Archive for Maio, 2007

Sobre cultivar.

Maio 31, 2007

Sobre cultivar.

Estão vendo o mini amor-perfeito do canto da foto? Ele apareceu inesperadamente, do nada. Quer dizer, na realidade, não foi ‘do nada’, pois nada vem do nada, como já dizia o Bardo. Ele ficou quase um ano dormente, sobreviveu faceiro o inverno do ano passado, passou incólume a primavera, mas, sobretudo, enfrentou as temperaturas inclementes de um verão atipicamente quente e seco. Não bastasse isso, suportou o manuseio de uma tal metida a ‘jardineira’, que mexe e remexe em seus canteiros. E vocês acham que isso é pouco para um singelo amor-perfeito? Nada disso, vitorioso ele!

amor-perfeito.png

Os amores-perfeitos (pansies em inglês, que vêem do francês pensés, que significa pensamentos) gostam do inverno e florescem abundantemente no sul do Brasil em texturas aveludadas e cores absurdamente intensas: o roxo é roxo, o amarelo é amarelo. Eles não economizam nas cores. Há duas variedades: os amores-perfeitos de tamanho normal e os mini amores-perfeitos, que são um mimo. Eles são muito mais resistentes que as violetas, que são florzinhas ‘de lua’, isto é, são inconstantes, de modo que você não deve confiar muito na sua beleza efêmera. 

Hoje removi os cravos que não suportam o frio e já deram o que tinham que dar; fico a eles muito agradecida. Por duas vezes travei guerra contra as formigas carregadeiras, que, em questão de dias, dão cabo de um canteiro grande. As formigas adoram as pétalas de perfume adocicado dos cravos. De qualquer maneira, a maioria das flores já havia secado e o aspecto do canteiro estava um tanto quanto negligenciado. Então, mãos à obra: foram-se os cravos e ficam, como sempre, as lindas lavandas, as confiáveis allisons (flores de mel) e alguns alecrins, que garantem o perfume. As lavandas, não canso de repetir, são a alegria do jardim (que as outras flores não me escutem, porque planta ciumenta é fogo!), suportam o calor, a seca, o frio e até o mau-jeito de jardineiras metidas. Só sinto muito falta das minhas rosas. Mas não é nada que não possa ser remediado logo. 

flowerbedmay.png

O meu canteiro há três semanas, quando o clima estava ameno. Hoje ele está sem os cravos, aguardando novas mudas.

O legal do jardim é isso: é a lida com a terra. É, antes de se encantar com a beleza das flores, entender como elas funcionam e se elas servem para o seu jardim e para você. É planejar o canteiro e tentar visualizar e harmonizar as cores, tamanhos e plantas. É preparar a terra, plantar com o espaçamento adequado, regar as pequenas mudinhas nas doses certas, extirpar as ervas daninhas que comprometem o crescimento das plantas. É um cultivar gostoso e constante: não dá para esquecer o canteiro de todo, pois, lembrem que nem todas as plantas possuem a invejável independência da lavanda. Depois, é ter prazer de vê-las crescendo, até que as pequenas ou grandes flores dêem o ar de suas graças. E graciosas elas se revelam em cores, formatos, tamanhos e fragâncias tão diversos quanto fascinantes. É uma descoberta constante.

Esse é um dos meus hobbies favoritos e é uma das minhas principais justificativas para morar numa casa (o meu marido tem outra que é imbativel!). Alguns diriam que é um cuidado a mais, que é besteira, que pode-se admirar as flores nos parques, em jardins botânicos e nos jardins de outras pessoas – na região onde eu moro, felizmente, não faltam flores. É verdade. Outras pessoas podem pensar que é falta do que fazer. Hehe: não têm idéia do que seja a minha vida… É que eu amo o meu jardim.  E amo cultivar o meu jardim.

There is rosemary, that’s for remembrance:
and there is pansies, that’s for thoughts.

(Ofélia na cena de distribuição de flores em Hamlet)

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Help!

Maio 29, 2007

O que será que eu fiz com esse blogue? Desconfigurei algo, certamente, numa das minhas freqüentes demonstrações de incompetência e burrice…  Só porque eu falei que estava cansada… (saco!). Notem o tamanho ‘discreto’ das letras… Ai, meus sais, só  me faltava essa agora…. se alguém puder ajudar… obrigada.

Aliás, tem relação com o post abaixo, imagino, pois eu não consigo editá-lo e foi depois do dito-cujo que a página se desconfigurou. Bem, a solução para o momento é tomar uma overdose de um café bem quente para enfrentar duas turmas na Universidade numa noite congelante. Sem brincadeira, vocês não fazem idéia do frio que está aqui. De usar luvas e casacões dentro de casa.

 Update:

Resolvi o problema da maneira mais fácil: apaguei o tal do post sobre o cansaço e voltou tudo ao normal. Viram só? Nem se pode mostrar cansaço aqui no bloguinho. Ele é inclemente, hoho.

A “meme” das 7 coisas.

Maio 28, 2007

A Denise e a Edelize me passaram a “meme” das 7 coisas. Eu sempre fui péssima com essas coisas, acho super difícil relacionar só 7 filmes que eu gosto e eu simplesmente não consegui falar de apenas 7 livros que eu adoro, então eliminei esse ítem (desculpa, meninas!). Fica a sugestão para quem quiser continuar a meme.

1. Sete coisas que faço bem:

  • Ser amiga
  • Cozinhar (quando estou com vontade)
  • Aprender e falar línguas diferentes
  • fazer mil coisas ao mesmo tempo (multitasking)
  • Cuidar das minhas flores
  • Encontrar ‘barganhas’
  • Ensinar / Pesquisar / Escrever (especialmente sob pressão)

2. Sete coisas que não faço e não sei fazer:

  • ser hipócrita 
  • costurar, fazer tricot e crochet, essas coisas.
  •  jogar tênis ou qualquer esporte que envolva uma bola.
  • ficar imune quando os meus alunos estão conversando.
  • lidar com qualquer burocracia (odeio!)
  • acordar cedo

3. Sete coisas que me atraem no sexo oposto:

  • Inteligência
  • Espirituosidade
  • Gentileza
  • Sensibilidade 
  • Respeito
  • Mãos, sulcos nas maçãs do rosto, olhar, cheiro…
  • Caráter.

4. Sete coisas que não suporto no sexo oposto:

  • Galinhagem (odeio!)
  • Machismo
  • Agressividade (no way!)
  • Mentiras
  • Arrogância 
  • Agressividade 
  • Falta de reconhecimento.

5. Sete coisas que digo com frequência:

  • M…. 
  •  Putz
  • Oh My God !
  • Sorry, sweetie. 
  •  Desculpa, agora não tenho tempo! (espero mudar logo, acho terrível)
  • Tô atrasada / I’m late. 
  • Thanks /Obrigada / I love you sweetie / Te amo filha.

6. Sete atores/atrizes que eu gosto:

  • Ian McCellan 
  • Anthony Hopkins
  • Hellen Mirren
  • Vanessa Redgrave (já vi no teatro)
  • Kenneth Brannagh (já vi no teatro)
  • Charlotte Rampling (já vi no teatro)
  • Ralph Fiennes (já vi no teatro)

7. Sete atores/atrizes que eu detesto:

  • Jennifer Lopez
  • Sylvester Stallone
  • Jack Black
  • Jim Carrey
  • Ashton Kutcher
  • Jean Claude Van Damme
  • Cléo Pires

8. Sete filmes que eu adoro:

  • Titus Andronicus (uma das melhores adaptações da peça de Shakespeare com um elenco e um texto fenomenal)
  • O Paciente Inglês
  • O Império do Sol (The Empire of the Sun)
  • Volver (e outros do Almadovar)
  • Um Corpo que Cai (Pássaros e outros do Hitchock)
  • Fanny and Alexander.
  • Blade Runner.

9. Sete filmes que eu detesto:

  • A sogra (gente, eu ODIEI esse negócio)
  • Todos os Rockys
  • Escola de Rock
  • Todos com o Ashton Kutcher
  • Terminators & Cia.
  • Todos sobre os ‘conflitos’ dos teenagers nas high school americanas.
  • Todos com o Shwarzenegger.

10. Sete lugares favoritos:

  • Londres, Oxford, York, The Cotswolds, a Região dos Lagos (Lake District).
  • Paris, a região da Bretanha, a região da Provence.
  • A região onde moro em Curitiba e a Serra da Graciosa (aqui pertinho).
  • Muscat (Omã).
  • Salvador.
  • São Francisco, Carmel. 
  • Buenos Aires, a região da Patagônia argentina.

Fatos de uma sexta-feira importante.

Maio 27, 2007

Para os queridos amig@s que acompanharam a minha saga nos últimos meses e torceram por mim: deu tudo certo! Foi uma tarde longa, como previsto. Eu estava muito ansiosa, como previsto. E fui aprovada, como previsto (ainda que eu só tenha acreditado quando recebi o título!). As perguntas não foram tão difíceis quanto o previsto e eu respondi relativamente bem, sem hesitação e com assertividade. A minha apresentação foi impecável visualmente — eu precisava ter uma apresentação impactante na parte visual porque um capítulo da minha tese trata da representação visual. Acho que se eu estivesse menos nervosa,  teria sido um pouco mais articulada na apresentação. Me arrependo um pouco por não ter tido um roteiro escrito, eu só me guiei pelos tópicos do powerpoint. A primeira examinadora foi a mais difícil e percebi que ela não entendeu a proposta de um dos meus capítulos e considerou que ele era uma “tese à parte”. O interessante foi que as outras três elogiaram bastante esse mesmo capítulo e aí surgiu uma pequena polêmica na banca (algo inusitado, uma vez que a banca não pode, em tese, argumentar entre si): a primeira examinadora tentou retrucar, mas, após ter escutado a opinião favorável das outras três, teve a humildade para voltar atrás e sugeriu apenas que eu apenas trocasse a sequência dos capítulos, i.e., o capítulo 2 deveria, segundo ela, virar o capítulo 3). Agradeci a sugestão, porém é claro que eu não vou mudar, hehe. Mas outras sugestões foram super válidas e algumas serão incorporadas. O legal é que não foi absolutamente nada radical, então fica tudo muito fácil. O que me deixou lisonjeada foi o comentário de duas examinadoras que eu publicasse a tese como livro. Juro que não esperava.

Enfim, um dia de muita tensão, mas agora que acabou tudo, muito alívio. Eu não seria capaz, nesse momento, de escrever um post relacionando 10 razões para você escrever uma tese de doutorado, para contradizer o post “Dez razões para você NUNCA escrever uma tese de doutorado”, como eu fiz quando iniciei o público&privado. Tenho muitas dúvidas ainda se tudo valeu a pena. Acho que só vou me dar conta daqui algum tempo.  Mas eu sobrevivi, as meninas sobreviveram e o meu casamento ficou ainda mais sólido, pois o meu marido entendeu as minhas ausências e me deu um apoio irrestrito. Por fim, é isso aí: não vou precisar mudar de identidade, nem inventar desculpas esfarrapadas, nem me exilar em outro país.  🙂 Tudo continua igual e isso é muito bom.Obrigada pelos carinhosos comentários e pela força ao longo dos últimos meses.

Abraços,

Cris

C’est presque Vendredi…

Maio 24, 2007

No hemisfério norte

Já passa da meia noite

Alguém lê no jornal

As notícias de ontem

Alguém escova os dentes

E chama o gato para dentro

Alguém escreve no computador

Palavras como saudade e solidão

Alguém dorme

Alguém tem insônia

Outros sonham 

No hemisfério sul

Já passa das seis da manhã Alguém lê no jornal

As notícias frescas

Alguém escova os dentes

E bota o gato para fora

Alguém rabisca no guardanapo

Palavras como esperança e preocupação

Alguém toma um café apressado

Alguém não dormiu

Outros sonham acordados

C’est jeudi et je pense a toi, mon amie…

Para Cris

É quase sexta e eu me recordo do doce poema que a Regina escreveu para mim, na ocasião da minha qualificação em dezembro. Foi de uma gentileza sem tamanho e lembro muito bem da sensação: eu me senti tão comovida que nem soube agradecer direito. Hoje, nesse canto do hemisfério sul, é quase amanhã. Amanhã é um dia muito importante para mim, é o dia em que um processo que iniciou 5 anos atrás acaba. É o dia no qual serei julgada e criticada, mas também, provavelmente, elogiada. Amanhã é um dia que eu visualizo desde que inicei esse processo. É o meu dia. O cansaço da preparação é grande, mas agora deixo de lado o aspecto prático e começo a me preparar psicologicamente. A concentração voltou, como eu sabia que ia voltar. Tomo o meu chá, escrevo essas palavras, escuto Caetano, preparo o meu banho. Visualizo tudo, me energizo.

Eu já corri 2 maratonas. A última foi em 2005. Há corredores de curta distância, que primam pela velocidade. Há corredores de longa distância, que primam pela perseverança e “endurance”.

— Eu sou uma corredora de longa distância —

Escrevo tudo isso para mim mesma, pois quero lembrar do que sou capaz: amanhã dará tudo certo —  o meu trabalho será reconhecido e eu sentirei que acabei uma das maratonas mais importantes da minha vida. Minha família estará ao meu lado, 5 horas assistindo tudo. As meninas ficarão cansadas, todos ficaremos cansados. Mas eu tenho fôlego e as meninas também terão. Espero que, no fundo, elas fiquem orgulhosas da mãe, que reconheçam o quanto que eu lutei para chegar onde cheguei. Afinal, elas foram minhas cúmplices todo esse tempo. E que elas tenham coragem para correr  as maratonas de suas vidas.

 Hoje, é quase amanhã, sexta-feira, 25 de maio de 2007.

Estarei vestida com as roupas e as armas de Jorge.  

Ao meu marido, não tenho “another answer to make but thanks, and thanks,

forever thanks” (Shakespeare) 

Fora do ar.

Maio 20, 2007

Vou ficar fora do ar durante alguns dias. A internet atrapalha a minha concentração. Até depois!

Cris

Em tempo.

Maio 20, 2007

Uma tese é uma tese

MARIO PRATA

Quarta-feira, 7 de outubro de 1998 CADERNO 2
Sabe tese, de faculdade? Aquela que defendem? Com unhas e dentes? É dessa tese que eu estou falando. Você deve conhecer pelo menos uma pessoa que já defendeu uma tese. Ou esteja defendendo. Sim, uma tese é defendida. Ela é feita para ser atacada pela banca, que são aquelas pessoas que gostam de botar banca.

As teses são todas maravilhosas. Em tese. Você acompanha uma pessoa meses, anos, séculos, defendendo uma tese. Palpitantes assuntos. Tem tese que não acaba nunca, que acompanha o elemento para a velhice. Tem até teses pós-morte.

O mais interessante na tese é que, quando nos contam, são maravilhosas, intrigantes. A gente fica curiosa, acompanha o sofrimento do autor, anos a fio. Aí ele publica, te dá uma cópia e é sempre – sempre – uma decepção. Em tese. Impossível ler uma tese de cabo a rabo.

São chatíssimas. É uma pena que as teses sejam escritas apenas para o julgamento da banca circunspecta, sisuda e compenetrada em si mesma. E nós?

Sim, porque os assuntos, já disse, são maravilhosos, cativantes, as pessoas são inteligentíssimas. Temas do arco-da-velha. Mas toda tese fica no rodapé da história. Pra que tanto sic e tanto apud? Sic me lembra o Pasquim e apud não parece candidato do PFL para vereador? Apud Neto.

Escrever uma tese é quase um voto de pobreza que a pessoa se autodecreta. O mundo pára, o dinheiro entra apertado, os filhos são abandonados, o marido que se vire. Estou acabando a tese. Essa frase significa que a pessoa vai sair do mundo. Não por alguns dias, mas anos. Tem gente que nunca mais volta.

E, depois de terminada a tese, tem a revisão da tese, depois tem a defesa da tese. E, depois da defesa, tem a publicação. E, é claro, intelectual que se preze, logo em seguida embarca noutra tese. São os profissionais, em tese. O pior é quando convidam a gente para assistir à defesa. Meu Deus, que sono. Não em tese, na prática mesmo.

Orientados e orientandos (que nomes atuais!) são unânimes em afirmar que toda tese tem de ser – tem de ser! – daquele jeito. É pra não entender, mesmo. Tem de ser formatada assim. Que na Sorbonne é assim, que em Coimbra também. Na Sorbonne, desde 1257. Em Coimbra, mais moderna, desde 1290. Em tese (e na prática) são 700 anos de muita tese e pouca prática.

Acho que, nas teses, tinha de ter uma norma em que, além da tese, o elemento teria de fazer também uma tesão (tese grande). Ou seja, uma versão para nós, pobres teóricos ignorantes que não votamos no Apud Neto.

Ou seja, o elemento (ou a elementa) passa a vida a estudar um assunto que nos interessa e nada. Pra quê? Pra virar mestre, doutor? E daí? Se ele estudou tanto aquilo, acho impossível que ele não queira que a gente saiba a que conclusões chegou. Mas jamais saberemos onde fica o bicho da goiaba quando não é tempo de goiaba. No bolso do Apud Neto?

Tem gente que vai para os Estados Unidos, para a Europa, para terminar a tese. Vão lá nas fontes. Descobrem maravilhas. E a gente não fica sabendo de nada. Só aqueles sisudos da banca. E o cara dá logo um dez com louvor. Louvor para quem? Que exaltação, que encômio é isso?

E tem mais: as bolsas para os que defendem as teses são uma pobreza. Tem viagens, compra de livros caros, horas na Internet da vida, separações, pensão para os filhos que a mulher levou embora. É, defender uma tese é mesmo um voto de pobreza, já diria São Francisco de Assis. Em tese.

Tenho um casal de amigos que há uns dez anos prepara suas teses. Cada um, uma. Dia desses a filha, de 10 anos, no café da manhã, ameaçou:

– Não vou mais estudar! Não vou mais na escola.

Os dois pararam – momentaneamente – de pensar nas teses.

– O quê? Pirou?

– Quero estudar mais, não. Olha vocês dois. Não fazem mais nada na vida. É só a tese, a tese, a tese. Não pode comprar bicicleta por causa da tese. A gente não pode ir para a praia por causa da tese. Tudo é pra quando acabar a tese. Até trocar o pano do sofá. Se eu estudar vou acabar numa tese. Quero estudar mais, não. Não me deixam nem mexer mais no computador. Vocês acham mesmo que eu vou deletar a tese de vocês?

Pensando bem, até que não é uma má idéia!

Quando é que alguém vai ter a prática idéia de escrever uma tese sobre a tese? Ou uma outra sobre a vida nos rodapés da história?

Acho que seria uma tesão!

1998 – O Estado de S. Paulo

Você não agüenta mais…

Maio 18, 2007

…me ouvir falar sobre o mesmo assunto? Nem eu! Sorry folks, está chegando no final.  Para provar como a concentração tá difícil por aqui, vou mostrar o que fiz hoje hoje. Um bolo delicioso de laranja. Adoro esse bolo porque ele é definitivamente o mais fácil que eu já fiz. Esse bolo é à prova dos mais desastrosos na cozinha e também para aqueles que reclamam que nunca tem tempo. Literalmente 10 minutinhos, olha só que fácil. 

Ingredientes:

1 laranja com casca e sem sementes cortada

3 ovos inteiros

1/2 xc de óleo de canola

1 xc e 1/2 de açucar (uso metade de açucar mascavo e metade de açucar refinado. Se você gosta de coisas bem doces, use 2 xcs)

Bata os ingredientes acima no liquidificador e junte com 2 xcs de farinha (eu uso metade de integral e metade de refinada) peneirada. Depois adicione uma colher de sobremesa de fermento, despeje a massa (fica meio meio grossa) na forma de bolo untada e salpicada de farinha, e asse por uns 35-40 minutos, até o palito sair seco. Fica uma delícia e bem nutritivo. A casca da laranja confere um gosto delicioso ao bolo. O gosto levemente amargo da laranja combina perfeitamente com uma boa calda de chocolate. Eu faço assim: derreto uma barra em banho-maria, misturo com leite – o meu é de soja- e espalho no bolo com uma faca. Faça um café bem forte e pronto! Sei que não está lá muito bonito, mas me dê um desconto, o bolo ficou muito gostoso e o melhor de tudo é que eu nunca, jamais, erro.

 bololaranjacafe.png

E já que estava tirando fotos do bolo, aproveitei para tirar uma foto da mais nova xícara da minha coleção, que eu ganhei no dia das mães.  Ela é daquelas grandes, tipo um canecão. Não é linda?

my_mug.png

Depois do bolo, o meu marido e o namorado da minha filha se animaram e decidiram fazer uma jam-session. Adoro escutar esses dois tocarem juntos. Cada um ensina um pouco para o outro. Mas o mais legal são as improvisações feitas com uma química bárbara. Eu fico sempre impressionada com gente talentosa assim. Aliás, o Guigo toca numa banda e apesar de ser super jovem, é incrivelmente eclético — sabe tocar de tudo um pouco: jazz, bossa nova, chorinhos, música popular brasileira e internacional. E, para a minha felicidade, adora conhecer músicas diferentes, então, muitas vezes, ficamos trocando figurinhas sobre as bandas que conhecemos. Que benção ter alguém como ele na nossa família.  

jamsession.png

E a concentração, cadê? Sei lá, agora eu estou é curtindo esses dois aí em cima tocar; convenhamos, não dá para desprezar esses momentos! Decidi esperar mais um dia para entrar em pânico…. Estou sentindo que será o maior deus-nos-acuda, bem ao meu estilo. Mas dará tudo certo, acho eu. :~)

Bom fim de semana para quem aqui passar!

If music is the food of love, play on.  —Shakespeare (A noite dos reis)

P.S. A minha filha e o namorado criaram um blogue, o Talk&Think. Quer dar uma espiada?

Sobre os próximos dias.

Maio 18, 2007

PROCURA-SE (desesperadamente)

concentração. [1. Ato ou efeito de concentrar(-se). 2. Estado de quem se concentra ou absorve num assunto ou matéria. 3. Bras. Esport. Reunião de atletas à véspera de uma partida, ou de um torneio (ger. em hotel ou clube retirado do centro), a fim de realizarem os últimos treinos, repousarem e receberem instruções.]

A minha defesa é daqui alguns dias e até agora eu não consegui me concentrar para me preparar. Precisa? Sim, precisa mesmo. É mais do que prudente imaginar as respostas para as perguntas que podem ser feitas. Sabem que eu, geralmente, até que consigo ter uma certa habilidade para prever essas coisas. É igualmente importante fazer uma ‘concentração’ nos moldes dos jogadores de futebol e começar a se preparar psicologicamente, pois a tarde será bem longa. Para quem se interessa, a coisa funciona assim:

1. o candidato faz uma apresentação oral da tese – trinta minutos.

2. Os quatro examinadores têm trinta minutos para argüir [1. Repreender, censurar, ciminar, veberar, condenar com argumentos ou razões. 6. Examinar, questionando ou interrogando.]

3. o candidato tem 30 minutos para responder cada examinador [2. Replicar, retorquir, redargüir]

A seção “ataque e defesa” numa defesa de doutorado dura cerca de 4 horas. Os quatro examinadores usarão os seus trinta minutos e tentarão fazer comentários e “argüições” diferentes. Imaginem o que é isso… É um interrogatório incessante; enquanto isso, o candidato tenta anotar todas as elucubrações da banca a fim de respondê-las a contento. 

Ai meus sais… o problema é que, quando eu fico tensa, às vezes esqueço as palavras que acabei de escutar e, além disso, fico temporariamente ensurdecida. Tenho pensado muito sobre que táticas usar; quando eu defendi a minha dissertação, até que fiz uma apresentação boa e respondi moderadamente bem, mas lembro que eu tinha me preparado muito bem. Mas cinco horas (contando com a apresentação e o intervalo) é muita coisa… Será uma tarde longa. 

Enfim, não sei como, mas eu tentarei fazer o meu melhor. Já sei até roupa que vou usar: claro que eu pensei sobre isso, comprei uma roupinha deus-nos-acuda-nesse-momento-de-dor bem básica. Se não me derem o raio do título, tento, pelo menos, sair elegante daquela sala… Mas que vou praguejar, vou! E ainda vou ficar furiosa de ter desperdiçado o meu suado dinheirinho com a tal da roupa… Mas é óbvio que isso não vai acontecer, né? Por isso nem falo, penso, — nem, muito menos, escrevo sobre isso ………..

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Mas se você observar qualquer mudança significativa na voz que ora vos fala, please, pleaaaaase, não toque no assunto, tá? Faz de conta que nada aconteceu ou que você não me conhece. Os posts sobre “o assunto” desaparecerão automaticamente, a minha obsessão com os quadrinhos do PhD comics nunca terá existido e e este blogue será reconfigurado com assuntos radicalmente diferentes. Ah, disso tenham certeza. Se eu me sentir muito humilhada, posso fechar as portas deste estabelecimento e, simplesmente, deixar de existir. Depois do trauma, talvez eu retorne com outra identidade, tendo devidamente mudado de país, para evitar o vexame frente aos colegas e alunos que não param de me perguntar sobre o ‘doutorado’. Quanto às minhas filhas, não tenho vergonha de dizer que apelarei para uma bela mentira. Aconteceu algo terrível lá no departamento, alguém enlouqueceu, sei lá. Jamais admitirei a minha derrota depois de tudo que passei. A mesma desculpa (esfarrapada, naturalmente) será repetida para a minha mãe e irmãos. Apenas o meu marido terá o infortúnio de escutar (for better or for worse, sweetie!) as verdades da minha aniquilação. Coitado do homem!

Ah, mas caso tudo continue igual, é porque tudo ficou igual. 🙂 Só terá sido mais uma fase importante na minha vida, feito um rito de passagem. É isso que eu quero: que tudo fique igual. Não quero mentir, não quero me exilar, não quero fechar as portas do público&privado, nem mudar de blog. Ah, e para as amig@s interessad@s, depois eu conto sobre o mais legal de tudo: a minha roupinha básica (e poderosa!!) 🙂 Pois eu estou vestida com as roupas e as armas de Jorge.  E nem mesmo um pensamento eles possam ter, para me fazer o mal…. 

Torçam por mim!!

Era uma vez um roseiral…

Maio 15, 2007

Era uma vez um velho roseiral que crescia forte e sólido e de cujas hastes brotavam lindas rosas que enfeitavam a porta da entrada de uma casa antiga. Ali ele vive há três gerações: três gerações de mulheres, o roseiral insiste em adicionar. Porque, apesar de muitos homens terem entrado e saído por aquela porta — alguns para nunca mais voltar — o comprometido roseiral, sobrevive, principalmente, para acompanhar a vida dessas mulheres, tão diferentes, e, ao mesmo tempo, tão parecidas.  Afinal, que graça tem em ser um frondoso roseiral, se você não consegue desenvolver a capacidade para passar os teus dias refletindo sobre a vida de alguém? E, quanto à sua escolha, sejemos justos, a vida dessas mulheres era incomparavelmente mais interessante do que a dos homens que ele havia conhecido. Ao longo de todo esse tempo, ele se admirou com as transformações daquelas mulheres, tentou entender o lento crescer, o amadurecer e o envelhecer. Triste, se enterneceu com o inesperado endurecimento, chorou com as lágrimas furtivas, mas, também, sorriu, aliviado, com o olhar terno. Quantas palavras ditas, quantas alegrias e quantas tristezas. E o roseiral, dia após dia, memorizou tudo em sua cabeça de roseiral, até que a vida daquelas mulheres se tornou a sua razão de existir. Porque, verdade seja dita, o prazer dele era contar tudo, com os devidos detalhes e exageros, para os pequeninos botões que dele brotavam e desabrochavam. Aos poucos, então, tornou-se um excelente contador de histórias e tecia belas narrativas sobre aquelas estranhas e fascinantes mulheres: as rosas, curiosas como somente as rosas o sabem ser, suspiravam com os romances, surpreendiam-se com as aventuras, e sofriam com as desgraças das três mulheres. Uma era a avó, a segunda a mãe, e a outra, a neta. 

O roseiral, a despeito de si próprio, admite que suas rosas têm um quê de superioridade, que, quando não primam pela cor, se exibem com as suas fragâncias fortes e exóticas, deixando todo o jardim com um certo cíume. E o roseiral tem toda razão, não há como privar as rosas de sua beleza voluptuosa, de seu desabrochar impetuoso e de sua fragância inebriante.  Por motivos escusos, que escapam o entendimento do sábio e curioso roseiral, os espinhos crescem e, machucam pequenas mãos (provavelmente, da filha da neta, o roseiral não tem certeza e nem tudo pode saber!). Enganam-se os que pensam que os espinhos são uma proteção para as rosas: as mãos da avó e da neta eram deveras destras e sabiam, muito bem, se defender dos espinhos.

O último botão que nasceu, com a força adquirida do sólido roseiral, sobreviveu duas tormentas e alguns dias de frio. Se tornou uma linda rosa. E seguindo o destino das rosas, cresceu linda e orgulhosa de si, esperando o dia certo de mostrar o seu esplendor. Depois de uma noite fria, logo com os primeiros raios de sol, ensaiou o seu desabrochar, e, ao meio-dia, toda faceira, abriu suas pétalas, atraindo borboletas, abelhas e alguns olhares. Linda e majestosa, reinou um reinado curto no jardim daquelas mulheres, que já nem às rosas prestavam mais atenção.

Naquele domingo à tarde, para a surpresa do roseiral, a neta, que há muito não aparecia, entra apressada pela porta. Quanto amor, quanta história, quanto coisa para falar e quão pouco foi dito: a neta sequer se senta. O roseiral pressente tudo, lembra da história da neta, lembra da história da avó… e chora pelas duas — a vida do roseiral, naturalmente, não havia passado incólume àquela separação forçada. A neta, embora visivelmente emocionada, tenta, ao mesmo tempo, esconder sua emoção e olha para a rosa na saída. Pois a neta é fascinada por flores e muito havia se servido das rosas mais bonitas do roseiral, que por vezes até se ressentia. Mas, generoso, o roseiral deixou todo o ressentimento de lado;  conhecendo a neta como ele conhecia, conhecendo a vó como ele conhecia, ele faz o esperado sacrifício: relaxa e verga a sua haste para a mão enrugada e levemente trêmula, que, habilmente, corta a flor na primeira tentativa. A mais bela rosa é ofertada à neta. A neta, por dois segundos, esquece tudo: fecha os olhos e leva a rosa aos lábios e sente (isso é o que o roseiral imagina!) o aroma mais maravilhoso que jamais sentiu. O roseiral fica feliz, muito embora tenha perdido uma de suas mais belas criações. O roseiral cumprira a sua função.

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“Of all the flowers, methinks a rose is best.” (Shakespeare)