India mania

Fevereiro 23, 2009

Signed, sealed and delivered: o Oscar de melhor filme foi mesmo para Slumdog Millionaire e a Índia – ou, pelo menos uma faceta da Índia, chama a atenção do mundo. No melhor estilo de A cidade de Deus, Slumdog nos dá um retrato realista da Índia, deixando de lado a exploração do exótico e do mítico, que sempre atraiu a todos. Não posso deixar de pensar, no entanto, ao meio de tanto confeti (já que é carnaval) que se joga para o filme  inglês que, nos anos recentes, vemos surgir um gênero relativamente novo no gosto popular: o realismo da favela (por falta de termo melhor) e aí temos dois grandes diretores brasileiros que dominam os mecanismos do gênero: Fernando Meirelles e Walter Salles. Tenho certeza que Danny Boyle se inspirou  pelo ressurgimento do cinema novo no Brasil e o processo que Walter Salles chama de ressensibilização do espectador. Mas chega de digressão e volto para a Índia,  o meu foco neste post, afinal. E tenho que confessar o meu fascínio por este país tão cheio de paradoxos:  meu interesse nasceu quando eu tinha 9 anos de idade e foi alimentado por  livros sobre Shangri-lá e outros do Rudyard Kipling. A “minha” Índia era totalmente envolta em misticismo e se situava em lugares passage-to-india13longínquos como as montanhas do Himalaia e selvas tão belíssimas quanto perigosas. Mais tarde, já com anos de yoga na bagagem, fui  aprendendo sobre as “outras” Índias; porém, nem toda a pobreza e estranheza com hábitos radicalmente diferentes dos meus tiveram o poder de me dissuadir do meu encanto. E por que teria? Um país tão diverso em todos os sentidos, com uma história antiquíssima,  de povos, línguas e religiões diferentes. De forma que continuo lendo escritores que escrevem sobre a Índia, sejam eles indianos ou não. No momento estou literalmente acabando o God of Small Things da Arundhati Roy e já estou de olho no possivelmente próximo livro da minha fila, aqui do meu lado, o White Tiger, que ganhou o último Booker Prize. E para aproveitar toda esse moda indiana aqui no Brasil, por conta da novela Caminho das Índias, adotei o romance do E.M. Forster, Uma passagem para a Índia para uma turma da graduação.

Os alunos adoraram a idéia: é só assim mesmo para a Glória Perez ter algum valor nas minhas aulas. Juro que eu tentei deixar o meu absoluto desinpassage-to-india21teresse pelo mundo das telenovelas de lado, afinal, Caminho das Índias iria tratar da Índia, concordam? Pois não adiantou a boa-vontade, consegui ver apenas o primeiro episódio. O conhecimento limitado que a  Glória Peres exibe fica nítido na versão ultra-romantizada, ultra-glorificada e cheia de estereótipos de uma imagem que ela acha que  é a Índia.  E o problema é o furor que isso causa aqui nessa terra: são os bijuterias “indianas”, as batas, a maquiagem, a música, etc. Mas fora o lado do modismo, que ajuda a financiar a novela, tem o mais sério: as concepções erradas que as pessoas assimilam por conta dos estereótipos que abundam na novela. Daí é uma vergonha: as pessoas acham que a novela é a Índia! Não que eu seja nenhuma especialista na Índia: imaginem, sequer pisei lá! Mas o meu interesse é  genuíno e duradouro e quero pensar que  ele não seja calcado em uma visão monolítica. Escritores como E. M. Forster, Arundathi Roy, Rudyard Kipling, Jhumpa Lahiri, Aravind Adiga, Bharati Mukherjee, Salman Rushdie alimentam o meu imaginário sobre a Índia. Especificamente, E. M. Forster, talvez seja do interesse para este post: escreveu Uma passagem para a Índia, que  trata do mundo conflituoso entre ingleses e indianos, como se ambos fossem separados por uma espécie de purdah cultural. De certa mjungle-book1aneira, Forster faz eco a Rudyard Kipling, autor do famoso The Jungle Book, quando este último afirma: “East is East and West is West and never the two shall meet”. São textos da primeira metade do século XX, época, de fato, de muitos conflitos, principalmente com relação aos desfechos da presença britânica na Índia. Quanto à questão Oriente x Ocidente, gosto de pensar que a literatura tem a possibilidade de nos tornar um pouco mais humanos e, por conseguinte, mais abertos ao Outro.

indian-lit

10 Respostas to “India mania”

  1. Laura Says:

    Eu não vi o filme mas desconfio dos americanos, sempre.Tantos prêmios…sei lá.
    Qto à novela tb aconteceu o mesmo,não consigo ver- é chata,artificial demais e além do mais o galã… faz favor…
    bjs querida, Laura

  2. adriamaral Says:

    Laura: o filme é inglês e não norte-americano

    Cris: eu tb não aguentei, achei muito chata a novela, só estereótipo e dos piores possíveis!

  3. Cris S. Says:

    Laura,

    Odiei profundamente a novela. Eu até queria assistir pra fins de análise, mas não dá mesmo. Como a Adri comentou, o filme é inglês. Não tem jeito de filme americano, vá assistir sem medo hehe.

    bjs

    Adri,

    Bem que você disse que a novela seria horrível. Eu achei que pudesse suportar, mas não deu. ODIEI! Mas é uma pena porque eu vivo querendo escrever um paper sobre os estereótipos das novelas. Pelo jeito, nunca vou conseguir haha.

    bjs

  4. Ana Says:

    Puxa Cris, mas a novela soh vai ficar boa quando ela começar a colocar em cena os blogueiros ha ha ha. Adorei o post, mas infelizmente o povo (digo classe média e classe média alta) em vez de ler qualquer coisa que seja sobre a India, prefere ver novela. Tô esperando a GP fazer uma novela sobre as “Africas” vai ser um capitulo sobre a circuncisao feminina, outro sobre a poligamia, elefantes, leoes🙂 beijocas.

  5. cris s Says:

    Ana,

    Haha, pura verdade: uma novela com os blogueiros ia ser o fino da bossa! Quanto à novela em questão, o povo vai ficar com essa versão ultra errada e limitada da Índia porque ninguém lê mais. Livros são coisas obsoletas e a minha profissão também!! Você iria ficar enlouquecida se eles fizessem uma versão África haha.
    beijos querida

  6. bellavida Says:

    Oi Cris, que ótimo seu post! Eu passei a me interessar pela Índia desde 2002 quando fui trabalhar no setor de informática do Organismo Internacional onde já trabalho há 11 anos e conheci muitos indianos. Acho o trabalho da Glória Perez muito interessante e fico pensando se um indiano fosso fazer uma novela sobre o Brasil, um país tão grande e diversificado como o nosso, o que ele(a) escolheria para nos retratar. A Gloria Perez deve ter tido que fazer as escolhas dela e, o fato dela trazer um outro país pra dentro do nosso, em horário nobre, é um feito!
    E pelo pouco que absorvi dos meus colegas indianos, a GP não está tão errada assim. Sabe que ela mostra na novela o que os colegas ocidentais mais tiram fotos quando vão a Índia a trabalho? O trânsito caótico, as cores, o Taj Mahal, a pobreza…

    Tb acho uma pena que as pessoas não leiam mais… Eu sempre li muito e só hoje me dia encontro, aqui a blogesfera, pessoas com a mesma paixão.

    Quanto a desconfiança da Laura, pode ser puro preconceito contra o povo americano. Eu moro nos EUA há 9 anos e não dá pra generalizar um país tão grande. Assim como a Índia, assim como o Brasil…

    beijos

    Quando vi Austrália fiquei pensando

  7. bellavida Says:

    ah, quando vi Austrália fiquei pensando se todo australiano é tão preconceituoso com os aborígenes… Eu até escrevi no TQG que seria o mesmo que estrangeiros pensassem que o Brasil se resume a uma Cidade de Deus… Acho que tanto a questão dos aborígenes, quanto tudo que foi abordado em Cidade de Deus, são partes de uma realidade da qual não fazemos parte, que não entendemos…

  8. cris s Says:

    Isabella,

    Primeiro: eu realmente respeito a tua opinião. Segundo: pelo meu post fica bem claro que temos opiniões divergentes sobre telenovelas e especificamente sobre a novela em questão. Acho o trabalho da Glória Perez altamenente simplista e essencialista e, desculpe-me, porém não acho nenhum valor no fato da novela mostrar alguns poucos landmarks turísticos da Índia (há muitos, muito mais templos e monumentos na Índia do que o Taj, obviamente); muito menos há valor em mostrar as favelas, mesmo porque não há como escapar das favelas e da pobreza na Índia. É um roteirinho básico do turista. Respondendo a tua pergunta, não acredito que se possa passar a complexidade da Índia como um todo, naturalmente. Mas pode-se representar aspectos da Índia de uma forma mais rica. Foi o caso de Slumdog, que retratou a vida das favelas de Mumbai. Fico chocada com a política de representação do “outro”, do “exótico” e, especificamente da mulher que a Glória Perez faz. Em certos aspectos a objetificação feminina é algo chocante e aparece de forma “normalizada”, mas deixa pra lá…
    Quando a possibilidade de indianos fazerem um filme/novela, etc sobre o Brasil, por que não? Seria um trabalho super desafiador, sem dúvida nenhuma. Ah, trabalhei durante anos com dois indianos para uma empresa japonesa e tinha uma amiga indiana na Inglaterra que frequentava o mesmo book club, o que não quer dizer praticamente nada!🙂 Senão vou contar também que que tenho um Salwar kameez e que faço o meu próprio curry (assim como a maioria das Indian households) há anos. Conta?

    bjs

  9. cris s Says:

    Isabella.
    O comentário sobre filmes americanos, etc. feito pela Laura é muito comum, como você deve saber. Do meu lado, sou casada c/ um americano, dou aulas sobre língua, cultura e literatura norte-americana, viajo bastante para os EUA e não tenho o menor preconceito com americanos, needless to say. Só não gosto de visões colonialistas como um todo, apesar de isso existir em todo o canto. Inclusive nos EUA.
    Agora, no caso de Cidade de Deus, achei fantástica a representação realista da favela, justamente porque faz com que pessoas críticas tenham a possibilidade de conhecer mais e entender as complexidades da questão. A mesma coisa com os aborígenes, etc.

    bjs (and absolutely no hard feelings, O.K.?)


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