Archive for the 'Literatura' Category

Rushdie, de novo

Janeiro 5, 2009

Tenho a impressão que ninguém assiste aos vídeos que as pessoas disponibilizam em seus blogs. Não faz mal, eu acredito em compartilhar informações, afinal sou professora. Não é a primeira vez que eu sugiro o escritor Salman Rushdie aqui no blog e pelo jeito não será a última. Aqui ele fala sobre o lugar da narrativa nas nossas vidas e sobre a linha tênue que separa o público do privado hoje em dia. Brilhante.

Meme dos livros

Janeiro 2, 2009

A Adri Amaral, colega e amiga, do blog As palavras e as coisas me passou esta meme. Geralmente não gosto muito de memes, mas confesso que tive que me controlar para não escrever mais do que é sensato para a natureza de um post.

1. Livro/autor(a) que marcou sua infância:

Alguns do Monteiro Lobato, O conde de Montecristo, Vinte mil léguas submarinas de Júlio Verne, uma biografia da Joana D’arc, que me impressionou bastante. Amava e ainda amo os livros do Tintin e gostava muito do livro Tistu, o menino do dedo verde, que minhas filhas herdaram; também tentei ler O pequeno príncipe mas não entendi direito.

2. Livro/autor(a) que marcou sua adolescência:

Fora os Machados de Assis & Cia que tínhamos de ler na escola e que não me marcaram na época, agora vem a parte engraçada: eu amava os livros do Carlos Castañeda (li vários), de modo que  eles devem ter provocado danos absolutamente irreversíveis na minha formação, haha. Gostava também de livros como Mogli, o menino lobo (porque se passava na Índia), O paraíso perdido e Shangrilá (não me perguntem o nome do autor, mas tambéms se passavam na Índia e isso me bastava). Como se vê, com exceção do Kipling e do Castañeda, nem lembro dos autores dos outros dois livros. Ah, no começo da adolescência, li todos os livros com o detetive belga Hercule Poirot (Agatha Christie). Quando comecei a ler em inglês, reli os mesmos da Agatha Christie e depois fiz a mesma coisa em francês! Aqui não estamos falando exatamente de “marcar a minha adolescência”: digamos que esses livros não marcaram tanto assim a minha adolescência, pura vergonha admitir isso, mas meus interesses estavam em outros lugares.

3. Autor(a) que mais admira:

Sem hesitação, o autor que eu mais admiro é Shakespeare. Precisa falar por quê? Abrangência de temas, um amor incrível com o ser humano, uma visão ambígüa e irônica do mundo, sem precedentes na literatura. Humor, paixão, ambição, ódio, generosidade, etc sem nenhum tipo de preconceito ou julgamento mesquinho. Nada parece fascinar mais Shakespeare do que a condição humana. Com uma dramaturgia apaixonante e apaixonada, Shakespeare inventou o teatro moderno, o metateatro, reinventou o soneto, inventou o solilóquio, tudo dentro de uma linguagem poética ao mesmo tempo livre e multifacetada. Ok, don’t get me started… Next!

4. Autor(a) contemporâneo:

Autores vivos? Vou ter que incluir o Michael Ondatjee e não é só porque ele está fresquinho na memória, mas é porque ele é brilhante. Tem também o Mia Couto, O Salman Rushdie, a Jumpha Lahiri (apesar dela não entrar na minha categoria dos brilhantes). Na realidade, eu estava louca pra mencionar também o John Fowles, o E. M. Forster, o Henry James, a Virgínia Woolf e muitos, muitos outros do séc. XX, sem falar nos meus escritores favoritos do século XIX, mas eles não são contemporâneos.

5. Leu e não gostou

Um que eu comecei a ler no ano passado e desisti: Disgrace de J. M. Coetzee e outro que só li algumas páginas foi Beloved da Toni Morrison. São livros pesados demais e eu não estava querendo mergulhar muito no sofrimento dos protagonistas no momento, mas ambos merecem uma segunda chance. Um romance que eu li até o final, em 2008 provavelmente por puro masoquismo, foi Depths do sueco Henning Mankell. Nunca mais esse Mankell me pega… Agora tenho achado esse Milton Hatoun um chato mesmo. Aliás, não é por absolutamente nada, não tenho nenhum preconceito contra escritores brasileiros  contemporâneos e adoraria gostar de alguns escritores. Mas tenho tentado ler alguns romances e não sei o que acontece, simplesmente tenho dificuldades em pactuar com o narrador. O pacto é vital, se ele não ocorrer não acontece o que Coleridge chamava de “suspension of desbelief” – a suspensão da descrença. A narrativa de alguns romances brasileiros parece altamente transparente, falsa.

6. Lê e relê:

Eu explico porque essa é uma questão difícil de responder: eu sou professora de literatura e, com frequência, tenho que ler e reler o mesmo livro/peça/poema, etc. Os livros são os meus instrumentos de trabalho, enfim. Então, quando posso, corro ler coisas que nunca li. Mas só pra não ficar em branco, tenho que incluir Jane Eyre de Charlote Brontë , To the Lighthouse da Virgínia Woolf, e também Grande sertão veredas, um romance que dispensa comentários.

7. Manias:

Eu não gosto de marcar meus livros e não gosto que ninguém os marque. Geralmente faço uma discreta orelha de burro na página de uma passagem que eu tenha gostado muito ou coloco um post it quando estou pesquisando. Sempre leio a última frase do livro, depois leio as primeiras páginas. Se eu pudesse, leria do final para o começo, como faço com todas as revistas  — sinal absoluto de pura caos e ansiedade, eu sei. Quando estou adorando um livro, diminuo o ritmo da leitura e  fecho os olhos para sorver todas as palavras. Às vezes leio em voz alta, me apaixonando pela melodia das palavras e pelos personagens. Em contrapartida, muita coisa pode me irritar. Por exemplo, uma metáfora ou outra figura de linguagem forçada, alguma manobra narrativa artificial são fáceis de detectar. Aí é difícil voltar para aquele livro e para aquele autor. Não gosto de perder o meu tempo para tentar dar segundas chances para escritores de segunda categoria, tem muita coisa que eu  quero e preciso ler. Este é o meu lado crítico bem acirrado. Às vezes é chato até pra mim, mas não adianta, sou assim mesmo. Mas tenho outra faceta como leitora que talvez apenas o meu passado negro do Castañeda faz antever: quando estou viajando, não há nada melhor do que ler um bestseller trash. Por exemplo, li o Da Vinci Code em três dias entre os estados da Califórnia, Washington State e Arizona. Outro exemplo foi ler o The Beach (Alex Garland), cujo enredo se passa perto de um lugar onde estávamos na Tailândia.  (Talvez alguém tenha lembrado do filme homônimo com o Leonardo di Caprio). O livro é também uma bomba e eu li porque fui atrás de um fórum sobre a literatura que se passava na Tailândia… Pois é, entrei nessa roubada também, haha. Mas um livrinho trash em viagens longas não faz mal pra ninguém, ainda mais se for uma história de detetive.

Fica a sugestão para quem passar aqui e quiser continuar a même!

ambigüidades ou os livros e eu

Dezembro 18, 2008

Não existe método para essa minha loucura — eu tenho hábitos horríveis de leitura, que só fazem piorar com o tempo.  Poupo-vos dos detalhes sórdidos e atenho-me ao moderadamente aceitável.  Sou uma leitora muito afobada e  faço planos deveras ambiciosos: podendo, leria tudo! Que eu sou desorganizada, não é nenhuma novidade,  aliás apenas para o meu zodiáco. Que eu funciono sob prazos, também. Mas sobretudo, sou  uma pessoa interessada em tudo, em áreas diversas. Por exemplo, amo ler sobre culinária, viagem, maquiagens e cosméticos, moda e pessoas. Mas mais do que tudo mesmo, amo uma história bem contada. Não afeita a lercoisas esotéricas, religiosas (a não ser que seja de um ponto de vista histórico) e livros de auto-ajuda. Fujo correndo de qualquer texto que tenha  pontos de vista absolutista.  Mas realmente não sou preconceituosa com leituras/textos, no entanto,  gosto muito pouco de bestsellers, ainda que já tenha lido alguns e que eu entenda o seu lugar nas vidas das pessoas. Quanto à literatura, meus interesses profissionais e pessoais quase sempre se fundem, o que é uma maravilha, convenhamos. Mas há vezes que eu preciso investir em leituras teóricas, ou que preciso me atualizar em determinada período histórico. Claro que me angustio com o que eu ainda não li ou com o que eu não sei e deveria saber.  Sempre me acho devedora com relação à Literatura (notem a grafia…). Ou será que é pura ambição? Sabe-se lá, mas a sensação perene é a de nunca estar saciada. Qual é o lado muito negativo? Sinto aquele comichão cada vez que entro numa livraria real ou virtual. Gasto  mais do que eu deveria e fico envergonhada de morar num país que pratica preços absurdamente altos sobre os livros. Com o preço de um livro aqui, você pode comprar 3 nos E.U.A., por exemplo. Enfim, como sou uma pessoa que prefere a comodidade, recorro, geralmente, à Livraria Cultura no Brasil e à Amazon para livros em inglês. Adoro a Livraria Cultura, eles sempre foram impecáveis com todas as minhas encomendas. Em contrapartida, ultimamente tenho desgostado da Amazon. Meu último pedido na amazon chega apenas na terceira semana de janeiro, ou seja, duas semanas antes das aulas começarem. Fiquei tão doida calculando os diferentes preços caso eu optasse pelo envio conforme os diversos livros fossem disponibilizados que cliquei na opção errada: standard international shipping. Gostei do preço do shipping logicamente e pronto. Logo depois tentei reverter a situação, mas não foi possível. Bem feito, agora tenha vergonha na cara e leia aqueles outros livrinhos na estante dos não lidos… Teria leitura por algumas férias!

Abaixo a lista da minha última encomenda na Amazon (aquela que eu queria devorar logo mas vou ter que esperar muito!):

The God of Small Things (Arundhati Roy);

Kim (Kipling);

The White Tiger; Arthur and George (Julian Barnes);

Reinventing Shakespeare from the Restauration to the Present (Gary Taylor);

Shakespeare and Popular Culture (Marjorie Garber).

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Uma bússola (não tão) dourada.

Dezembro 8, 2008

Lá vem cliché — mas convenhamos que os clichés exercem sua função — o filme não tem o mesmo alcance que o livro.  Não se trata do velho debate de que filmes baseados em livros tenham que ser tão bons como os livros, sequer se trata de uma questão de fidelidade à fonte. Não é isso — uma adaptação, seja ela fílmica, cênica, etc, é uma outra coisa, filme é filme e livro é livro, algo óbvio, mas nem sempre observado. Um livro e um filme são sistemas de representação regidos por seus próprios códigos e especificidades. Nem vou entrar no lado técnico e observem que eu apenas falei que o filme  ficou muito a dever do alcance estético do livro. E é justamente isso que frustra grandes fãs como eu que  sou fã de carteirinha do Philip Pullman e naturalmente li a trilogia His dark materials. Além da trilogia, li um livro sobre a ciência por trás do livro, The Science of Philip Pullman’s His dark materials, e fiquei fascinada com vários conceitos da física quântica e dos mundos alternativos que permeiam a narrativa de Pulman.  Depois li o Darkness Illuminated e o Darkness Visible: inside the world of Philip Pullman, o primeiro sobre a produção teatral e  o segundo sobre o autor e  a sua ficção, respectivamente. Mas, mais legal do que as minhas investidas de leitura na e sobre a obra de Pullman, foi que, em fevereiro de 2005, assisti a colossal adaptação teatral do His dark materials I e II no National Theatre (Londres) – foram 2 seções de três horas cada e nem deu para cansar. Eis a prova que o livro não precisa reinar sempre nas nossas preferências, essa produção foi premiada até dizer chega e alcançou o maior sucesso de público e crítica do aclamado teatro londrino. Mas vou falar um pouquinho sobre o livro e tentar dar idéia da magia do sucesso estrondoso da trilogia do Philip Pullman. É até fácil de detectar, ainda que seja compreensivelmente difícil de executar. Com uma leitura que flui deliciosamente, o enredo mescla física, aventura, mistério e magia com o velho e indefectível tema do bem versus mal, só que de uma perspectiva  iconoclasta. O bem é incorporado pela orfã Lyra que ganha o direito de possuir a incrível bússola dourada (o aletiômetro), instrumento que possui o poder de revelar a verdade. Lyra, acompanhada de seu daemon, empreende uma viagem ao Polo Norte a fim de resgatar seu amigo Roger Parslow, que havia sido seqüestrado pelas forças do mal. A busca é fascinante pois ela tem que enfrentar as Feiticeiras do Norte, os Ursos Polares e mil outros seres fantásticos. No final das contas, como nas narrativas clássicas, essas viagens e a própria busca, se tornam um dos leitmotifs centrais da narrativa. Porque o simbolismo da busca (quest) e da viagem é algo intimamente mítico, cuja força toca todos nós: a vida é uma grande narrativa de viagem e busca, lembrem da Odisséia e de Ulisses (e de milhões de outros textos semelhantes, clássicos ou não).  Talvez seja principalmente aí que o filme encalha e não sai da lama, a despeito dos esforços excessivamente plásticos (bottox and all) de Nicole Kidman. Do Daniel Craig,  que faz o papel do Lord Asriel, pesquisador da Universidade de Oxford, nem vou falar porque ele não merece nem o meu tempo digitando, basta dizer que o grande ator  da versão teatral, David Harewood, dá um banho de interpretação na atuação insípida e sem personalidade do Craig, aqueles que assistiram o  007 Quantum of Solace sabem o que estou falando. Enfim, me dei conta que não vou conseguir explicar tudo o que eu quero sem escrever um artigo, o que talvez não seja má idéia!

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De qualquer maneira, talvez a maior riqueza de His dark materials seja a de nos transportar a esses mundos imaginários que nos fazem sentir um pouco como a brava heroína.  Lyra é capaz de ir aos confins do mundo  e enfrentar seus próprios medos para resgatar seu amigo.  Falando assim parece simples, não é mesmo?  Não é fácil traduzir em um resumo a multiplicidade de mundos e realidades alternativos que co-existem paralelamente. Mundos habitados por ursos gigantes e guerreiros mínimos, porém perigosíssimos. Anjos e daemons, estes últimos provavelmente a criação mais original (e encantadora!) de Pullman,  animais que são a personificação de seus donos, a alma da pessoa. E isso é apenas o começo, a viagem que a menina Lyra empreende a leva a um universo subterrâneo  obscuro (dark) que tem clara ressonância com O paraíso perdido de John Milton. A escolha do título da versão fílmica, que deixa a idéia do obscuro de lado, presente no título do livro e essencial na trama, His dark materials, prioriza a bússola e simplifica um enredo com uma estrutura intricada. Tudo bem, como poderia o cinema dar vida à esse mundo rico de magia, mito e fantasia? Bem, o teatro pôde, ao vivo, real time. Eu vi.  O cinema, desta vez, fez feio.

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Produção teatral do National Theatre, Londres. Adaptador para o roteiro cênico: Nicholas Wright, Diretor: Nicholas Hytner. Sobre o sucesso da produção, leia aqui.

Informações e ficha técnica sobre o filme, Uma bússola dourada, clique aqui.

P.S. Eu escrevi este post há um ano, dezembro de 2007, quando o filme foi lançado. Ele estava incompleto e não me deixou satisfeita porque eu queria falar muito mais. Hoje me deparei com ele, fiz algumas adições e resolvi por bem publicá-lo no blog antes que o Uma bússola dourada II seja lançado.

idée fixe

Setembro 24, 2008

No que tange o meu gosto literário atual, ando  cultivando algumas adoráveis obsessões. Dentre os livros do 2o bimestre que eu selecionei, está o The English Patient, do cingalês/canadense Michael Ondaatje. O romance lida com questões de  memória, identidade e pertencimento e trabalha o mapa como metáfora para a instabilidade do nosso mundo.

We die containing a richness of lovers and tribes, tastes we have swallowed, bodies
we have plunged into and swum up as if rivers of wisdom, characters we have
climbed into as if trees, fears we have hidden in as if caves. I wish for all this to be
marked on my body when I am dead. I believe in such cartography—to be marked by
nature, not just to label ourselves on a map … We are communal histories,
communal books …. All I desired was to walk upon such an earth that had no maps.

Tudo o que eu queria era andar sobre uma terra que não tivesse mapas…

Tudo o que eu queria era andar sobre uma terra que não tivesse mapas…

Shakespeare. Quem mesmo?

Setembro 14, 2008

Shakespeare é um escritor que virou mito e como todo mito, é alvo de mil especulações. Gente que nunca leu nada sobre o Shakespeare, faz declarações as mais incríveis sobre ele e sobre a sua obra (!) . É bem verdade que muitas afirmações são bem criativas e divertidas. Como todo personagem histórico que virou mito, sua vida é vasculhada e sua obra é objeto de uma curiosidade que nem sempre é salutar. Porque verdade seja dita, muito se especula sem nenhuma fundamentação de verdade. Baseiam-se no que ouviram falar ou no que leram em uma dada revista. Shakespeare não existiu. Shakespeare fumava maconha. A Rainha Elisabete era o Shakespeare. E por aí vai.

Acreditem se quiser, mas eu continuo a receber aquele email com o odiado texto “Depois de algum tempo você aprende a diferença…” de suposta autoria de Shakespeare. Já recebi textos de autoria de Brecht como se fossem de Shakespeare. Incrível como essas coisas circulam indiscriminadamente pela net.

Ora, junto com elas circula a absurda falta de conhecimento e questionamento. Talvez um dos maiores pecados da internet.

Shakespeare, para muitos, é símbolo de erudição e cultura. Citar Shakespeare em trabalhos, mesmo das ciências chamadas “duras”, se tornou um clichê e isso é bem compreensível. Da mesma forma, afirmar que “nossa gente, eu a-do-ro Shakespeare!” já virou um lugar-comum, ainda que, confesso, me doa muiuuito aos ouvidos! Se você perguntar questões as mais básicas para a criatura, ela, naturalmente, não sabe responder, justificando que “bem, ele é um autor muito difícil.” Outro dia, um professor me disse: “Shakespeare? Li tu-do dele”. E aí, eu faço – tenho que fazer – a pergunta fatídica: “quais obras você leu”? “Todas, Romeu e Julieta, Hamlet, MacbethRei Lear“. Ora, a criatura tinha lido apenas 10% da obra de Shakespeare… Shakespeare escreveu 40 peças. Fora os sonetos e outros poemas…

Tudo bem, nunca falei aqui, mas vai lá, porque até já fiquei sabendo de aluno que está lendo o meu blog (já que ele é público&privado, eu sei…), sou o que no meio acadêmico chamam de “shakespeariana”, ou seja, uma pesquisadora da obra e da vida de Shakespeare. É que eu estudo o autor inglês seriamente há muito tempo. Compro e leio muitos livros, vou a congressos, escrevo artigos, dou aulas, ministro palestras e até escrevi uma tese de doutorado que deve 50% ao grande bardo. Na realidade, eu escolhi Shakespeare porque nenhum autor ainda me divertiu tanto e me deu um repertório tão incrivelmente variado de idéias, de pensamentos e de personagens tão fascinantes. Ninguém questionou tanto quanto ele. E ninguém chegou perto dele na análise do ser humano. Eu dou aulas sobre a alteridade e freqüentemente me refiro ao Shakespeare para falar sobre o “Outro”.  Shakespeare é incrivelmente contemporâneo. Eu sei, tudo bem, nem todos precisam ter o meu rigor, afinal sou profissional. Mas pode-se – com o mínimo de esforço (leituras ajudam muito) – ter alguma seriedade para não falar tantas bobagens. Ou simplesmente não falar do que não conhece.

Em tempo, para quem possa interessar: Shakespeare NÃO escrevia em prosa, portanto o texto “Depois de um tempo…” jamais poderia ter sido dele. Shakespeare tampouco escrevia textos de auto-ajuda ou manuais de conduta, então aquele textinho mequetréfe NUNCA, jamais de la vie, poderia ter sido escrito por ele. A obra shakespeariana, aliás, é farta em questionamentos e desconstruções de verdades absolutas. E, além de tudo, Shakespeare é apenas um pouco romântico nos sonetos. As comédias e tragédias trazem uma visão bem questionadora do amor e do casamento.

Um pouco de leitura e estudo não faz mal para ninguém. Tem vários livros excelentes sobre Shakespeare em português e, ao contrário do que muitos acham, ele NÃO é um autor difícil.

What’s in a name?

Setembro 14, 2008

What’s in a name? That which we call a rose

By any other name would smell as sweet

Assim fala Julieta para Romeu, na antológica cena da sacada. Trazendo a tona a rixa que assola  suas famílias há gerações, Julieta pede para Romeu negar seu nome. Lindo, romântico. Porém totalmente impraticável, como o destino dos “star-cross’d lovers” mais conhecidos da história literária ocidental nos mostrou.

Em Romeu e Julieta tudo é altamente intenso e vibrante. A intensidade se traduz nos pares de opostos em jogo na tragédia amorosa: Amor x ódio, Montéquios x Capuletos, Pais x filhos, o Velho x o Novo, o Dia x a Noite, a Vida x o Dia, entre outros. Em um toque genial, Shakespeare, faz com que a própria linguagem também duele em pares de antíteses e oxímoros memoráveis, ainda que um pouco exagerados. Mas é bem verdade que tudo vibra com uma paixão marcante em Romeu e Julieta: temas, imagens, linguagem e a trama dramática.

Brilha também nossa linda e nada inocente Julieta, uma das personagens mais deliciosas e transgressoras da literatura elisabetana. Ao propor casamento a Romeu e lhe incitar a abrir mão de seu nome, Julieta ilustra sua rebeldia e sua inocência.  O erro trágico da jovem heroína é pensar que tudo ela pode mudar. O nome, ao final de contas, seja Montéquio, Capuleto, ou Silva, não é apenas uma “casca”: ele carrega uma história que confere identidade para a pessoa. E isso , infelizmente para o par trágico shakespeariano, não dá para apagar. Romeu se mata, ao fim e ao cabo, porque ele é um Montéquio. Julieta se mata porque ela é uma Capuleto. A famosa citação “What’s in a name?” é um dos clássicos exemplos da apropriação indevida de Shakespeare.  E sim, acho totalmente plausível que o grande Bardo tenha aproveitado a história romântica para relativizar a questão do nome.

JULIET:
‘Tis but thy name that is my enemy;
Thou art thyself, though not a Montague.
What’s Montague? it is nor hand, nor foot,
Nor arm, nor face, nor any other part
Belonging to a man. O, be some other name!
What’s in a name? that which we call a rose
By any other name would smell as sweet;
So Romeo would, were he not Romeo call’d,
Retain that dear perfection which he owes
Without that title. Romeo, doff thy name,
And for that name which is no part of thee
Take all myself.

ATENÇÃO: ESTE POST NÃO DEVE SER USADO COMO PESQUISA. TRATA-SE APENAS DE APONTAMENTOS RÁPIDOS QUE NÃO REFLETEM, NECESSARIAMENTE, AS MINHAS OPINIÕES PROFISSIONAIS.

P.S. Ain’t done yet. Back later.

Gato por lebre na aula de literatura

Agosto 1, 2008

Outro dia entrei na aula segurando Wuthering Heights (O morro dos ventos uivantes), século XIX, enquanto deveria estar com A passage to India, século XX, nas mãos. Confusões como essa acontecem quando você tem 5 turmas de graduação diferentes, cada uma trabalhando séculos diferentes e principalmente duas culturas (a inglesa e a americana) diversas. Eu sempre dou conta de tudo (nem que seja aos trancos e barrancos) e separo o joio do trigo. O negócio é que, além da graduação, dou aulas no Mestrado e a carga de leitura que eu estipulei, diga-se de passagem, é barra pesada baby: são muitos textos literários e teóricos. Se eu não me organizar bem, nem eu consigo ficar atualizada na minha ementa. Tem ainda o (Re)Pensando a Mulher, o curso aberto para a comunidade que inicia a semana que vem. Ontem eu acabei o artigo que eu havia iniciado na segunda (!!), submeti, enviei um resumo-proposta para um Congresso de Teatro em BH em outubro, descobri que outro artigo meu foi aceito e será publicado em dezembro e também fui informada que a minha proposta de simpósio para outro congresso de Literatura também foi aceito. O que isto significa? Work, work, work. E mais: gastar o meu dinheiro com passagens e hotéis para conseguir uns pontinhos no meu Currículo Lattes para as minhas universidades. Ma-ra-vi-lha.

Mas voltando ao início, sem mais digredir, o que eu fiz no dia que eu me enganei de século e de romance? Como sempre, naturalmente, não me fiz de rogada e tracei um panorama da literatura inglesa no século XIX, usando O morro dos ventos uivantes como exemplo. Mapeei a ascenção do romance como gênero literário dominanate no século XIX e ilustrei como E. M. Foster em Uma passagem para a Índia, do aspecto formal, ao contrário de seus contemporâneos modernistas como V. Woolf e James Joyce, responde à tradição realista. Do aspecto temático, em contrapartida, o romance é revolucionário pois faz uma crítica aberta ao Império Britânico. Salvei a aula e a minha cara: sem falsas modéstias, foi uma ótima aula. Só que isso não pode acontecer mais porque, convenhamos, toda criatividade tem limite.

 

Agora me expliquem por que eu sempre tenho que escolher textos diferentes? Por que não dou os mesmos textinhos, como 99.9% dos professores que eu conheço? Este semestre eu me superei MESMO. Não preciso nem dizer que não terei muito tempo ou ânimo para o blog.  Mais, on verra, on verra.

Flip e aquela vontade…

Junho 16, 2008

Para variar, a programação da Flip 2008 está muito, muito boa. As conferências que mais me interessam são a do excelente crítico Roberto Scharwz, “A Poesia envenenada de Machado de Assis” e “Shakespeare, utopia e rock’n roll”, do dramaturgo inglês ferícissima Tom Stoppard. Para mim, o melhor dramaturgo vivo. (Sim, estou lembrando do Harold Pinter, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, mas eu gosto muito mais da obra do Stoppard). Dá uma vontade louca de me mandar para Paraty, aquele canto encantador da Rio-Santos. Ficar em uma pousada charmosa e respirar o ar praiano e literatura. Ver e escutar o Stoppard em carne e osso — porque YouTube nenhum substitui “the real thing“, como diria o próprio autor. Como nossa ida para o hemisfério norte ainda não foi definida, talvez ainda tenha uma chance para o Flip. Veremos.

 

Uma conversa com Rushdie

Junho 14, 2008

No outono de 2003, eu estava fazendo pesquisa para o meu mestrado (Literaturas de Língua Inglesa) em Harvard. Lá, tive a oportunidade de ter aulas e conhecer alguns críticos que eu admiro muito, o Stephen Greenblatt foi um deles. Mas olhem só o que eu perdi bem na manhã que eu não pude ir à Universidade: o Salman Rushdie! Aconteceu assim, sem anúncios ou alarde, do nada, no começo da manhã, os alunos foram convidados para a palestra do Rushdie, que estava no M.I.T.  Salman Rushdie, como todos sabem, vivia ainda escondido por conta do fatwa que Aiatolá Komeini havia ordenado. Rushdie chegou, maravilhou todos com uma palestra cheia de brilhantismo e ironia (marca registrada de suas obras, ainda que o tacanha do Aiatolá não tenha percebido) e… sumiu! E eu não assisti! Mas não perco os videos do YouTube, de jeito nenhum. Este aqui é uma conversa deliciosa com Salman Rushdie, puro charme e brilhantismo.