Textos e (con)textos.

Agosto 19, 2007

Acabei de assistir uma mini-série brasileira intitulada Otelo de Oliveira de Aguinaldo e Silva, de 1983. Uma adaptação declarada de Otelo, o mouro de Veneza, Silva reconstrói a clássica tragédia shakespeariana de amor, ciúme e racismo e lhe dá uma roupagem brasileira. Na releitura de Silva, o samba, o carnaval e a macumba servem como pano de fundo para que ele explore, ainda que de maneira pouco satisfatória, questões como o racismo e o conflito de classes. Nada fica anacrônico naturalmente: o enredo de Shakespeare, escrito em 1604, serve muito bem para a sociedade brasileira de hoje, como poderia servir, aliás, para várias outras. Fica óbvio que o excelente musical Otelo na Mangueira que eu assisti no Festival de Teatro de Curitiba de 2006 se inspirou na mini-série de Silva. Daniel Herz (diretor) e Gustavo Gasparini (escritor) desenvolveram e complexificaram as idéias da mini-série. Numa manobra talvez um pouco arriscada, mesclaram a linguagem shakespeariana com sambas clássicos de Cartola e Cavaquinho, e o resultado foi absoluto sucesso da crítica e do público.

Shakespeare não ficaria nem um pouco surpreso ou chocado com o empréstimo de suas obras. Em primeiro lugar porque não havia nada parecido a direitos autorais na sua época.  A prática de empréstimos de textos, de colaboração com outros autores era comum e até esperada. De forma que ele próprio quase sempre se inspirou em vários autores, clássicos e populares, para escrever seus célebres textos. Não há nada mais saudável do que inspirar-se em boas idéias para criar ‘novas’ idéias. Isso me lembrou um trecho paradigmático do romance O nome da Rosa (Umberto Eco) e reproduzo aqui egoisticamente (eu não quero esquecê-lo):

(Guilherme:) Parece-me, lendo esta página, já ter lido algumas dessas palavras, e vê-me à mente frases quase iguais que vi alhures. Parece-me, antes, que este fólio fala de alguma coisa da qual já se falou nos dias passados… Mas não lembro o quê. Preciso pensar sobre isso. Quem sabe tenha que ler outros livros.

(Adso:)Como assim? Para saber o que diz um livro deveis ler outros?

(Guilherme:)Às vezes, pode-se proceder assim. Freqüentemente os livros falam de outros livros. Freqüentemente um livro inócuo é como uma semente, que florescerá num livro perigoso, ou, ao contrário, é o fruto doce de uma raiz amarga…

(Adso:) É verdade, disse admirado. Até então pensara que todo livro falasse das coisas, humanas ou divinas, que estão fora dos livros. Percebia agora que não raro os livros falam de livros, ou seja, é como se falassem entre si. À luz dessa reflexão, a biblioteca pareceu-me ainda mais inquietante. Era então o lugar de um longo e secular sussurro, de um diálogo imperceptível entre pergaminho e pergaminho, uma coisa viva, um receptáculo de forças não domináveis por uma mente humana, tesouro de segredos emanados de muitas mentes, e sobrevividos à morte daqueles que os produziram ou os tinham utilizado. (Eco, 1983, p. 330)   

4 Respostas to “Textos e (con)textos.”

  1. Gi Says:

    Adoro “O Nome da Rosa”. O resto não conheço nada. Eu assisti a esse filme tão pequena… E o mais engraçado é que há certas nuances que eu não captaria hoje em dia assim como outros filmes que vi quando adolescente. O livro deve ser melhor como de costume. Lembra da cena dele revirando cada página (coberta de veneno) e passando o dedo na língua, e revirando e passando? Bela obra. Aliás, fico pensando: será que Eco disse a famosa frase (“o cinema morreu desde que ele deixou de ser poesia”) depois que assistiu a essa adaptação de seu livro? Eu não sei.. Nunca li um livro do Umberto Eco.

    Sobre a releitura de Silva: as obras atemporais têm essa vantagem de fazer com que as pessoas sempre se identifiquem, não importa a época. Eu já gosto de me transportar para o tempo em questão, sem que o “autor/diretor” me “peça” isso.;-)

  2. cris s Says:

    Gi,
    Lembro da cena, sim. O filme é excelente, mas o livro é melhor!

  3. Regina Says:

    Cris,

    Esse espetaculo em Curitiba deve ter sido incrivel.

    Adorei o trecho acima sobre os livros falando entre si. E’ simplesmente poetico.

    Bj

    Regina

  4. cris s Says:

    Regina,

    Foi mesmo. O Festival de Teatro de Curitiba é o mais importante festival de teatro do Brasil e eu fico muito feliz com isso porque eu amo teatro. O evento leva mais de um mês e tem, inspirado no Festival de Edinburgo, um evento fringe, paralelo, com trupes e companhias de teatro menos conhecidas. Tem muita coisa legal do Brasil todo.

    O trecho do Nome da Rosa é fantástico e eu lembrei assim, do nada. E, p/ não esquecer, copiei rápidinho aqui para não esquecer.

    beijocas


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