Quando se acha que se pode comprar conhecimento

Novembro 16, 2008

Plágio é um velho problema que eu enfrento na sala de aula.  As escolas deveriam educar os alunos que copiar idéias dos outros é um problema ético e moral que inclusive se configurou como crime e para o qual, inclusive, existe punição. As escolas deveriam trabalhar projetos de pesquisas com os alunos e incentivar o pensamento crítico. No geral, os alunos aparecem totalmente despreparados na universidade, não possuem a mínima idéia do que seja um trabalho de pesquisa. Presume-se, no entanto, que saiam da instituição com sólidas noções, não é? Infelizmente, isso é uma utopia. Para aqueles alunos que  não conseguem cumprir com as suas tarefas acadêmicas, há um outro tipo de recurso: a compra de trabalhos. Hoje em dia, pode-se comprar trabalhos facilmente, o aluno nem precisa encontrar a pessoa que escreveu o trabalho, geralmente um (ex) professor, mestre ou doutor. Pode-se comprar via internet, com um cartão de crédito. Muitos trabalhos são realmente bons, o que evidencia a compra para o professor. Mas o caso é que até alunos inteligentes compram trabalhos. Eu sempre descubro e sempre me sinto profundamente desrespeitada como profissional… Anos atrás, um aluno (lembro do nome até hoje…) comprou uma monografia de final de curso — não tive dúvidas: chamei a figura e bastaram apenas algumas perguntas para confirmar que ele havia comprado o trabalho. Mas sabe o que aconteceu com a criatura? No semestre posterior, “fez” sua monografia sob a orientação de outra professora que aceitou o “seu” trabalho. Quando fui comentar sobre o caso numa reunião de departamento, a sugestão foi deixar passar o fulano, afinal a outra professora não tinha certeza que ele havia comprado o trabalho e ficaria difícil comprovar. Fico possessa com isso, acho um incentivo à mediocridade intelectual, deveríamos lutar acirradamente contra a impunidade na academia. Quando eu comecei dar aulas no mestrado, me senti muito honrada, sem nenhuma pieguice, juro. Foi uma recompensa por uma carreira longa e muito suada. Sempre estudei e pesquisei arduamente e só aprendi a estudar estudando; só aprendi a pesquisar e escrever, pesquisando muito e escrevendo muito.; ou seja, não tem moleza. Acho que essa dureza também foi (é?) compartilhada por minhas amigas professoras e pesquisadoras.  Então, para aqueles que querem embarcar em um mestrado, saibam que a vida vai girar em volta de muita leitura, pesquisa e escrita. E depois só fica pior, acredite, porque você tem que escrever uma dissertação. Escrever uma dissertação de mestrado e uma tese de doutorado exige uma boa dose de humildade, pois é reconhecer que você precisa de muito aprimoramento. Mas, voltando ao assunto, para não ficar um post muito caótico, há dissertações e teses compradas, plagiadas — é só passear pelos sanguões de entrada das universidades para encontrar anúncios, por todo o lado, que divulgam o “auxílio” ou, mais claramente, a “venda” de trabalhos acadêmicos. Ah, e não vem com essa pensando que isso só rola no Brasil, claro que não: o fenômeno está em todo canto, aliás, é impressionante como sites americanos que vendem artigos acadêmicos proliferam. Compra-se conhecimento como se compra uma limonada… E a verdade é que todos têm dificuldade para lidar com o fenômeno e, muitas vezes, ele fica  passa impune. Mas por que diabos uma criatura copia ou compra um trabalho? Por vários motivos, por pensar que não consegue; porque não tem tempo; porque precisa do diploma, mas odeia o curso; porque simplesmente é preguiçosa e vagabunda; porque não “sabe” escrever. (Uma palavrinha para esta última: exercício, meu filho, escrever é um exercício e você só “saberá” escrever se você começar um dia). Meus pensamentos numa tarde de domingo. Pra vocês verem como a coisa é séria.

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Enfim, no fundo, tenho uma mistura de desprezo e pena desse povo — pois, se a compra de um trabalho pode significar a saída da universidade, tenho convicção, aliás, cabe uma enfâse aqui, tenho a plena convicção, que, no mercado de trabalho, a falta de conhecimento e de seriedade irá aparecer mais cedo ou mais tarde. As pessoas acabam por mostrar suas verdadeiras cores. E aí pode ser muito tarde para tentar mudar algo. Too bad.

7 Respostas to “Quando se acha que se pode comprar conhecimento”

  1. JN Says:

    O plágio surgiu no dia seguinte a ter surgido o ensino. Começa cedo e em muitas situações é quase uma “instituição”!

    Claro que, do “olhar para o exame do lado” a comprar uma tese vai uma certa distância, mas o princípio será o mesmo.

    Too bad…

  2. adriamaral Says:

    Cris, o assunto é tão sério que fizemos uma plenária na ABCiber só sobre o assunto mediada pela prfa. Raquel Recuero que teve um paper plagiado por um edital do governo. Leia no blog dela. É chocante. Não tem um semestre em que eu não pegue algum plágio. No mestrado inclusive eu já reprovei aluno por isso, no entanto, reparo que há muitas vezes uma inércia das instituições. Mas por outro lado, tb concordo que isso aparece mais dia ou menos dia na vida profissional (pelo menos é o que quero acreditar) de quem faz isso.

  3. Ana Says:

    Ano passado eu reprovei dois que copiaram o trabalho final da wikipédia ha ha ha. Eles mudavam as palavras mas mantiveram a mesma estrutura e a mesma informaçao. Nessa hora dah raiva…porque eles fizeram uma apresentaçao oral que tava corretinha, mas claro que no trabalho escrito o plagio ficou obvio. Eu acho que plagio existe em tudo que é lugar mas nao acho que esse povo possa ir longe comprando trabalho … A vantagem nesse caso é que com a internet é facil de googlar e achar o plagio rapidinho. E jah vi um causo que eu contei aqui, num artigo pra uma revista onde o cara copiou entrevistas da internet e botou no artigo como se fosse dele…isso foi em nivel de doutorado…mas como nao era um trabalho pra aula, aquilo foi esquecido, acho que o rapaz (que era meio fraco da bola) até defendeu a tese…mas nao acho que ele consiga fazer algo com o tal diploma…Beijocas Cris.

  4. cris s Says:

    JN,
    Você tem toda razão, infelizmente. Deveríamos ser mais punitivos com o plágio e afins. Eu ainda acredito no pensamento “autônomo” e crítico

  5. cris s Says:

    Adri,
    Pois é, infelizmente temos vários casos que comprovam o fenômeno. Eu acho, realmente, que essa falha de caráter aparece, mais cedo ou mais tarde.

    BTW, tô vendo uma coisa aqui e já te passo um email para combinarmos!

  6. cris s Says:

    Ana,
    Que criativos os teus alunos, né? Plagiar a wikipedia, hahahaha. Demorou uns 30 segundos pra você encontrar o plágio, né? hehe. Sério, a coisa é bem grave e eu não gosto de ficar quieta, pois acabo achando que o silêncio é uma espécie de aceitação. Imagino que tenham poucos casos de punição legal e, embora eu e realmente nunca tenha visto isso no Brasil…

    bjs

  7. Gi Says:

    Nossa, então eu tenho chances. Explicando: sou tão honesta que dá raiva. Durante a realização de uma monografia de faculdade me sentia a última das criaturas por copiar alguns trechos do livro (coisa muito corriqueira, porque não tem o mesmo nível de tese) e escrevi e pesquisei bastante e acrescentei várias idéias por conta própria, fiz três análises de filmes. E aí leio esse seu texto e me deparo com essa realidade. Como essas pessoas passam? Tanta gente decente querendo uma oportunidade e indecisa por se achar humilde demais e outras desperdiçando e “queimando o filme na academia”. Que coisa é essa vida…

    Cris, diferentemente de você e da Ana, desconfio (não posso ter certezas, claro) que esses “charlatões acadêmicos” têm bastante chance sim no “mercado” seja ele “prático” ou “teórico” e ainda saem aplaudidos. Evidentemente, isso não é razão para acreditar que a desonestidade sempre vai ganhar. Quando me disponho a fazer algo nessa vida, o faço com muia responsabilidade. Fico impressionada com essas pessoas. Como você disse: “tem que ralar!” Mas ninguém tá a fim. Tenho por mim que a diferença entre aquele estudioso e o que comete plágio é simples: a paixão por aquilo que se faz. Aliás, há uma frase de um bailarino, se não me engano que diz “a paixão diferencia os ótimos dos melhores”.


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