Shakespeare. Quem mesmo?

Setembro 14, 2008

Shakespeare é um escritor que virou mito e como todo mito, é alvo de mil especulações. Gente que nunca leu nada sobre o Shakespeare, faz declarações as mais incríveis sobre ele e sobre a sua obra (!) . É bem verdade que muitas afirmações são bem criativas e divertidas. Como todo personagem histórico que virou mito, sua vida é vasculhada e sua obra é objeto de uma curiosidade que nem sempre é salutar. Porque verdade seja dita, muito se especula sem nenhuma fundamentação de verdade. Baseiam-se no que ouviram falar ou no que leram em uma dada revista. Shakespeare não existiu. Shakespeare fumava maconha. A Rainha Elisabete era o Shakespeare. E por aí vai.

Acreditem se quiser, mas eu continuo a receber aquele email com o odiado texto “Depois de algum tempo você aprende a diferença…” de suposta autoria de Shakespeare. Já recebi textos de autoria de Brecht como se fossem de Shakespeare. Incrível como essas coisas circulam indiscriminadamente pela net.

Ora, junto com elas circula a absurda falta de conhecimento e questionamento. Talvez um dos maiores pecados da internet.

Shakespeare, para muitos, é símbolo de erudição e cultura. Citar Shakespeare em trabalhos, mesmo das ciências chamadas “duras”, se tornou um clichê e isso é bem compreensível. Da mesma forma, afirmar que “nossa gente, eu a-do-ro Shakespeare!” já virou um lugar-comum, ainda que, confesso, me doa muiuuito aos ouvidos! Se você perguntar questões as mais básicas para a criatura, ela, naturalmente, não sabe responder, justificando que “bem, ele é um autor muito difícil.” Outro dia, um professor me disse: “Shakespeare? Li tu-do dele”. E aí, eu faço – tenho que fazer – a pergunta fatídica: “quais obras você leu”? “Todas, Romeu e Julieta, Hamlet, MacbethRei Lear“. Ora, a criatura tinha lido apenas 10% da obra de Shakespeare… Shakespeare escreveu 40 peças. Fora os sonetos e outros poemas…

Tudo bem, nunca falei aqui, mas vai lá, porque até já fiquei sabendo de aluno que está lendo o meu blog (já que ele é público&privado, eu sei…), sou o que no meio acadêmico chamam de “shakespeariana”, ou seja, uma pesquisadora da obra e da vida de Shakespeare. É que eu estudo o autor inglês seriamente há muito tempo. Compro e leio muitos livros, vou a congressos, escrevo artigos, dou aulas, ministro palestras e até escrevi uma tese de doutorado que deve 50% ao grande bardo. Na realidade, eu escolhi Shakespeare porque nenhum autor ainda me divertiu tanto e me deu um repertório tão incrivelmente variado de idéias, de pensamentos e de personagens tão fascinantes. Ninguém questionou tanto quanto ele. E ninguém chegou perto dele na análise do ser humano. Eu dou aulas sobre a alteridade e freqüentemente me refiro ao Shakespeare para falar sobre o “Outro”.  Shakespeare é incrivelmente contemporâneo. Eu sei, tudo bem, nem todos precisam ter o meu rigor, afinal sou profissional. Mas pode-se – com o mínimo de esforço (leituras ajudam muito) – ter alguma seriedade para não falar tantas bobagens. Ou simplesmente não falar do que não conhece.

Em tempo, para quem possa interessar: Shakespeare NÃO escrevia em prosa, portanto o texto “Depois de um tempo…” jamais poderia ter sido dele. Shakespeare tampouco escrevia textos de auto-ajuda ou manuais de conduta, então aquele textinho mequetréfe NUNCA, jamais de la vie, poderia ter sido escrito por ele. A obra shakespeariana, aliás, é farta em questionamentos e desconstruções de verdades absolutas. E, além de tudo, Shakespeare é apenas um pouco romântico nos sonetos. As comédias e tragédias trazem uma visão bem questionadora do amor e do casamento.

Um pouco de leitura e estudo não faz mal para ninguém. Tem vários livros excelentes sobre Shakespeare em português e, ao contrário do que muitos acham, ele NÃO é um autor difícil.

12 Respostas to “Shakespeare. Quem mesmo?”

  1. adriamaral Says:

    Bah, se eu que não sou especialista da área fico doente quando eu vejo essas asneiras, imagino tu.. rs

  2. Gi Says:

    Eu só assisti a várias versões de “Romeu e Julieta”, fora outras peças e apenas li um livro (Rei Lear) com a tradução de Millôr Fernandes; tudo isso pra dizer que não entendo bulhufas de Shakespeare e o pouco que vi não gostei. “Romeu e Julieta” é fascinante mas acho que gostei mais por que era uma adaptação para o cinema feita pelo grandioso Zeffirelli.

    De resto, conheço esse texto que circula pela internet. Cada uma..😉

  3. Gi Says:

    Ah, fora aqueles filmes do Kenneth Branagh; ele como diretor é ator, não é? Quase dormi. Pode ser que se viesse a estudar mais o autor Shakespeare, de repente, eu mudaria essa primeira impressão.

  4. cris s Says:

    Adri,

    Com o Shakespeare a coisa beira o ridículo. É chocante!

    bjs

  5. cris s Says:

    Gi,

    Mas você é uma pessoa honesta e inteligente e sabe que não precisa usar de nomes para provar qualquer coisa.

    Você não assistiu a versão de Romeu e Julieta de Buz Luhrman? Que tem o Leonardo di Caprio como Romeu? Eu gosto muito da carnavalização do texto. Ficou ótimo! Eu assisti esse do Zeffirelli, claro, um clássico. Tem adaptações/recriações bárbaras de R&J.

    Eu gosto muito do Kenneth Brannagh porque ele é profundo conhecedor de Shakespeare e sabe muito bem o que está fazendo, além de ser um ator excepcional. O Hamlet é cansativo Gi, ele fez algo que ninguém tinha feito, filmar o texto todo. E daí deu mais de 4:30 de filme! Tem que fracionar o filme e assistir em prestações, haha.

    Tenho absoluta certeza que você mudaria de opinião se chegasse a estudar Shakespeare com um bom professor. Há coisas incríveis!!

    beijocas

  6. Gi Says:

    Então.. você, né?! Claro! Professora já tenho. Um dia quem sabe. Eu me interesso por tudo. Se você diz que ele é mestre em desconstruções, já gostei. O que percebi e posso dizer foi a tragédia evidentemente, a profundidade dos sentimentos dos casais e esta antítese muito bem explicada por você. As dissociações deixam angústias. Realmente não é um autor pra qualquer um chegar e ir fazendo adaptações. Há riscos de errar feio.

    Quanto à versão moderna.. Xi.. sou preconceituosa. Nunca assisti. Foi aquele com a Claire Danes meio ópera-rock?

    Obrigada pelo elogio do honesta e inteligente. Tento ser. Não gosto de parecer o que não sou. Só em festas e na maquiagem. hehe

  7. adriamaral Says:

    Eu adoro a versão do Baz Luhrman pelas dicotomias que ele apresentou (tipo, manter o texto fiel mas inovar na estética). Gostei muito de como ele utilizou a trilha sonora tb. No Moulin RougeAcho o trabalho do Kenneth Brannagah bem legal, o Much Ado about nothing é um dos meus favoritos. Mas assim, sao apenas comentários do ponto de vista cinematográfico.

  8. adriamaral Says:

    ops cortei meu comment, depois ele levou isso ao mais extremo (em termos de musical) no Moulin Rouge, era o que eu ia dizer.

  9. Isabella Says:

    Bom, eu estou fazendo um trabalho e então me fiz uma pergunta: Porque Shakespeare é um “personagem” tão contemporâneo? Porque suas obras se assemelham tanto com a nossa vida ATUAL? Poderia me responder a esses qustionamentos? Precisando muito! Iria agradecer, beijos

  10. cris s Says:

    Isabella, há muitas obras que respondem a tua pergunta. Aconselho que leia o livro Reflexões Shakespearianas (Barbara Heliodora), por exemplo, mas tem várias outras que o teu professor pode sugerir. Boa sorte.

  11. Isabella Says:

    ah, muito obrigada! E quanto a obra Macbeth, qual tua opinião sobre ela? Uma tragédia com muitos assassinatos rodiados de ambição. beijos .

  12. cris s Says:

    Isabella,

    Haha, uma pergunta que, naturalmente, não tem resposta no espaço deste comentário!! Como “desvelar” uma obra de arte em três linhas, é isso que você está perguntando??🙂


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