Agora ele

Dezembro 28, 2008

Brilho é algo difícil de definir, porém fácil de detectar: você encontrou alguém brilhante, sabe imediatamente. Fiquei sabendo da morte do Dr Moisés Paciornik há poucas horas e, muito triste, fiquei revivendo algumas lembranças enquanto cuidava do meu jardim abandonado. Eu precisava mexer com as flores naquele momento para processar a informação. O doutor Moisés era um médico e uma pessoa fascinante que tivemos a oportunidade de conhecer muito bem. Não apenas ele foi o obstetra da minha mãe, mas foi colega  de trabalho e amigo do meu pai, ainda que 30 anos mais velho. Esses dois fizeram coisas incríveis juntos – numa empreitada inusitada, passaram anos trabalhando enlouquecidamente pelo estado todo, educando e ensinando as mulheres a fazerem exames preventivos de câncer de mama e útero. Conseguiram quebrar vários tabus e, assim, diminuiram  significativamente a incidência de câncer de mama e útero no Paraná. Meu pai contava, impressionado, que, ao longo de toda a viagem, o Doutor Moisés, sempre feliz e animado, levantava às 5 da manhã para correr descalço – “como os índios”, ele dizia – para depois sair para o trabalho. Na realidade, ele realmente acreditava na filosofia de algumas tribos  indígenas brasileiras as quais ele estudou profundamente e se baseou para difundir o parto de cócoras, o que lhe trouxe conhecimento internacional. Publicou vários livros, muitos sobre o relacionamento médico – paciente e mantinha uma coluna na qual escrevia crônicas deliciosas. A parceria do meu pai com doutor Moisés foi frutífera, dois médicos brilhantes, idealistas e humanitários que acreditavam sem hesitações que podiam melhorar a saúde pública. O doutor Moisés me falou, quando meu pai morreu há mais de trinta anos, que ele nunca esqueceu do dia que conheceu meu pai (e eu nunca esqueci do que ele me contou): “Eu o encontrei no aeroporto. Um menino , praticamente. Ele falava nervosamente sobre como acreditava que conseguiria erradicar a varíola com a nova vacina. Mas, o que me chamou atenção foram os olhos. O brilho nos olhos. Nunca mais encontrei alguém assim.” Interessante, porque ele próprio possuia um brilho incrível no olhar. Eu o encontrei numa padaria pela última vez no ano passado, ele já com seus 90 anos, sempre elegante e sorridente com a gravatinha borboleta. Quando eu publiquei o meu modesto primeiro capítulo no Abril de Shakespeare III, lhe enviei um livro e fiz uma dedicatória que eu já esqueci. Algo afetuoso e inócuo, presumo. Queria ter sido um pouco intrépida à moda deles, esses homens crentes e brilhantes que já não existem mais, queria eu ter lhe dito o quanto eu o admirava. Vai então aqui, assim meio sem-jeito, mas já com uma grande, grande saudade.

rose-garden-dec-081

No meu jardim abandonado.

8 Respostas to “Agora ele”

  1. Edelize Says:

    O Doutor contador de histórias… acho que todas as mulheres de minha família tinham ele como médico! Também estou tristinha…

  2. Ana Says:

    Cris, sinto muito por você, ele fez uma vida bonita e com certeza vai continuar olhando por ti e pelo teu jardim. beijao.

  3. cris s Says:

    Obrigada gurias! Vocês são uns amores. bjs


  4. Puxa, cris, eu sou fã do Dr. Moisés há décadas, o trabalho dele foi lindo e aprendi muito com seus livros. Uma grande perda, mesmo.

  5. Laura Says:

    Poxa, vc me fez voltar ao passado, eu lembrei dele- não o conheci pessoalmente, só o que fazia. Faz tempo…
    São pessoas assim que nos fazem querer ser melhores, vc tem seu pai tb introjetado. Bom isto.
    A morte é sempre triste, a gente não sabe conviver com isto, e pessoas assim não morrem. Ficam na lembrança, nos gestos imitados. Bjs querida, Laura
    No primeiro dia do ano, vamos em frente, olé 2009!

  6. cris s Says:

    Oi Denise,
    Ele era realmente fantástico, em todos os sentidos. Ao mesmo tempo, já estava com 93, apesar de não demonstrar.

    bjs

  7. cris s Says:

    Laura,
    Você tem toda a razão: a morte dos entes queridos e sempre triste. Não adianta dizer que a pessoa já estava velha ou que havia aproveitado bem a vida. Não consola mesmo, somos egoístas por natureza e queremos as pessoas que amamos vivas e, de preferência, próximas de nós. O meu pai foi há mais de 30 anos e ainda dói muito… sinto muito a falta dele.
    beijocas


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