Archive for the 'cinema' Category

Uma bússola (não tão) dourada.

Dezembro 8, 2008

Lá vem cliché — mas convenhamos que os clichés exercem sua função — o filme não tem o mesmo alcance que o livro.  Não se trata do velho debate de que filmes baseados em livros tenham que ser tão bons como os livros, sequer se trata de uma questão de fidelidade à fonte. Não é isso — uma adaptação, seja ela fílmica, cênica, etc, é uma outra coisa, filme é filme e livro é livro, algo óbvio, mas nem sempre observado. Um livro e um filme são sistemas de representação regidos por seus próprios códigos e especificidades. Nem vou entrar no lado técnico e observem que eu apenas falei que o filme  ficou muito a dever do alcance estético do livro. E é justamente isso que frustra grandes fãs como eu que  sou fã de carteirinha do Philip Pullman e naturalmente li a trilogia His dark materials. Além da trilogia, li um livro sobre a ciência por trás do livro, The Science of Philip Pullman’s His dark materials, e fiquei fascinada com vários conceitos da física quântica e dos mundos alternativos que permeiam a narrativa de Pulman.  Depois li o Darkness Illuminated e o Darkness Visible: inside the world of Philip Pullman, o primeiro sobre a produção teatral e  o segundo sobre o autor e  a sua ficção, respectivamente. Mas, mais legal do que as minhas investidas de leitura na e sobre a obra de Pullman, foi que, em fevereiro de 2005, assisti a colossal adaptação teatral do His dark materials I e II no National Theatre (Londres) – foram 2 seções de três horas cada e nem deu para cansar. Eis a prova que o livro não precisa reinar sempre nas nossas preferências, essa produção foi premiada até dizer chega e alcançou o maior sucesso de público e crítica do aclamado teatro londrino. Mas vou falar um pouquinho sobre o livro e tentar dar idéia da magia do sucesso estrondoso da trilogia do Philip Pullman. É até fácil de detectar, ainda que seja compreensivelmente difícil de executar. Com uma leitura que flui deliciosamente, o enredo mescla física, aventura, mistério e magia com o velho e indefectível tema do bem versus mal, só que de uma perspectiva  iconoclasta. O bem é incorporado pela orfã Lyra que ganha o direito de possuir a incrível bússola dourada (o aletiômetro), instrumento que possui o poder de revelar a verdade. Lyra, acompanhada de seu daemon, empreende uma viagem ao Polo Norte a fim de resgatar seu amigo Roger Parslow, que havia sido seqüestrado pelas forças do mal. A busca é fascinante pois ela tem que enfrentar as Feiticeiras do Norte, os Ursos Polares e mil outros seres fantásticos. No final das contas, como nas narrativas clássicas, essas viagens e a própria busca, se tornam um dos leitmotifs centrais da narrativa. Porque o simbolismo da busca (quest) e da viagem é algo intimamente mítico, cuja força toca todos nós: a vida é uma grande narrativa de viagem e busca, lembrem da Odisséia e de Ulisses (e de milhões de outros textos semelhantes, clássicos ou não).  Talvez seja principalmente aí que o filme encalha e não sai da lama, a despeito dos esforços excessivamente plásticos (bottox and all) de Nicole Kidman. Do Daniel Craig,  que faz o papel do Lord Asriel, pesquisador da Universidade de Oxford, nem vou falar porque ele não merece nem o meu tempo digitando, basta dizer que o grande ator  da versão teatral, David Harewood, dá um banho de interpretação na atuação insípida e sem personalidade do Craig, aqueles que assistiram o  007 Quantum of Solace sabem o que estou falando. Enfim, me dei conta que não vou conseguir explicar tudo o que eu quero sem escrever um artigo, o que talvez não seja má idéia!

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De qualquer maneira, talvez a maior riqueza de His dark materials seja a de nos transportar a esses mundos imaginários que nos fazem sentir um pouco como a brava heroína.  Lyra é capaz de ir aos confins do mundo  e enfrentar seus próprios medos para resgatar seu amigo.  Falando assim parece simples, não é mesmo?  Não é fácil traduzir em um resumo a multiplicidade de mundos e realidades alternativos que co-existem paralelamente. Mundos habitados por ursos gigantes e guerreiros mínimos, porém perigosíssimos. Anjos e daemons, estes últimos provavelmente a criação mais original (e encantadora!) de Pullman,  animais que são a personificação de seus donos, a alma da pessoa. E isso é apenas o começo, a viagem que a menina Lyra empreende a leva a um universo subterrâneo  obscuro (dark) que tem clara ressonância com O paraíso perdido de John Milton. A escolha do título da versão fílmica, que deixa a idéia do obscuro de lado, presente no título do livro e essencial na trama, His dark materials, prioriza a bússola e simplifica um enredo com uma estrutura intricada. Tudo bem, como poderia o cinema dar vida à esse mundo rico de magia, mito e fantasia? Bem, o teatro pôde, ao vivo, real time. Eu vi.  O cinema, desta vez, fez feio.

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Produção teatral do National Theatre, Londres. Adaptador para o roteiro cênico: Nicholas Wright, Diretor: Nicholas Hytner. Sobre o sucesso da produção, leia aqui.

Informações e ficha técnica sobre o filme, Uma bússola dourada, clique aqui.

P.S. Eu escrevi este post há um ano, dezembro de 2007, quando o filme foi lançado. Ele estava incompleto e não me deixou satisfeita porque eu queria falar muito mais. Hoje me deparei com ele, fiz algumas adições e resolvi por bem publicá-lo no blog antes que o Uma bússola dourada II seja lançado.

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Lost in “Lost”

Junho 21, 2007

Confesso, acabei sucumbindo, ainda que com um pé atrás: estou grudada na TV assistindo “Lost”.

Embora eu continue achando que “Six Feet Under” seja bem melhor, “Lost” é um seriado muito bem arquitetado. Obviamente não é nenhuma obra-prima, mas mantém a atenção em todos os momentos e consegue deixar o telespectador curioso para o próximo episódio. Ontem acabamos de assistir a primeira temporada e hoje começamos a segunda. 

Fico pensando no que reside o appeal de “Lost”. Além de interpretações bem convincentes, há a irresistível idéia de que o destino faz sentido, até mesmo quando um acidente de avião deixa um bando de sobreviventes que parecem ter sido pré-determinados, por uma ordem maior, a ficar na ilha para aprender mais sobre si próprios. Até agora deu para conhecer melhor alguns dos personagens e, por meio dos flashbacks, vemos que nenhum deles teve um passado, digamos, “light”. De uma maneira ou de outra, cada um está lá para dar conta de algo que fez no passado. Junto com a questão do destino, há outras paralelas que vão se complementando. A capacidade que o ser humano tem de aprender e se adaptar a situações jamais pensadas fica evidente desde o início. Os mais fracos vão logo perecendo e a lei darwiniana impera. Ao longo dos episódios, os personagens vão criando feições mais interessantes e as relações entre eles vão ficando mais complexas.  No final das contas, todos nós gostamos de escutar as mesmas histórias. Com pequenas variações.

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O mistério da ilha é obviamente parte do suspense e algumas coisas me soam bem forçadas, mas tudo bem. Vou tentar levar como um entretenimento leve e não ficar interpretando tudo (será que dá?). É verdade que eu sou super crítica e que é muito difícil não ser, com tanto trash movie por aí.  Aliás, hoje saiu a lista dos 100 melhores filmes de todos os tempos do American Film Institute e o que salta aos olhos é a ausência de bons filmes na atualidade. Estamos, definitivamente, num período de estiagem no cinema. Incrível, com tantos recursos e possibilidades, pensaria-se que o cinema fosse se enriquecer. Mas em tempos de pobreza d’alma, podemos esperar o quê?

Por isso mesmo, enquanto não há nada fantástico no cinema, o melhor talvez seja se perder pelas trilhas tortuosas da ilha de “Lost” e dar crédito à criatividade dos diretores, que, pelo menos, são competentes o suficiente para manter o nível de suspense vivo. Pelo que eu leio por aí, parece que a trama ganha mais densidade. Então, ótimo. Já que eu não posso curtir a incomparável vitalidade do teatro inglês que eu tanto amo, tudo o que espero no momento são algumas horas de um seriado inócuo na TV.

O delicioso filme “Miss Potter”

Maio 10, 2007

Adorei o filme sobre a vida da criadora do Peter Rabbit e de outros personagens inesquecíveis. Beatrix Potter (1866-1943)nasceu na Inglaterra vitoriana e enfrentou com firmeza e doçura uma sociedade patriarcal, na qual as moças burguesas eram educadas exclusivamente para cuidar do bem-estar do marido e dos filhos. Foi uma época de grandes turbulências sociais que trouxeram modificações importantes para a mulher. Até a virada do século XX, o movimento das sufragistas já havia angariado várias conquistas, dentre elas o direito à herança e ao divórcio. Como Beatrix Potter morreu em 1943, ela teve a sorte e a oportunidade de colher todos os frutos do seu incrível sucesso como escritora e ilustradora. Com sua fortuna, foi adquirindo fazendas na Região dos Lagos e se tornou uma das primeiras preservadoras de uma região que poderia ter sido destruída pelas indústrias da área.

Acho legal lembrar que até o século XIX, principalmente, a grande maioria das escritoras usava pseudônimos masculinos ou até publicava anonimamente para conseguir entrar no mercado editorial. O grande escritor, era sempre associado à figura do “criador”, ou seja, do “pai” da grande obra. É incrível ver como essa associação ainda perdura no inconsciente coletivo, de forma que quando fala-se dos “grandes mestres” da literatura, poucas ou nenhuma mulher são lembradas. Mas não precisamos voltar tanto no tempo – infelizmente, várias edições de coletâneas organizadas por mulheres, trazem apenas o sobrenome. Aliás, para falar de um exemplo recente e bem conhecido, R. K. Rowling, a autora de Harry Potter, foi aconselhada pela editora Bloomsbury a usar apenas o sobrenome, uma vez que Harry Potter é um livro de aventuras de um menino e, presumidamente, perderia a sua ‘autor-idade’ se os pequenos (e grandes) leitores descobrissem que o autor era, na realidade, uma autora, a Joanne. Foi uma estratégia de marketing que ilustra muito bem como as coisas ainda funcionam no mercado editorial. A questão da mulher como escritora não é a tônica de Miss Potter, ainda mais porque Beatrix escreve e ilustra ‘livrinhos infantis inócuos’, com ‘bichinhos engraçadinhos’, que não se configuram como “alta literatura”.  

A fotografia do filme é linda, principalmente nas cenas filmadas no Lake District, a região dos lagos, que fica entre o norte da Inglaterra e Escócia. A beleza do lugar é realmente de tirar o fôlego e a fotografia faz juz à paisagem. Mas encantadora mesmo é “Miss Potter” e sua incrível imaginação que transforma coelhos, gansos, porcos e outros animais em alguns dos personagens infatis mais memoráveis da literatura de língua inglesa. Era uma das leituras mais apreciadas pelas minhas filhas (e por mim, que lia em voz alta para elas, tentando dar vida aos adoráveis personagens!). Vale mencionar que a reconstrução da época é impecável e que a atuação de Renée Zellweger como Beatrix é totalmente convincente. Um filme, sem dúvida nenhuma, delicioso.  

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“Once upon a time there were four little Rabbits, and their names were — Flopsy, Mopsy, Cotton-tail, and Peter.”

O Oscar de Scorsese.

Fevereiro 26, 2007

A cara do Scorsese é a própria caricatura, não? E a voz então? 🙂

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fonte: Cagle Cartoons

Helen Mirren: uma verdadeira rainha.

Fevereiro 13, 2007

Helen Mirren dá um show de interpretação em A Rainha. Eu, que sou uma crítica assumida, por natureza, pela posição dos astros e por força da profissão, assino em baixo: ela está espetacular no filme. Não é fácil estabelecer uma relação de intimidade tão grande entre o espectador e uma rainha distante, fria e, para muitos, antipática. A performance de Mirren nos transporta para os aposentos pessoais da rainha e nos leva a vivenciar os conflitos de uma monarca dividida entre o dever público e o dever privado (tema também abordado em Elizabeth I).  Somente uma performance tão apurada quanto delicada, pautada no gesto, no olhar e no silêncio poderia alcançar vôo tão alto. Helen Mirren, que no mesmo ano havia encenado Elisabete I, uma rainha infinitamente mais interessante e importante para a história da monarquia inglesa que a Elisabete II, é uma atriz com “A” maíusculo, e sabe muito bem, que encenar não é algo para novatos, tampouco para aqueles que se apóiam na infâme e frágil “intuição”. Como muitos de seus colegas britânicos, tais como Vanessa Redgrave e Judi Dench, Mirren faz parte de uma sólida tradição de atores que passam anos a fio estudando a história da dramaturgia, a estética do gesto, a técnica da voz, a articulação das palavras (até mesmo, para não articulá-las bem, se assim o papel exigir). Atores como Mirren, aprenderam a interpretar todos os tipos de papéis: dos mais clássicos até os mais, na falta de palavra melhor, mundanos. E mostram como a arte da encenação é, como todas as artes, algo laborioso. Que tem muito mais a ver com a transpiração (leia-se trabalho árduo) do que com a inspiração.

O que importa a realeza inglesa nestas alturas? Pouco ou nada. O espectador não precisa ser inglês, nem ter interesse ou conhecimento prévio para entender que ele está diante de uma verdadeira rainha.

[Aplausos]

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“Volver”

Janeiro 24, 2007

No post abaixo, comecei a discutir a delicada questão que é o relacionamento entre mãe e filhas. Não tenho tempo para desenvolver, então deixo este vídeo que captura um momento do excelente filme Volver. É uma cena bela e emocionante, na qual a mãe de Raimunda (Penélope Cruz) “retorna dos mortos” para vê-la depois de mais de vinte anos.  É claro que a Penélope Cruz não é nenhum Carlos Gardel, o compositor de “Volver”, mas o que está em questão aqui é este retorno, um “volver”. E os retornos são geralmente episódios muito bonitos, carregados de muita dor, esperança e amor.

Reparem no vermelho que domina a cena. Raimunda, sua filha e sua mãe vestem vermelho, apontando à ligação visceral, de sangue. Vermelho também é a cor da força e da paixão. Uma cor que não vai apenas decorar belamente o filme ou os lábios das personagens, vai também ilustrar a morte e anunciar a vida. Há uma cena na qual Raimunda acaba de matar o marido e está com as mãos cheias de sangue. Subitamente chega o vizinho, e quando ele pergunta sobre o sangue, Raimunda, sem pestanejar, responde: “Coisas de mulher”. Fantástico.

Abaixo, a transcrição da parte de “Volver” que Penélope canta no vídeo:

Tengo miedo del encuentro
con el pasado que vuelve
a enfrentarse con mi vida.

Tengo miedo de las noches
que pobladas de recuerdos
encadenen mi soñar.

Pero el viajero que huye
tarde o temprano
detiene su andar.

Y aunque el olvido
que todo destruye
haya matado mi vieja ilusión,

guardo escondida
una esperanza humilde
que es toda la fortuna
de mi corazón.

Volver
con la frente marchita
las nieves del tiempo
platearon mi sien.

Sentir
que es un soplo la vida
que veinte años no es nada
que febril la mirada
errante en las sombras
te busca y te nombra.

Vivir
con el alma aferrada
a un dulce recuerdo
que lloro otra vez.

“Babel”, ainda.

Janeiro 22, 2007

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 Nos comentários feitos no post sobre Babel, abaixo, a Denise observou que o filme também recebeu muita crítica negativa. Acabei de fazer uma breve pesquisa e, ainda que a maioria dos críticos de cinema tenha tecido elogios ao filme, há vários que criticam Babel. O que significa que eu não sou uma voz isolada, apenas meio mal-informada (vide ítem 3 do post “Dez razões para você NÃO escrever uma tese de doutorado)!! 🙂 Ainda bem que avisei. Enfim, para aqueles que se interessam:

  • David Denby, do New Yorker, fala o seguinte: “Iñárritu has enough talent to shake up conventional moviemaking. But he still hasn’t figured out how to use it.” [Iñárritu tem talento suficiente para abalar a cinematografia convencional. Mas ele ainda não entendeu como usá-lo]. Leia a continuação da crítica aqui.
  • Essa é do Enrique Buchichio do Uruguay Totall: “Si algún mérito tiene González Iñárritu (además de la conducción de un buen elenco) es el de haber sido capaz de dar a una película menor y pretenciosa la forma de un cine supuestamente original e importante”. Leia mais aqui.
  • Um das críticas mais agressivas é de Peter Bradshaw do excelente jornal The Guardian. Olhem só: “…Babel [is] the exasperatingly conceited new film from Alejandro González Iñárritu. It is well acted and handsomely photographed, but still extraordinarily overpraised and overblown… The script is contrived, shallow, unconvincing and rendered absurd and almost meaningless by a plot naivety that is impossible to ignore once its full magnitude dawns on you.  [Babel é o novo filme, desesperadamente convencido, de Iñárritu. Ele é bem encenado e com uma fotografia bela, mas é exageradamente elogiado e inflado… O roteiro é forçado, raso, não-convincente, tornado absurdo e quase sem sentido por uma inocência do enredo que é impossível de ignorar, uma vez que a sua enormidade se apresenta.] Leia mais aqui.

Obs. Os erros e escorregadas da tradução são meus. 🙂

“Babel”: uma verdadeira decepção.

Janeiro 20, 2007

Também, com um título destes, o que se poderia esperar? A história da Babilônia? Ou da mítica Torre de Babel, construída para ser um verdadeiro caminho aos céus? Desde a história da torre, os deuses mostraram que a arrogância do homem não passou impune e a destruiram. E tampouco deve passar incólume o pretencioso filme Babel, do diretor mexicano Alejandro Iñárritu.

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Não há como negar que a atuação dos atores é excelente, ainda que os elogios ao Brad Pitt pós-angelina sejam desproporcionais. Impressionante, realmente, foi a atuação da atriz japonesa Rinko Kikuchi.  A fotografia também merece crédito: o deserto de Marrocos com suas  ‘excentricidades’ foram bem retratados; os arranhacéus, a loucura e os barulhos ensurdecedores da megalópolis Tóquio, estão todos, devidamente, presentes. Não há, tampouco, o que se possa criticar das cenas mexicanas. A não ser, talvez, uma previsibilidade irritante.

As quatro complexas tramas, ‘magicamente’, se entrelaçam e, como quase todo filme pseudo-intelectual, é claro que tudo fica no ar, porque, afinal de contas, tudo sempre “tem” que ficar no ar, no mundo.  As perguntas ficam sem respostas e os conflitos são expostos por si só. Pela simples — ó céus! — beleza de existirem. Então é o seguinte: no meio do deserto marroquino, numa brincadeira com o irmão, um menino dispara uma bala que atinge uma turista americana, detonando uma crise internacional. Enquanto isso, na América, a babá mexicana acaba por levar os filhos do casal americano para o casamento do filho no México. No outro lado do globo, no Japão, conhecemos o mundinho silencioso de uma teenager surda-muda, cujo pai havia ofertado o rifle para o seu guia no Marrocos. E o filme é narrado num vai-e-vem entre os continentes. Alternando línguas, músicas e paisagens. Acontece que há muito mais em cada trama. Acontece que, desculpem-me se sou muito crítica, mas cada uma delas daria um filme.  Iñaárritu, diretor dos excelentes Amores Perros e 21 gramas parece ter esquecido que um bom filme é sempre resultado de uma história bem narrada, que, geralmente, se desenvolve a partir de um conflito apenas, para criar um universo complexo a partir daí. É por isso, por exemplo, que Crash, para lembrar de um exemplo fresco na memória, é um filme fenomenal. Ele gira em torno de um conflito e dá conta de um tema cuja complexidade não poderia ser dividida com outros temas. Crash, usa de uma forma narrativa clássica, da mesma forma que as mais belas e complexas composições musicais possuem variações criativas sobre um tema.

Ora, Babel quer fazer tudo ao mesmo tempo: falar sobre conflitos entre casais; sobre a paranóia do nosso mundo com o terrorismo; sobre a complexa relação de uma filha surda-muda com o pai; sobre crescer sem a figura materna; sobre a absurda política de imigração estadunidense. E mais, senão não faço juz à ‘complexidade’ do filme,  Babel promove a idéia lugar-comum que no nosso mundo pós-moderno, ultra globalizado, ninguém se entende, que todos somos limitados e falíveis (como se esse não fosse um dos temas mais recorrentes da história da humanidade desde os primórdios dos tempos…). Que, a despeito de línguas, paisagens, músicas e roupas diferentes, somos todos, “iguais”…

Sabem o quê? Eu acho que Babel fala com excessiva pretensão. Quem pretende muito, faz pouco. E eu fico, então, como uma voz isolada aqui? A criticar o filme que está recebendo todos os louros? O favorito para o Oscar? Repito, não há nada, mas absolutamente nada, como uma “bela história bem narrada”. É óbvio que isso não significa filmes hollywoodianos simplóides e clonados onde tudo acaba bem. Ou que tem que ter começo-meio-fim, em linearidades artificiais. Um filme tem que ser algo esteticamente “orgânico”. Essa função essencial da narrativa cinematográfica parece ter sido definitivamente ignorada em Babel.