, a despeito de minha maior familiaridade com o bardo inglês, ganha, no momento, uma importância mais significativa para o que gostaria de sublinhar. As vinhas da ira (1939) ilustra o período da Grande Depressão nos Estados Unidos, um período de opressão e sofrimento para centenas de milhares de trabalhadores. A situação de alguns estados acometidos pela seca, como Oklahoma, era de pura calamidade e muitos trabalhadores da lavoura decidem procurar emprego em estados férteis como a Califórnia, Washington e Oregon.

A familia dos Joads acredita no sonho da maioria e parte para a famigerada jornada da Route 66, aos poucos perdendo membros da família e ganhando muita desilusão. Como muitos, os Joads são explorados como escravos na Califórnia e passam por vários percalços.

O capítulo final do romance é potencializado com uma força religiosa imensa quando a filha dos Joads, Rose of Sharon, abandonada pelo marido e, tendo recém perdido seu bebê, lembra La Pietá. Rose of Sharon amamenta um homem debilitado pela fome e seu filho. Ao longo do triste romance, acompanhamos a transformacão de Rose of Sharon que passa de uma moça egoista, caprichosa e imatura para assumir um papel semelhante àquele da mãe de Cristo. Tal qual Maria, ela representa a essência da maternidade, nutrindo não somente proteção e conforto mas também o sagrado leite materno. Steinbeck fecha um dos mais celebrados romances americanos, que trata da infertilidade da terra e dos homens, com a metáfora da mulher nutridora. Steinbeck sublinha a idéia de que a generosidade e o sacrificio são as maiores virtudes da mulher. A mulher em As vinhas da ira é dotada de poderes religiosos e redentores.

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Fig. 3 – Rest on the Flight into Egypt, (Anônimo, 1510). Este recorrente motivo pictórico conhecido como “Maria Lactans”, caiu em desuso após o século XVI e, hoje em dia, muitos religiosos consideram de “mau gosto”. “Maria Lactans” foi assunto deste post. Também tratei do poder da imagem da Virgem Maria aqui.

A cena da amamentação em As vinhas da ira auxilia a sustentar a idéia da nação; uma nação que a despeito de passar por uma depressão jamais vista, por uma seca sem precedentes, encontra nos seios de uma mulher, a seiva da Terra Prometida, “the land of milk and honey”.

A mulher, como Simone de Beauvoir (O segundo sexo) e Virginia Woolf (Um teto todo seu) advertem, em muitas narrativas da nação (basta lembrar de Pocahontas, A letra escarlate, Iracema), ajuda escritores masculinos a veicular a idéia da “pátria-mãe”.

Shakespeare e Steinbeck criam duas mulheres caricatas e se utilizam da metáfora da amamentação para fortalecer os dois estereótipos mais importantes na representacão mulher: o anjo e o monstro (ver The Madwoman in the attic de Gubar e Gilbert). Lady Macbeth é a mulher que amedronta, tamanha sua força, ao passo que Rose of Sharon é a mulher que se resigna perante seu trágico destino e, baixando a cabeça, nutre um desconhecido, salvando-o da morte.

Escritores masculinos parecem ter dificuldades em dar conta de mulheres “reais”; em outras palavras, ora as mulheres são suas musas inspiradoras, seus anjos protetores, ora são aquelas que os assombram e que os levam a perdição. Tratei, aqui, da amamentação para ilustrar como uma imagem na literatura ajuda a cristalizar padrões e estereótipos que acabamos por considerar “normais”. Ora, convenhamos, a mulher não é nem anjo, nem monstro.

Como diriam as teóricas francesas Hélène Cixous e Luce Irigaray, quem tem maior legitimidade para falar sobre a amamentação é a “escritura feminina” (l’ècriture feminine), escrita despretenciosamente, a partir da fluída experiência feminina. E, de preferência, (e aqui a metáfora não poderia funcionar mais adequadamente!) com “tinta branca” (white ink), o leite materno.

Então, leiam outros posts que descrevem a poética da amamentação a partir de vários gêneros literários do nosso dia-a-dia: as tragédias e comédias de nossos pequenos e grandes erros, os diários de nossas mais íntimas experiências, enfim, a mais pura poesia do que há de mais sagrado e indescritível na maternidade: a amamentação. 

[Esse post, com pequenas modificações, foi publicado na Blogagem Coletiva da Semana Mundial de Amamentação organizada por Denise Arcoverde, do blog Síndrome de Estocolmo, no ano passado. Na época, eu estava passando uma temporada fora deo Brasil, longe dos meus livros e fiz tudo ‘de cabeça’. Eu também não tinha o público&privado, de modo que a Denise teve a gentileza de abrigar os ‘blogless’ aqui.  Embora eu esteja muito ocupada, com o meu semestre letivo a todo vapor, eu realmente queria contribuir com algo para a blogagem coletiva deste ano — ensaiei algumas linhas, mas me sinto mal em fazer as coisas de uma forma rápida e descuidada, ainda mais considerando a importância do assunto e a relevância da blogagem. Acabei por sucumbir ao texto que escrevi o ano passado mesmo. Veja no site da Denise a lista das pessoas que estão participando.]

Em “Outras” palavras…

Agosto 5, 2007

Em “Outras” palavras…

Uma das vantagens que encontro em ser professora é que, mais do que ensinar, acabo, muitas vezes, por aprender. Principalmente quando estou preparando cursos diferentes. É o caso da minha nova disciplina do curso de mestrado: “Linguagens da Alteridade” — tenho lido muitos livros teóricos que me levam a refletir sobre vários aspectos interligados com questões da alteridade. A minha dinâmica de preparação é mais ou menos assim: vou, aos poucos, compilando tudo no meu HD e as idéias vão se delineando e tomando forma, aos poucos se configurando — por força da necessidade — num formato de “curso”. Não pensem que é coisa rápida: eu fico no início, para variar, como uma barata tonta (ou uma headless chicken, vide o post abaixo), ainda mais porque o conceito de alteridade é muito amplo. Portanto, eu pretendo fazer um recorte restrito que permita que os alunos re-pensem questões de gênero e do póscolonialismo, ambos termos igualmente abrangentes e que serão problematizados à medida que os alunos forem fazendo suas leituras. Os teóricos que eu selecionei são, muitas vezes, contraditórios e refletem bem a condição complexa dessas duas categorias de análise.

Ainda que alguns professores optem por analisar apenas textos teóricos, eu sempre acho proveitoso associar a prática à teoria. De forma que cada aluno terá a opção de desenvolver suas análises a partir de um texto ou filme que se preste para ser articulado dentro de algum aspecto da alteridade.

Enquanto eu vou lendo, vou pensando aqui com os meus botões como as linguagens da alteridade permeiam as nossas relações de uma forma inexorável. Mais do que mostrar aspectos de diferença imbricados em identidades diversas da minha, sobretudo revelam algumas características próprias à minha pessoa, feito um espelho… É por meio do Outro que nós nos definimos — uma verdade, por vezes, surpreendente.

Nesse mundo cada vez mais sem fronteiras, as categorias se complexificam, justamente por se diluirem.  Há muitos tipos de identidades — identidades que se formam e se rompem, apenas para encontrar outras formações; outras que se  fixam e se radicalizam em suas subjetividades.   Estas últimas gravitam ao redor da “tradição“, tentando recuperar a pureza e a cômoda “certeza” de suas formas culturais. Por outro lado, a noção de “tradução” é mais interessante porque pressupõe que as identidades estão sempre em formação e sujeitas às “intempéries” socio-culturais e, assim sendo, aceitam a possibilidade de negociar com outras culturas, se situando num ambiente “híbrido” ou,  num “entre-lugar”, segundo Antonio Candido.

A idéia de ser um “ser humano traduzido” é cada vez mais aceita (e muito benvinda!) num mundo globalizado onde culturas diferentes colidem e, com uma certa boa vontade e uma dose mínima de humanidade, co-habitam. É bom lembrar que o verbo traduzir vem do latim e significa “transferir, transportar entre fronteiras”.

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Imagem: Google Image.