Archive for the 'o corpo feminino' Category

Woman in chains (I)

Fevereiro 19, 2007

Cintos de Castidade  

O texto abaixo, do jornal Kahleej Times, de Dubai (Emerados Árabes), noticía que o líder religioso Abu Hassan Din Al Hafiz advoga o uso de cintos de castidade para evitar o crescente número de estupros, incestos e outros crimes sexuais na Malásia. Muitos religiosos islâmicos consideram que as mulheres são culpadas, pois usam roupas e maquiagens “provocativas”.  

 KUALA LUMPUR, Malaysia – Women should wear chastity belts to prevent rape, incest and other sex crimes, a prominent Islamic cleric in northern Malaysia was quoted as saying Friday. Abu Hassan Din Al Hafiz, speaking in the northern state of Terengganu, said chastity belts could protect women from a growing number of sex crimes in
Malaysia, The Star newspaper reported.
The best way to avert sex perpetrators is to wear protection,’ Abu Hassan told a crowd of followers. My intention is not to offend women but to safeguard them from sex maniacs.’The cleric said sex crimes had increased in the region of late. We have even come across a number of unusual sex cases where even senior citizens and children are not spared,’ he said.Figures on sexual assaults in the northern state were not immediately available. Religious leaders in Malaysia’s conservative north have in the past blamed sexual attacks on women wearing provocative clothing and make up. Local Islamic women’s groups and other organizations have routinely criticized those views.

Abu Hassan was not immediately reachable for comment.

Leia mais aqui.

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A história do cinto de castidade está intimamente (no pun intended!) relacionada à idéia de “posse” e “paternidade”. É quando o homem quer ter garantir a posse da terra e salvaguardar seus bens dentro da integridade de sua família. Em outras palavras, uma das únicas maneiras de saber que o filho era seu era garantir que sua mulher não o traísse e nem fosse violentada. Dessa maneira, os bens permaneciam “na família”. Leia sobre o cinto de castidade, também chamado de cinto florentino, aqui.

É inacreditável, mas cintos de castidade ainda são usados “como proteção”.

Leitura: DUBY, Georges e PERROT, Michelle. A história das mulheres. A Idade Média. Porto: Edições Afrontamento, 1991.

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O carnaval e o corpo feminino.

Fevereiro 17, 2007

Enquanto escrevo, as mulheres que desfilarão daqui algumas horas no sambódromo do Rio de Janeiro estão preparando os seus corpos, as grandes estrelas da noite. Após meses de malhação diária, massagens estéticas, aulas de samba, ensaios e provas das minúsculas fantasias. As celebridades orgulham-se em divulgar dietas e descrever os tratamentos corporais aos quais se sacrificaram. Os corpos agora estão sendo despidos, depilados. Óleos e purpurina são cuidadosamente aplicados para que brilhem mais e atraiam mais olhares. As mulheres descrevem tudo extasiadas.  Mais tarde, na passarela, a brasileira se mostrará sensual, bonita, dócil e fácil. Os corpos lindos au naturel balançando de um lado para o outro, convidando sensualmente.  

Tudo muito “natural”.

O baterista ensaia um passo e se ajoelha aos pés da linda modelo. A reverência ao corpo. Ela samba a ensaida coreografia em cima de seus saltos imensos e sorri. Canta o samba enredo inocentemente.

A mulher, no carnaval do Rio de Janeiro, contribuí imensamente para essa culto ao corpo brutal que temos no Brasil. Alimenta, também, a objetificação do corpo feminino que não apenas presenciamos na propaganda, mas também no próprio corportamento da sociedade. Afinal, no carnaval, ela mostra que seus atrativos não passam de coxas, peitos e bundas. Não é de se espantar que o mundo pare para olhar — curiosamente — para esse fenômeno.

The festival of Carnival with its spectacular street parades and vibrant music, has become one of the most potent images of Brazil” [O carnaval com os seus desfiles de rua espetaculares e a sua música vibrante, se tornou uma das imagens mais potentes do Brasil.], afirma a Enciclopédia Encarta aqui. É verdade, o carnaval é uma das imagens mais fortes que vendemos mundo afora. A Enciclopédia Encarta foi discreta, no entanto, e não mencionou a imagem-estrela do nosso carnaval: o corpo feminino.

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Por que a anorexia me incomoda tanto?

Janeiro 17, 2007

A Denise publicou um artigo escrito pelo jornalista Larry Rohter do NY Times sobre a anorexia no Brasil. Gostei muito da leitura crítica que ela fez. E fiquei pensando, lógico. 

Quem leu alguns posts aqui já deve ter notado que o assunto me intriga bastante. E que não sou especialista no assunto. Que sou, principalmente, preocupada e, que se pudesse, acreditem, ajudaria de alguma forma. Talvez seja porque anorexia é, com efeito, um fenômeno complexo, que mexe com algo que foge ao especular científico. Abaixo, algumas idéias que me fazem refletir sobre o assunto: 

  • anorexia não é um fenômeno novo. Os historiadores narram casos como o de Catarina de Siena e de outras santas que, para purgar o corpo do pecado, jejuavam. Algumas jejuaram até a morte.  Na Idade Média tardia, surgiu um livro, “O Sagrado Jejum”, que promovia a idéia do jejum entre as mulheres que desejavam se purificar. Ocorre que não era muito raro encontrar freiras grávidas nos conventos. Os filhos da união dos padres e freiras se tornaram um problema para a reputação do Cristianismo, que fazia tudo para se consolidar como a religião dominante. E a “purificação da carne” foi uma estratégia da Igreja. A anorexia era, então, um fenômeno ligado à religião.
  • O primeiro caso de anorexia foi diagnosticado no século XIX, em torno de 1870, em Londres. E por que isso não me surpreende nem um pouquinho? A Inglaterra vitoriana talvez tenha sido a época mais opressora para as mulheres. Foi quando a mulher começa a atingir alguma expressão na esfera pública e o homem, filho da revolução industrial, queria manter o seu mais precioso objeto de consumo restrito ao lar. Surgiu então uma literatura vasta (manuais, tratados científicos, periódicos femininos, etc.) que se dedicava em: a) promover a idéia que a mulher era “naturalmente” constituída para gerar (até aí tudo bem, né!) e cuidar dos filhos. Que a mulher era “responsável” pela paz e integridade do lar, que ela era a mantenedora da felicidade do marido (em outras palavras, se o marido não está bem, a mulher é culpada); b) que a mulher era inferior ao homem, ou seja, que ela não possuia a mesma capacidade intelectual, que ela era mais frágil em todos os aspectos. A expressão artística que melhor registra essas noções é a pintura. É incrível ver a recorrência do motivo pictórico da “bela mulher morta“. Há muitas variações do mesmo tema: mulheres dormindo, doentes, loucas, suicídas – todas belas, poética e etéreas. É uma representação mórbida do feminino.

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  • Mas o padrão dominante de beleza não era o cadavérico que vemos hoje em dia. A mulher redondinha e curvilínea era tida como atraente pois simbolizava status social para uma sociedade industrializada, onde a tônica era ter e consumir “mais”. Durante as duas grandes guerras, a preocupação era, simplesmente, ter algo para comer. 
  • Com os movimentos feministas, as possibilidades se ampliam para as mulheres. Agora ela já pode ser dona de si. E do seu próprio corpo. Disciplinas sobre “Women’s Studies” proliferam na Academia. As mulheres estudam as mulheres como nunca foi feito. Há a chance de recuperar a voz, as lacunas da mulher na história. E então o que acontece?!  

Janeiro de 2005, Congresso: “The Feminine and the Sacred”, Inglaterra. Encontro de grandes pensadoras. Teóricas e ativistas africanas, européias, árabes, americanas, sul americanas. Todas pensando sobre o que constitui o “feminino” e o “sagrado”. Sobre a emergência das mulheres suicídas no Islã. Sobre o reinado absoluto da objetificação da mulher no cinema. Sobre o aumento da violência e do estupro. Sobre o corpo feminino e as intervenções cirúrgicas,  os jejuns, as academias, os sacrifícios que a mulher, aparentemente “liberada” se submete. E o que fica, como um eco, para mim, é a palavra SACRIFÍCIO. “O sagrado” e “o feminino” seriam, então, o sacrificial, o ritual do sacrifício, algo atávico e inexoravelmente (?!) ligado à mulher? Difícil de compreender.

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Ilustrações: 1. Ophelia de John Everett Millais (1853, Tate Gallery, Londres). 2. Escultura de Giorgio Vasari (Florença, 1570).

Maria Lactans

Janeiro 5, 2007

maria-lactans_durer3-1512.pngO O motivo pictórico denominado Maria Lactans é muito antigo, mas floreceu na Idade Média tardia. As imagens da Maria nutridora têm variações interessantíssimas. Geralmente,  Maria aparece com um dos seios desnudo nutrindo ou prestes a nutrir o menino Jesus. Em algumas pinturas, o leite jorra de seu seio em abundância. Em outras, Maria nutre um (ou mais) adulto pecador. 

São imagens sacras, típicas da época. Mas nunca as imagens são meras “decorações”. Maria, aquela que dá luz mantendo-se virgem, e que, justamente por seu corpo ser “puro”, é exaltada na exuberância de sua maternidade. Constitui , então, o modelo que cada mulher deve procurar imitar, segundo uma proposta que nega a sexualidade do corpo feminino mas, ao mesmo tempo, estabelece conceitos como a maternidade, a amamentação e a servitude da mulher. Enfim, dá o que falar.

Hoje em dia, no entanto, as “Marias Lactans” são consideradas imagens de “mau gosto”, principalmente nos Estados Unidos, país onde a amamentação em público é um assunto super polêmico.  Mas negar uma das funções mais belas e nobres da maternidade não é apenas “prerrogativa” dos EUA. A Edelize (sorry, ainda não sei linkar!), comentando o post sobre a Nancy Palosi, contou que uma parlamentar foi severamente criticada por amamentar seu bebê no parlamento australiano. 

Update: Essa Maria Lactans acima é de Durer, de 1512.   Lindíssima. Um breve search no google, você encontra várias outras.

Sobre a amamentação, leia o síndromedeestocolmo, da Denise.

Chove chuva, chove sem parar.     

As revistas femininas e o corpo da mulher.

Janeiro 4, 2007

A noção de que o corpo feminino é um construto social  (algo determinado pela sociedade) é lugar comum na crítica. Porém, mesmo a crítica mais engajada não consegue dar conta das reais implicações desta grave questão na nossa sociedade.

A anorexia é algo produzido, fabricado pela mídia. O papel da indústria da moda, que perpetua e fixa as imagens de modelos cadavéricas como padrão de beleza, é particularmente irresponsável. As revistas Vogue e Bazaar empregam, geralmente, um seleto grupo de modelos. Essas moças são MUITO mais altas e MUITO mais magras do que o padrão considerado normal. Elas são tão magras que as estruturas ósseas de seus corpos são macabramente visíveis sob suas pálidas e brancas peles.

A glamorização do corpo magro e a demonização do corpo “cheio” é assunto onipresente em quase todas as revistas de moda. As imagens conseguem transmitir muito mais do que palavras. Facilmente, nossos olhos aprendem a distinguir o que é bonito do que é “feio”. Mas não são apenas as imagens, há os artigos que advogam estratégias absurdas para se conquistar um homem, que discutem as dietas e exercícios da moda, além dos depoimentos de mulheres que perderam peso (e agora são, magicamente, felizes).  Fora os ensaios “científicos” (de médicos, psicólogos, terapeutas, etc.) com ultra-mega dicas de “saúde”. A linguagem destes textos é fácil, sedutora, e tudo é naturalmente assimilado.

Ainda que algumas mulheres reclamem dessa verdadeira ditadura pela magreza, é, de fato, muito difícil ficar imune a este discurso sorrateiro que permeia os nossos olhos diariamente. 

Assustador.