Archive for the 'ficcão' Category

The real me.

Agosto 19, 2007

The sky from my window ain’t always

sunny and gay

but that’s where

I’ve been and

where

I wanna be.

arizona-from-my-window.png

Desert, stormy clouds, a bumpy road:

Like it or not babe,

(ride with me on the fast lane!) 

that’s the real me.

Foto: minha (indo de Phoenix para Sedona)

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Era uma vez um roseiral…

Maio 15, 2007

Era uma vez um velho roseiral que crescia forte e sólido e de cujas hastes brotavam lindas rosas que enfeitavam a porta da entrada de uma casa antiga. Ali ele vive há três gerações: três gerações de mulheres, o roseiral insiste em adicionar. Porque, apesar de muitos homens terem entrado e saído por aquela porta — alguns para nunca mais voltar — o comprometido roseiral, sobrevive, principalmente, para acompanhar a vida dessas mulheres, tão diferentes, e, ao mesmo tempo, tão parecidas.  Afinal, que graça tem em ser um frondoso roseiral, se você não consegue desenvolver a capacidade para passar os teus dias refletindo sobre a vida de alguém? E, quanto à sua escolha, sejemos justos, a vida dessas mulheres era incomparavelmente mais interessante do que a dos homens que ele havia conhecido. Ao longo de todo esse tempo, ele se admirou com as transformações daquelas mulheres, tentou entender o lento crescer, o amadurecer e o envelhecer. Triste, se enterneceu com o inesperado endurecimento, chorou com as lágrimas furtivas, mas, também, sorriu, aliviado, com o olhar terno. Quantas palavras ditas, quantas alegrias e quantas tristezas. E o roseiral, dia após dia, memorizou tudo em sua cabeça de roseiral, até que a vida daquelas mulheres se tornou a sua razão de existir. Porque, verdade seja dita, o prazer dele era contar tudo, com os devidos detalhes e exageros, para os pequeninos botões que dele brotavam e desabrochavam. Aos poucos, então, tornou-se um excelente contador de histórias e tecia belas narrativas sobre aquelas estranhas e fascinantes mulheres: as rosas, curiosas como somente as rosas o sabem ser, suspiravam com os romances, surpreendiam-se com as aventuras, e sofriam com as desgraças das três mulheres. Uma era a avó, a segunda a mãe, e a outra, a neta. 

O roseiral, a despeito de si próprio, admite que suas rosas têm um quê de superioridade, que, quando não primam pela cor, se exibem com as suas fragâncias fortes e exóticas, deixando todo o jardim com um certo cíume. E o roseiral tem toda razão, não há como privar as rosas de sua beleza voluptuosa, de seu desabrochar impetuoso e de sua fragância inebriante.  Por motivos escusos, que escapam o entendimento do sábio e curioso roseiral, os espinhos crescem e, machucam pequenas mãos (provavelmente, da filha da neta, o roseiral não tem certeza e nem tudo pode saber!). Enganam-se os que pensam que os espinhos são uma proteção para as rosas: as mãos da avó e da neta eram deveras destras e sabiam, muito bem, se defender dos espinhos.

O último botão que nasceu, com a força adquirida do sólido roseiral, sobreviveu duas tormentas e alguns dias de frio. Se tornou uma linda rosa. E seguindo o destino das rosas, cresceu linda e orgulhosa de si, esperando o dia certo de mostrar o seu esplendor. Depois de uma noite fria, logo com os primeiros raios de sol, ensaiou o seu desabrochar, e, ao meio-dia, toda faceira, abriu suas pétalas, atraindo borboletas, abelhas e alguns olhares. Linda e majestosa, reinou um reinado curto no jardim daquelas mulheres, que já nem às rosas prestavam mais atenção.

Naquele domingo à tarde, para a surpresa do roseiral, a neta, que há muito não aparecia, entra apressada pela porta. Quanto amor, quanta história, quanto coisa para falar e quão pouco foi dito: a neta sequer se senta. O roseiral pressente tudo, lembra da história da neta, lembra da história da avó… e chora pelas duas — a vida do roseiral, naturalmente, não havia passado incólume àquela separação forçada. A neta, embora visivelmente emocionada, tenta, ao mesmo tempo, esconder sua emoção e olha para a rosa na saída. Pois a neta é fascinada por flores e muito havia se servido das rosas mais bonitas do roseiral, que por vezes até se ressentia. Mas, generoso, o roseiral deixou todo o ressentimento de lado;  conhecendo a neta como ele conhecia, conhecendo a vó como ele conhecia, ele faz o esperado sacrifício: relaxa e verga a sua haste para a mão enrugada e levemente trêmula, que, habilmente, corta a flor na primeira tentativa. A mais bela rosa é ofertada à neta. A neta, por dois segundos, esquece tudo: fecha os olhos e leva a rosa aos lábios e sente (isso é o que o roseiral imagina!) o aroma mais maravilhoso que jamais sentiu. O roseiral fica feliz, muito embora tenha perdido uma de suas mais belas criações. O roseiral cumprira a sua função.

rosa-da-vo.png

“Of all the flowers, methinks a rose is best.” (Shakespeare)

Self-portrait

Abril 18, 2007

“Ekphrastic portrait” 

Face unknown,

the page behind and between

eyes barely seen

(Forget the easy rhyme)

— now, a touching moan — 

I see, I see,

reads the (blind) woman.

Lustful glassy eyes,

 living a lie,

loving this long lasting line

of ludicrous al-liter-ation.

(What – ever)   

giuseppe-arcimboldo-the-librarian.png

The Librarian (Giuseppe Arcimboldo)

Casa própria.

Fevereiro 25, 2007

Suas histórias sempre acalentaram o desejo da casa própria. Leve para o lado metafórico (que é muito belo, eu sei) e pelo lado literal (que é muito digno também, eu sei). Ele, do lado norte do globo, na América ou na Europa. Ela, peralambundo alguns anos por lá, mas, na maior parte do tempo, por aqui, do lado de baixo do Equador, onde nem todo pecado é pecado, nem tudo que é nobre, é nobre. Os dois lutando pelos mesmos direitos e sonhos, de maneiras diversas.

Hoje, o almoço descompromissado de domingo com o indefectível frango assado.  Mas, noblesse oblige, e a nobreza há de servir pelo menos para a culinária, o frango assado é realmente muito bom, com as ervas próprias, frescas; feito sem preguiça, e, portanto, jamais seco, mundos à parte daqueles que se assam nos bares de esquina. Tudo que é bem feito nessa vida vale a pena, ela pensa. O frango, fresco, marinado com ervas da horta, alho e cebola, um pouco de vinho branco seco, um fio de azeite extra virgem. Encontrar a quantidade certa dos ingredientes é uma arte para poucos, convenhamos. Vinte minutos no fogo alto para selar os sucos da carne, 45 minutos no forno baixo. Para acompanhar, batatas cozidas rapidamente e posteriormente assadas com raminhos de alecrim. Não há nada mais simples e melhor. O vinho branco na temperatura certa. Os filhos viajando e a sensação de liberdade, quase esquecida.

O céu azul se encobre de noves pesadas cinzentas. 

— Não há nada mais belo que ver uma tempestade se aproximar e sentir-se, ainda assim, protegido, dentro da própria casa, ela diz com um sorriso largo.

— Sempre gostei desta sensação. Desde criança, quando aguardava os tornados chegarem ansiosamente no Texas.

— E saber que aqui, dentro de nossa casa, a casa que construímos nós dois, nada há de acontecer. No matter what.

— É verdade.

Subitamente, ele diz: você sabe que na história de 4.6 bilhões de anos do nosso planeta, ele foi aniquilado pelo menos três vezes? A vez mais conhecida, apesar de não ter sido a mais destrutiva, foi aquela que acabou com a era dos dinossauros, 65 milhões de anos atrás. Os astrônomos recentemente discutem o sólido argumento que o maior destruidor do nosso planeta é o fenômeno das supernovas (a exploxão espetacular que marca o fim da vida de uma estrela). De qualquer maneira, o importante é lembrar que a terra sempre teve recursos próprios para renascer das cinzas, feito fênix. Ela sempre se surpreende com o conhecimento dele.

— Você acha que a terra tem condições de sobreviver a destruição trazida por nós?

Ele, otimista, faz que sim com a cabeça.

A tempestade continua, inclemente. Logo a paz é interrompida: as folhas das árvores entopem a calha. A água, rapidamente, invade o banheiro dos filhos. A falsa promessa de paz e proteção é interrompida por uma tempestade passageira de dez minutos.  Os dois se levantam e, em gestos aparentemente coreografados, pegam os baldes e os panos para secar o banheiro.