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Reflexões sobre a leitura.

Janeiro 28, 2007

Se você é mulher, sinta-se triunfante. Hoje você tem a liberdade de ler o que quiser. Imagine como seria a sua vida se você fosse como a grande maioria das mulheres do passado, que tinha tudo, até mesmo a leitura limitada?

A leitura era apenas motivada quando os textos eram associados à moralidade e ao decoro da época. E quem determinava o que, quando e quanto a mulher deveria ler era o marido ou o pai. Na era pós revolução industrial, essa tarefa foi delegada para a mãe, no intento de elevar o conhecimento e consolidar valores morais para que a filha atraísse um bom marido.  No período vitoriano, as mães burguesas tinham uma longa lista de leitura recomendável, que ia desde o The Book of Curtesye [Livro de Cortesias] até as colunas femininas de periódicos, como “Dear Abby”. A obra de Shakespeare, por exemplo, foi totalmente “bowdlerizada”, ou seja, alterada, “limpa” de todas as indiscrições (que são, de fato muitas, hehe). Logo, não lia-se Shakespeare, mas uma versão de Shakespeare, com falas, cenas, e, até mesmo personagens, totalmente cortados. 

A escritora Jane Austen, em Orgulho e Preconceito, escreve: “I have often observed how little young ladies are interested by books of a serious stamp… It amazes me, I confess; – for certainly, there can be nothing so advantageous to them as instruction”. [Tenho com freqüência observado quão pouco as moças se interessam por livros sérios… Me surpreende, confesso; – pois, certamente, não há nada tão proveitoso para elas quanto a instrução, minha tradução].

Coitada da Jane Austen. Ela ficaria chocada com a qualidade dos textos que a garotada lê hoje em dia, a despeito da total liberdade de escolha e da fácil disponibilidade de livros de ótima qualidade nas bibliotecas e na internet. E quanto à literatura exigida na grade curricular? Nada como um Cliffs Notes para resolver os problemas da escola ou mesmo da universidade. A garotinha não tem acesso ao Cliffs Notes? Então vá aos infalíveis monkeynotes.com, classicnotes.com, sparknotes.com e sites afins, que substituem o livro, aquela “coisa nojenta”. Tem que fazer um trabalho universitário sobre um romance, uma peça literária, um conto ou um poema? É só pesquisar um minutinho na internet e… voilá, você consegue comprar o trabalho bonitinho, prontinho para você, com notas de rodapé, bibliografia atualizada e todo arsenal acadêmico que os professores exigem. 

Numa época de um consumismo absurdo, as pessoas pensam que podem comprar tudo, até conhecimento. Às vezes é MUITO triste ser professor. E olha para a minha cara agora… volto a trabalhar logo, logo, depois de oito mêses de licença… Boa sorte para mim (e para os meus alunos!!).  E boas leituras para você…

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Karin Reading (Carl Larsson, 1904)

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